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A ponte que une Vila Nova de Cerveira e Tominõ é cruzada diariamente pelos cidadãos transfronteiriços cujo quotidiano se reparte pelos dois países
Reportagem

“Num dia em que não atravesse a ponte, parece que não respiro bem”

Em Cerveira, que olha de frente para Tomiño, na Galiza, ainda há feridas abertas por causa da interrupção do vai-e-vem quotidiano de minhotos e galegos. Para evitar que os laços se voltem a rasgar, caso a pandemia obrigue a novo fecho da fronteira, querem um “cartão de cidadão” que salvaguarde o direito de circulação a quem vive, trabalha, compra ou namora do outro lado do rio. Tomiño já disse que sim.

“Foi como se me cortassem o ar”, descreve José Isac Afonso. Olhos azuis muito em tez morena, o taxista com lugar marcado na praça do centro de Vila Nova de Cerveira, a dois passos da ponte que em menos de dez minutos nos põe em Tomiño, na Galiza, recua a 16 de Março para descrever o que sentiu quando soube que, por causa da pandemia, seria reposto o controlo de fronteiras terrestres com a Espanha. A medida, decidida a régua e esquadro nos gabinetes governamentais de Lisboa e Madrid, ignorou o que qualquer cidadão destas vilas transfronteiriças sabe de sentir na pele: houve casais separados, idosos privados da retaguarda dos filhos e, entre outras interdições, cerca de seis mil trabalhadores transfronteiriços a terem de percorrer centenas de quilómetros para poderem, usando um dos nove pontos de passagem que foram reservados ao transporte de mercadorias e de trabalhadores, chegar de casa ao trabalho ou vice-versa. Passaram a levar horas a fazer o que antes faziam em minutos.