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No Sudão, um quarto da população está a passar fome

Escalada de conflito no Darfur, crise económica e impacto da pandemia de covid-19 estão a devastar o país. Se nada for feito, os sudaneses podem cair na “insegurança alimentar crónica e na pobreza”.

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Duas mulheres caminham no distrito de Burri, em Cartum MOHAMED NURELDIN ABDALLAH/Reuters

Numa altura em que se intensifica o conflito na região do Darfur, mais de 9,6 milhões de pessoas – um quarto da população – estão a passar fome no Sudão e a situação pode agravar-se nos próximos tempos, alertam as Nações Unidas. As situações mais complicadas vivem-se na região de Cordofão do Sul e no estado do Nilo Azul. No entanto, a fome é transversal aos 18 estados do país, inclusive na capital, Cartum.

“Se nenhuma medida for tomada, as pessoas podem cair na insegurança alimentar crónica e na pobreza”, alertou Woo Jung Kim, do Programa Alimentar Mundial, ao The Guardian.  

A fome severa no país tem sido potenciada por vários factores, desde o conflito no Darfur, que se agravou nos últimos dias, até ao impacto da crise económica e da pandemia de covid-19.

Segundo as Nações Unidas, parte da população sudanesa já tinha dificuldades no acesso a alimentos e medicamentos. Com a chegada da pandemia ao país, que levou ao encerramento de vários sectores da economia, a crise agravou-se e apenas 15% dos medicamentos essenciais estão disponíveis para a população.

O Fundo Monetário Internacional estima que a inflação do Sudão atinja os 10% e que a dívida do país chegue aos 258% do PIB. O primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, considera que o país necessita de pelo menos oito mil milhões de dólares no curto prazo para enfrentar.

Além disso, a pandemia – que já infectou 11.424 pessoas e causou a morte de 720 no país –, levou a um aumento do preço dos alimentos, e milhões ficaram privados de acesso a comida.

“Por vezes, temos duas refeições por dia, mas, muitas vezes apenas uma”, afirmou ao Guardian Wisal Abu-Sham, que luta para conseguir alimentar os 13 filhos. “Preparámos a nossa terra para plantar sésamo, mas ainda não choveu e, por isso, temos de comer algumas das nossas sementes que deveriam ser plantadas.”

Gwi-Yeop Son, coordenadora das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Assuntos Humanitários no Sudão, afirmou que o país precisa de ajuda imediata – pelo menos 283 milhões de dólares, só para gerir o impacto da covid-19 –​,  porque, caso contrário, é toda a região que fica em risco. “A covid-19 chegou ao Sudão numa altura em que grande parte da população já tinha dificuldades em satisfazer as suas actividades básicas e o sistema de saúde já estava sob enorme pressão”, afirmou Son, numa conferência virutal na semana passada.” Se o Sudão não estiver seguro, ninguém na região estará”, alertou. 

Violência no Darfur 

A juntar-se a estas dificuldades, a violência no Darfur aumentou substancialmente nos últimos dias, o que levou o primeiro-ministro a anunciar o envio de mais tropas para a região.

No sábado passado, segundo a ONU, 500 homens armados invadiram a cidade de Masteri, a cerca de 50 quilómetros da província de Geneina, e assassinaram 60 pessoas. Dezenas de casas foram assaltadas e queimadas, assim como mercados da região.

Os ataques ainda não foram reivindicados, mas foram dirigidos a agricultores de tribos africanas que estão em conflito com tribos árabes pelo controlo de terras naquela região, numa altura em que começou a época agrícola, fundamental para o país conseguir produzir alimentos até final do ano.

“A escalada de violência em diferentes partes da região do Darfur está a levar a um aumento dos deslocados, comprometendo a época agrícola, e a causar perdas de vidas e de meios de subsistência, bem como a impulsionar a necessidade de ajuda humanitária”, alertou o Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), em comunicado citado pela BBC.

Tendo em conta o aumento da violência, o chefe do Governo de transição, Abdalla Hamdok, garantiu que vai proteger os cidadãos da região, bem como as plantações agrícolas.

O Darfur tem sido palco de uma violenta guerra nas últimas décadas e estima-se que pelo menos 300 mil pessoas tenham morrido, num conflito que causou ainda cerca de três milhões de deslocados.

No ano passado, Omar al-Bashir, que liderou o país durante 30 anos, depois de ter chegado ao poder através de um golpe militar, foi deposto e é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes de guerra cometidos entre 2003 e 2008 no Darfur, durante uma revolta contra o seu regime.

De acordo com a acusação, o seu Governo, armou milícias de tribos árabes que levaram a cabo campanhas de limpeza étnica das comunidades de origem africana. O Governo provisório de Abdalla Hamdok, enquanto tenta negociar a paz no Darfur, já abriu a porta à entrega de Omar al-Bashir ao TPI, para que o ex-presidente possa ser julgado.

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