Bolsonaro e os 152 conjurados

Quando se escrever a História destes tempos no Brasil, estes 152 bispos e arcebispos serão lembrados como aqueles que cumpriram o seu dever.

Cento e cinquenta e dois bispos e arcebispos católicos brasileiros estão de parabéns. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), para já, demarcou-se dos signatários, afirmando que o conteúdo da “Carta ao Povo de Deus” está em análise e que, por ora, apenas responsabiliza quem a subscreveu. Não deixa de ser uma posição pífia.

A Igreja Católica é a mais antiga instituição do mundo, como a entendemos em Sociologia, e, também por isso, cometeu já várias atrocidades de que a Inquisição é o expoente máximo. Isto num mundo em que criticar com razão e oferecer soluções tornou-se uma actividade de risco, em especial em um país onde a religião – como em outros – serviu muitas vezes de suporte a regimes autoritários e totalitários, bastando recordar a ligação entre Salazar e Cerejeira.

Sou um defensor da separação entre as Igrejas e o Estado, mas tal não implica que, no âmbito da tarefa que cada uma delas prossegue – o desenvolvimento completo do ser humano, o amor, a paz, a harmonia –, não haja um dever ético e moral de quem se afirma seguir os valores de Deus, vir a terreiro quando esses mesmos valores estão ameaçados. Em especial quando a ameaça é brutal. Para mim, não se trata de uma opção, mas de uma obrigação, ainda que essas Igrejas possam vir a ser prejudicadas pelos regimes políticos. E Bolsonaro tem usado o nome de Deus em vão, numa espécie de messianismo velho de séculos, a lembrar o despotismo esclarecido. Simplesmente, para bem das nossas sociedades, já há muito não cabe aos papas reconhecerem países ou coroarem chefes de Estado. Para bem das nossas sociedades, quando há pouco tempo Trump, outro dos cavaleiros do apocalipse, apareceu em frente a uma igreja com uma bíblia na mão como mero adereço teatral, só os seus mais encarniçados e doentios defensores acharam que tudo aquilo era normal.

Como nada saudável para a democracia foi o espectáculo de Bolsonaro ajoelhado quase em transe perante Edir Macedo, que o ungiu com o seu alegado poder e o consagrou Presidente de todos os brasileiros, numa cerimónia que poderia ter substituído a oficial tomada de posse. Conhecemos a influência da “bancada evangélica” em terras de Vera Cruz, mas é óbvio que a monstruosidade do sucedido seria igual se perpetrada perante oficiante de qualquer outra religião. Como se adivinha que, em surdina, Bolsonaro se prepare para fazer a vida negra a quem agora o critica, bastando lembrar a sua imagem a cavalo, qual general sanguinário em luta contra os infiéis.

E o que dizem os 152 clérigos? Depois de reconhecerem a “gravidade do momento”, falam em “tempestade perfeita”: “a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República (…), resultando numa profunda crise política e de governança.”

Apontam o dedo ao evidente desprezo pela ciência e afastam as tentativas de Bolsonaro “naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino”. Sem papas na língua, onde outros calam, erguem-se estes bispos: “analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”.

Assumindo que a Igreja não pode alhear-se nunca do político, no sentido do bom governo da “polis” e da protecção dos mais fracos, são categóricos onde outros tergiversam: “[é] insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”. Para além da evidente incompetência e ineficiência, diagnosticam que o Brasil se aproxima do “totalitarismo e utiliza expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a actos contra a democracia, o uso de armas de fogo pela população, (…) o recurso à prática de suspeitas acções de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais”.

A crise é ainda mais profunda, pois são os alicerces básicos de qualquer sociedade ruem: “o desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia (…), as demonstrações de raiva pela educação pública, [o] apelo a ideias obscurantista”. O Governo “desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no país, privilegiando apenas grandes grupos económicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem.”.

Cereja no topo do bolo: “[o] Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à covid-19, (…) sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas”. Por tudo isso, a finalizar, propõem o que podem enquanto prelados: “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito”.

Deus há-de estar feliz com estes seus servidores. Porque não se vergaram ao politicamente correcto, não assobiaram para o lado, numa palavra, mostraram serem verdadeiros pastores, mais essenciais em tempos de trevas. A mensagem axial do Evangelho está aqui: que nunca se cale a tua voz e que nunca se te tolham os movimentos perante os desmandos, na certeza de que quando o mais pequeno de entre nós sofre, é toda a sociedade que está doente. E perante a doença, quem prega a boa nova só pode trazer a verdade e denunciar derrapagens totalitárias.

Quando se escrever a História destes tempos no Brasil, estes 152 serão lembrados como aqueles que cumpriram o seu dever. Kant esconjurava qualquer recompensa a quem se limita a fazê-lo. Mas os tempos são outros e estas 152 almas podem hoje dormir mais descansadas.