Última obra de Van Gogh terá sido pintada a poucos metros do albergue onde morreu

Com a ajuda de um velho postal, o especialista Wouter van der Veen acredita ter encontrado o cenário em que o pintor se inspirou para pintar Raízes de Árvores: a actual Rue Daubigny, em Auvers-sur-Oise.

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Raízes de Árvores Colecção Museu Van Gogh, Amesterdão
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Postal da Rua Daubigny (1900-10) DR

Esta quarta-feira, 29 de Julho, passam exactamente 130 anos sobre o momento da morte de Vincent Van Gogh (1853-1890), na sequência do disparo que, dois dias antes, nesse ano de 1890, o artista holandês desferira sobre si próprio. E a efeméride foi assinalada no local onde tudo aconteceu, Auvers-sur-Oise, a norte de Paris, com o anúncio de uma descoberta inesperada: o cenário daquele que se crê ter sido o último quadro pintado por Vincent, Raízes de Árvores (1890), pertencente à colecção do Museu Van Gogh, em Amesterdão.

O autor do achado é Wouter van der Veen, grande especialista mundial na obra do autor de Os Girassóis e director científico do Instituto Van Gogh, com sede no velho Albergue Ravoux, em Auvers, onde o pintor sucumbiu às primeiras horas desse 29 de Julho, aos 37 anos.

A história, que decorre do confinamento também vivido em França nestes tempos de pandemia, foi assim contada pelo próprio Van der Veen ao jornal Le Parisien: “Eu estava fechado em casa, como todos os franceses, e comecei a fazer arrumações. Alguns meses antes, tinha digitalizado vários postais antigos, dos anos 1900-1910, propriedade de uma velha senhora de Auvers. Um deles, que eu tinha no ecrã do computador, representa um ciclista parado na berma de um caminho, hoje a Rua Daubigny. O meu olhar foi atraído, no plano mais próximo, por uma árvore com as suas raízes, e tive logo a impressão de ter já visto esta imagem…”

Aumentou e analisou repetidamente a fotografia, comparando-a com Raízes de Árvores, e ficou convencido de que estavam lá as raízes descarnadas pintadas por Van Gogh. “Fiquei um pouco incrédulo. Mesmo quando se é um especialista, podemos avançar com teorias bizarras. E sobre Van Gogh há tantas... Mas quanto mais eu avançava, mais ganhava a certeza de que tudo fazia sentido”, acrescentou Van der Veen ao diário francês.

Em meados de Maio, no final do confinamento, o especialista deslocou-se à Rua Daubigny, a escassos 150 metros do Albergue Ravoux, para estudar o lugar, e o que viu confirmou a sua tese, sustenta. Debaixo de uma vegetação desordenada e junto a um muro, lá continuam as raízes descarnadas de várias árvores. “Foi incrível: nada tinha mudado, ou quase nada, desde aquela fotografia. Aquilo estava debaixo dos nossos olhos, mas ninguém jamais fizera a ligação”, diz o historiador de arte.

A tese de Van der Veen obteve a concordância não apenas da equipa do Instituto Van Gogh em Auvers-sur-Oise, como do Museu Van Gogh de Amesterdão, cuja directora, Emilie Gordenker, se deslocou no início desta semana à cidade francesa para, com o director daquele instituto, Dominique-Charles Janssens, e na companhia do bisneto de Theo Van Gogh, William, ver o local e assinalar a descoberta.

Na Rua Daubigny, junto à porta n.º 48, foi colocada uma barreira de protecção e descerrada uma placa a enriquecer a iconografia relativa aos últimos tempos da vida do pintor, que ficou hospedado no Albergue Ravoux. A casa, musealizada e tornada sede do instituto, encontra-se actualmente encerrada para visitas, mas deverá reabrir ao turismo no próximo ano.

A descoberta de Wouter van der Veen, além de desvendar um mistério com 130 anos — o de saber qual foi, afinal, o último quadro realizado pelo pintor —, vem também, acredita o investigador, abrir novas hipóteses de leitura dos últimos dias e momentos da vida de Van Gogh. Já se acreditava, desde 2012, que Raízes de Árvores (um quadro de grandes dimensões: 100 x 50 cm) terá sido o seu trabalho derradeiro. A tese, defendida pelo investigador Louis van Tilburg e pelo paisagista Bert Maes — lembra o The Art Newspaper —tem por base um artigo escrito em 1893 pelo cunhado de Theo Van Gogh, Andries Bonger, que a dada altura diz que Vincent, “na manhã anterior à sua morte, pintou uma cena de floresta cheia de sol e vida”. Uma descrição que condiz com o plano aproximado de raízes e troncos de árvores entrelaçados, sem qualquer contexto ambiental, que vemos na tela.

Esta tese veio substituir a anterior convicção de que a última pintura de Van Gogh teria sido Campo de Trigo com Corvos (1890), também pertencente ao Museu Van Gogh.

A teoria agora avançada por Wouter van der Veen é que o artista terá pintado Raízes de Árvores mesmo nesse dia 27 de Julho, maioritariamente de manhã, mas terminando-o à tarde, antes disparar o tiro que haveria de se mostrar fatal dois dias depois.

“Tendo trabalhado durante horas numa pintura que mostra a sua preocupação com a luta incansável entre a vida e a morte, Van Gogh, sentindo-se sozinho e sem saída, decidiu procurar o seu descanso terrestre no sol poente, nos arredores da vila, com vista para um campo de trigo recém-colhido”, disse, citado pelo jornal britânico, Van der Veen, que vê assim em Raízes de Árvores “uma nota de despedida” em pintura.

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