Merkel: um anjo chamado Angela?

Merkel é uma estadista singular e de excepção, a quem todos deveremos muito, mas não é santa, nem anjo, nem sequer uma amiga especial ou oculta.

1. A propósito das negociações do Fundo de Recuperação, foram muitas as análises sobre a visão e o papel da chanceler Angela Merkel. Muitas delas, fortemente influenciadas pela máquina de comunicação que gira em torno de António Costa. Assim como no passado (designadamente durante a crise das dívidas soberanas) se exagerou na crítica ao seu posicionamento alegadamente ortodoxo, também agora se carregou nas doses de angelismo da chanceler. Com a finalidade ínvia de fazer de Merkel um anjo da guarda e, em especial, um anjo da guarda de Costa. Mas Merkel — para o bem da Europa, da Alemanha e até nosso — não é nada disso. É uma estadista singular e de excepção, a quem todos deveremos muito, mas não é santa, nem anjo, nem sequer uma amiga especial ou oculta.

2. Quem passear pelos media portugueses fica com a sensação de que Angela Merkel quereria tudo o que António Costa quer, mas há uns malvados “frugais” que lhe estragam as contas e limitam as boas intenções. Teria sido assim com o Fundo de Recuperação e já fora assim com a recente eleição do presidente do Eurogrupo. E acrescente-se, já sem os frugais, mas com o não menos “diabólico” PPE, havia sido assim com a escolha do presidente da Comissão, em que foi preterido o socialista Timmermans. São narrativas pueris, que entre nós fazem caminho. Vejamos uma coisa de cada vez, de modo a poder, ao menos, sugerir uma visão diferente do papel de Merkel enquanto estadista.

3. Merkel e Macron apresentaram a proposta de um fundo de relançamento económico e social de 750 mil milhões euros, dos quais 500 mil milhões corresponderiam a subsídios. Esta proposta foi seguida pela Comissão. Aqui chegados, começámos a ver a contestação dos frugais, liderados incontestavelmente pelo primeiro-ministro holandês, Rutte. E também do grupo de Visegrado, seja pela questão do Estado de direito, seja pelos chamados “rebates”.

Entre os frugais, de resto e para que conste, contavam-se três primeiros-ministros socialistas, da família de António Costa. A sua influência junto dos socialistas europeus parece parca… Sabemos como tudo terminou, com uma redução dos subsídios, um aumento dos “rebates” (com excepção do alemão) e uma neutralização da cláusula do Estado de direito. Em Portugal, foram muitos os que viram estas regressões como uma derrota parcial de Merkel.

Ora, tal crença não resiste à pergunta: quando Merkel avança com 500 mil milhões, alguém acha que ela pensava que esse número não desceria? Alguém acredita que ela não contava com uma subida dos “rebates”? Não é preciso adivinhar, basta ouvir as suas repetidas declarações sobre a dificuldade em obter um acordo e sobre a complexidade e morosidade das negociações.

Haverá realmente quem pense que não havia vontade “alemã” de ir ao encontro dos frugais, quando boa parte da sua opinião pública é frugal? Merkel foi ousada e compreendeu a gravidade do momento, mas também conhece bem a diversidade dos seus pares. Não é, pois, de todo crível que, ao fazer as suas propostas, ela as faça sem considerar os ajustes e acertos da negociação.

4. O mesmo vale para o episódio da eleição do presidente do Eurogrupo, em que Merkel apoiaria a candidata socialista espanhola, que terá sido derrotada pelos “frugais” e pelo PPE. Se Merkel estivesse mesmo empenhada nessa escolha, e dado que a diferença foi de um voto, não teria feito o “trabalho de casa” e convencido um dos Estados a mudar o voto? Seria assim tão difícil e custoso? Será que ninguém equacionou que a Espanha já tinha o alto-representante para a Política Externa? Poderia o mesmo país ficar com dois altos cargos, provindos do mesmo partido? Não digo que Merkel tenha sido cínica. Foi, como sempre, realista. Não estava em causa um interesse vital da Alemanha e, porventura, uma boa parte da zona euro dar-se-ia melhor com um irlandês. E, por isso, o Eurogrupo não valia o esforço. Com qualquer dos candidatos, ela estava bem e deixou-se estar. Um aparente revés pode até ser um trunfo futuro.

5. O mesmo se diga sobre a não eleição do socialista holandês Timmermans para presidente da Comissão, que, em artigos recentes, António Costa e Teresa de Sousa lembraram nestas páginas. Antes de prosseguir, um aparte: será que hoje, com tudo o que se passou, Costa ainda apoiaria Timmermans? Um holandês, socialista como tantos frugais, colega de governo de Dijsselbloem? Ou estaremos melhor com uma antiga ministra de Merkel? Será que Merkel queria mesmo Timmermans como presidente da Comissão? Será que ela fez tudo o que estava ao alcance para o impor nesse cargo? Ou será que afinal preferia outra solução, ou, no mínimo, considerava que ganhava com qualquer uma delas? Escreve quem foi testemunha ocular de boa parte desses arranjos e só direi que, em nenhum momento Merkel fez ou sequer quis fazer de Timmermans uma questão de vida ou de morte. Será que alguém se atreve a dizer que a substituição de Timmermans por Ursula von der Leyen, seu eterno delfim, foi um revés para a chanceler alemã?

6. Será o angelismo um atributo de Merkel? Será que uma estadista deste calibre pode ser naïf ou ingénua? Se pode esquematizar-se a personalidade de uma figura política com a densidade de Angela Merkel, eu poria em destaque dois traços fortes, ambos muito raros. O primeiro, a honestidade, a franqueza e o realismo com que se dirige aos seus pares e interlocutores e, não menos importante, aos seus eleitores. Com Merkel, ninguém cria falsas expectativas nem engendra ilusões. O segundo, uma nítida consciência da complexidade e da dificuldade das decisões, em especial nas sociedades hodiernas. A ciência da complexidade está obviamente nos antípodas do populismo, de todos os populismos. Estes dois traços estão evidentemente ligados, porque só pode falar verdade quem tenha uma aguda consciência da complexidade. Não é por acaso que os populismos são sempre simplistas e redutores. Merkel é Angela, mas não é um anjo. Ainda bem. Para a Europa e para todos nós.