Reuters/George Frey
Foto
Reuters/George Frey

Megafone

Hidroxicloroquina: a simbiose de maus presidentes e fraca decisão científica

Depois de meses de recusa do desaconselhamento da toma de um fármaco sem qualquer evidência científica — e com dezenas de estudos que podiam ter sido dissecados como comprovativo da sua não provada eficácia —, escolher um artigo observacional e sem avaliação por pares, cheio de inconsistências óbvias, é probatório da ineficácia das instituições

No início de Abril, foi anunciado pelo presidente Trump que os Estados Unidos estariam no processo de stockpiling de 29 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina, sem qualquer tipo de comprovativo de eficácia por parte da Food and Drug Administration (FDA, a agência do medicamento norte-americana), e citando um artigo não sustentado como alicerce de decisão. Estudo esse publicado sem avaliação por pares, com falta de um grupo de controlo válido ou sem randomização dos pacientes objectos de estudo, e imediatamente colocado em causa pela generalidade da comunidade científica, não existindo ainda um teste clínico com dados e técnica íntegros ao ponto de serem aceites.

Isto deve-se ao facto de em casos de pessoas com sintomas graves, às quais lhes foi administrado o fármaco, sucederam episódios de arritmia e eventos cardiovasculares, que levantam a questão da viabilidade do uso no caso de pacientes com um quadro clínico grave ou comorbilidades subadjacentes. E, assim, um anti-viral imunomodulador torna-se político.

De facto, na altura, e mesmo agora, a única preocupação do presidente seria garantir que a população retomasse a sua vida quotidiana sem um medo frenético do contágio do vírus, não sendo possível dar uma resposta em termos de terapêutica que permitisse imunidade ou tratamento farmacológico eficaz. A hidroxicloroquina transformou-se numa espécie de colete salva-vidas homeopático para o senhor Trump. Como, aliás, já nos foi habituado pela Land of The Free, tornou-se numa questão cultural fracturante.

A Dra. Birx e o Dr. Fauci, ou qualquer outro dos especialistas da task force, em momento algum asseguraram a eficácia do medicamento para o tratamento da covid-19, porque, na realidade, não o poderiam fazer. Indubitavelmente, no dia 19 de Junho, a FDA retirou ao Governo americano a autorização de uso de emergência do fármaco, mas não antes de toda a cadeia de distribuição da hidroxicloroquina para pacientes com artrite reumatóide e lúpus ser posta em causa, colocando em risco a vida de milhares de doentes com estas patologias auto-imunes.

O mesmo poderá ser dito de Bolsonaro. Depois de ter ordenado ao laboratório farmacêutico militar a produção em massa de hidroxicloroquina, e posteriormente ter investido na compra à Índia de matéria química para a produzir, apresenta-se como o principal motor de marketing da auto-intitulada “cura de Deus” — embora não consiga realizar demonstrações terrenas para comprovar a sua eficácia. Pode parecer engraçado ver um presidente de uma grande nação mundial a pavonear-se com um blister à frente do palácio presidencial, mas rapidamente deixa de ter piada ao imaginarmos o paciente com episódios cardíacos passados, ou com alguma patologia que afecte o seu sistema cardiovascular, que possa acreditar na palavra do seu presidente e acabe por morrer da toma não supervisionada da hidroxicloroquina. E aqui chegamos às agências de medicamento.

Até hoje, nenhuma instituição mundial anunciou o seu apoio à utilização do fármaco para efeitos de tratamento do novo coronavírus. Desde Março até meados de Junho, nenhuma das instituições que regulam o mercado tomou uma decisão unilateral que prevenisse a tomada de decisão política acerca do medicamento sem uma base de apoio científico-institucional. Pelo contrário, a Organização Mundial de Saúde citou um agora desacreditado estudo observacional da Lancet, como base da sua tomada de decisão acerca da paragem de qualquer teste clínico com o fármaco e de se posicionar contra a utilização do mesmo.

O dito artigo era, à primeira vista, problemático, ao citar erros estatísticos óbvios, como assumir que taxas de obesidade e de tabagismo eram idênticas à escala mundial, e até aproximações sem dados para as suportarem, tendo sido obviamente retractado pela própria publicação. Este amadorismo e tomada de decisão com teor científico dúbio coloca as ditas instituições ainda mais descredibilizadas no palco da decisão política mundial.

Depois de meses de recusa do desaconselhamento da toma de um fármaco sem qualquer evidência científica — e com dezenas de estudos que podiam ter sido dissecados como comprovativo da sua não provada eficácia —, escolher um artigo observacional e sem avaliação por pares, cheio de inconsistências óbvias, é probatório da ineficácia das instituições. É principalmente erróneo e não ético teimar em “ciência sem politiquices” e, em alternativa, deixar políticos tomarem decisões importantíssimas sem contraditório científico. 

Sugerir correcção