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Ex-primeiro-ministro malaio condenado a 12 anos de prisão em escândalo de corrupção

Najib Razak foi considerado culpado de sete acusações de corrupção e condenado a 12 anos de prisão e a pagar 50 milhões de dólares. No total, está acusado de outros 42 crimes em cinco processos ligados ao fundo 1MDB. Autoridades acreditam que mais de 4,5 mil milhões de dólares de um fundo estatal foram desviados para financiar vidas de luxo.

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Najib Razak está acusado de 42 crimes. Esta terça-feira, foi condenada por sete EPA/FAZRY ISMAIL

O antigo primeiro-ministro da Malásia Najib Razak foi condenado esta terça-feira por corrupção, num processo relacionado com o fundo de investimento estatal 1Malaysia Development Bank (1MBD). Segundo o veredicto, Razak foi considerado culpado das sete acusações de corrupção, tendo transferido ilegalmente cerca de dez milhões de dólares deste fundo de dinheiro público para a sua conta bancária pessoal, através de uma antiga subsidiária.

O juiz Mohadamad Ghazali, do Tribunal Superior de Kuala Lumpur, considerou que a acusação conseguiu “comprovar o seu caso além da dúvida razoável” e condenou o ex-primeiro-ministro, de 67 anos, a 12 anos de prisão por abuso de poder e a pagar uma multa de 50 milhões de dólares. Além disso, foi condenado a mais dez anos de prisão por cada uma das outras seis acusações de abuso de confiança e lavagem de dinheiro. Na Malásia, as sentenças são cumpridas em simultâneo, portanto, com esta sentença, Razak, que vai recorrer da decisão, terá de cumprir, no máximo, 12 anos na prisão.

“Certamente que não estou satisfeito com o resultado”, afirmou Najib Razak aos jornalistas no final da sessão. “Definitivamente, este não é o fim mundo, porque existe um processo para recorrer e esperamos ser bem-sucedidos”, reiterou.

A criação do fundo 1MBD deu-se em 2009, quando Razak era primeiro-ministro, e foi apresentada como uma medida para impulsionar o desenvolvimento económico do país. No entanto, alguns anos depois, a sua actividade começou a gerar suspeitas e o caso começou a ser investigado, não só na Malásia, como também nos Estados Unidos, revelando-se um esquema com repercussões a nível mundial.

Durante a leitura da sentença, o juiz revelou os gastos luxuosos do ex-primeiro-ministro malaio e da sua mulher, Rosmah Mansor, também ela acusada de lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Entre os luxos do casal, noticia o The Guardian, estão 800 mil dólares gastos numa joalharia em Itália num só dia e, meses depois, 108 mil euros numa boutique no Hawai.

O antigo primeiro-ministro, que governou a Malásia entre 2009 e 2018, nega as acusações e promete continuar a lutar em tribunal para provar a sua inocência. Contudo, os dez milhões de dólares que recebeu ilegalmente, conforme comprovado em tribunal esta terça-feira, são apenas uma parte de um esquema que poderá levar a que cumpra várias décadas na prisão.

De acordo com a Reuters, as autoridades malaias e norte-americanas afirmam que mais de 4,5 mil milhões de dólares foram desviados do 1MBD, tendo sido utilizados para comprar peças de arte, como quadros de Claude Monet e Vincent Van Gogh, iates, jóias, casas de luxo e até para financiar o filme O Lobo de Wall Street, realizado por Martin Scorsese e protagonizado por Leonardo Di Caprio. O actor norte-americano chegou mesmo a devolver dinheiro doado pelo fundo – um dos financiadores do filme foi Riza Aziz, enteado de Najib Razak.

O caso chegou também a Wall Street e a Goldman Sachs foi mesmo acusada na Malásia. Na semana passada, o banco chegou a um acordo com as autoridades malaias e vai pagar 3,9 mil milhões de dólares para que a Malásia desista das acusações.

Najib Razak está acusado de 42 crimes, em cinco acusações diferentes, tendo recebido, segundo as autoridades, pelo menos 700 milhões de dólares do 1MBD. Num dos processos, que começou em Agosto do ano passado, relata a BBC, o antigo primeiro-ministro está acusado de 21 crimes de lavagem de dinheiro e quatro de abuso de poder, tendo recebido, entre 2011 e 2014, pelo menos 550 milhões de dólares.

Mesmo antes de ter tomar conhecimento da condenação, Razak garantiu que vai lutar por “limpar” o seu nome e prometeu recorrer para tribunais superiores. O ex-primeiro-ministro garante que não utilizou quaisquer dinheiros públicos para financiar a sua vida de luxo e acreditava que o dinheiro que chegava à sua conta pessoal era doado pela família real saudita. Os seus advogados acusam Jho Low, um homem de negócios que está no centro do esquema e que já foi acusado pelas autoridades malaias e norte-americanas, de ter engando Razak.

Cenário político em mutação 

As primeiras acusações contra Najib Razak surgiram há cinco anos, quando ainda estava no poder. No entanto, as autoridades malaias ilibaram-no.

Em 2018, o cenário político mudou radicalmente na Malásia, depois de Mahatir Mohamad, que governou o país com mão de ferro durante 22 anos, ter regressado ao poder, derrotando Razak. Mahatir Mohamad, que liderou a Organização Nacional dos Malaios Unidos (UMNO), o mesmo partido de Razak, durante duas décadas, mudou de lado e concorreu contra o então primeiro-ministro malaio. Derrotou-o, levando à saída do UMNO do poder, a primeira vez que tal aconteceu em 60 anos.

Com a derrota nas eleições, as investigações de corrupção retomaram e, poucos dias depois da vitória de Mahatir Mohamad, a casa de Najib Razak foi alvo de buscas e as autoridades apreenderam centenas de caixas e malas com jóias, bolsas de luxo e dinheiro. Meses depois, o ex-primeiro-ministro foi detido, o que também viria a acontecer com a sua mulher, Rosmah Mansor. Acabariam por ser libertados sob fiança, enquanto novas acusações iam surgindo.

No passado mês de Fevereiro, Mahatir Mohamad, de 94 anos, demitiu-se e o UMNO regressou ao poder, numa coligação liderada por Muhyiddin Yassin. Muito popular junto de alguns sectores do partido, Najib Razak ambicionou recuperar a sua relevância política, mas as acusações de corrupção não caíram, como o próprio poderia esperar, e nos próximos meses deverão ser conhecidas novas sentenças nos casos ligados ao 1MBD.

O julgamento de Razak e as condenações futuras vão desempenhar um papel fundamental no futuro da Malásia. Escreve o Guardian que, como o antigo primeiro-ministro vai recorrer e o caso pode arrastar-se nos tribunais durante mais algum tempo, Razak poderá continuar a influenciar a vida política do país.

Muhyiddin Yassin prometeu combater a corrupção, contudo, desde que o chegou ao poder, as acusações contra Riza Aziz, enteado de Razak, relativamente ao financiamento do filme de Martin Scorsese caíram. Além disso, o actual primeiro-ministro lidera uma coligação frágil e, se por um lado pode aumentar a sua popularidade e credibilidade junto dos malaiaos com o combate à corrupção, por outro pode criar tensões com as facções do UMNO fiéis a Razak, acrescenta a Reuters.

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