Dia 87: O que é ser mãe? E ser avó?

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Mãe,

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Acho que, como todas as mães, estamos sempre a tentar aperfeiçoar-nos, descobrir a pedagogia, receita, caminho melhor para nos relacionarmos com os nossos filhos. É uma das grandes diferenças das novas gerações de mães. Ser mãe passou a ser também um caminho de transformação e crescimento pessoal. E eu acho isso espectacular. Mas às vezes esquecemo-nos que, no dia-a-dia, ser mãe é mais frequentemente... o caos.

É estar a cuidar dos miúdos e da casa e de repente sentir como se tudo o que se está a passar à nossa volta fosse demais para nós. Há uma vertigem quando sentimos que se calhar não vamos conseguir continuar, enquanto paradoxalmente... Continuamos.

É adorar de morte os nossos filhos, mas contar os minutos até que estejam a dormir... E depois de estarem a dormir ter saudades deles.

É sentir durante cinco minutos que temos os melhores filhos do mundo e 15 minutos depois apanharmo-nos a imaginá-los como uns ingratos, que vão acabar a viver debaixo da ponte porque, mais uma vez, saíram da mesa sem mexer uma palha, deixando os pratos no lugar. Para já não falar em agradecer.

É ser invadida por momentos de pânico absoluto quando de repente um pensamento intrusivo nos diz que os podemos perder de um segundo para o outro, que podem ficar doentes, que nós podemos adoecer gravemente e não estar cá para os ver crescer.

É gritar todos os dias os mesmos clichés: “Quando eu tinha a tua idade...”, “Quando fores mãe vais perceber”, “Aprende comigo que eu não duro sempre”, “Quantas vezes é que já disse...”

É ficarmos acordadas à noite a remoer sobre todos os obstáculos reais ou imaginários e a desenhar estratégias de como os superar.

É apanhá-los na maior das asneiras e ter de morder a língua para não desatar a rir, fingindo um ar zangado.

É ter vontades absolutamente incontroláveis de os encher de beijinhos e de comê-los, e depois, como uma professora minha dizia, na adolescência ter pena de não os ter comido!

É sentir rios e rios de culpa por tudo e por nada.

É tocar no maior sentido da vida ao mesmo tempo que atingimos a maior exaustão, o maior medo. Quando aprendemos na pele que não controlamos nada, mas nos iludimos a preparar lancheiras como se estivesse tudo nas nossas mãos.

E ser avó? O que é mesmo ser avó?

Beijinhos
Ana


Querida Ana,

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O desafio é difícil, mas depois da tua declaração do que é ser mãe, não posso fugir dele. Vou tentar.

Ser avó é ter o maior orgulho ao ver como os nossos filhos se transformaram nos melhores dos pais e, no entanto, não resistir a meter a colher, para que sejam ainda melhores.

Ser avó é sentirmo-nos, muitas vezes, entalados entre o desejo de proteger os nossos filhos dos nossos netos, e o impulso de defender os nossos netos dos nossos filhos.

Ser avó é explodir de felicidade a cada reencontro, memorizando cada momento, guardando os caracóis do cabelo e registando as graças deles num livro, fotografando a torto e a direito, num êxtase de descoberta e alegria.

O que seria fabuloso se ser avó não fosse, também, o outro lado da moeda: o medo de perder tudo isto, de nos tornarmos irrelevantes na vida dos nossos netos, à medida que crescem. É odiar o pensamento de que, um dia, vamos ter de recorrer a truques baixos — “A avó tem cá em casa uma coisa para ti” — para que nos visitem.

Ser avó, como tu me disseste numa das nossas cartas, é lembrar os pais que “Vai passar”, escondendo o medo de que não passe, porque se a idade nos mostrou que mais de metade das nossas angústias nunca chegam a acontecer, também nos tirou a ilusão de que coisas más não acontecem às pessoas boas.

E é ficar noites sem dormir, a fingir que controlamos tudo, e a saborear a ilusão de omnipotência. Que se reforça sempre que conseguimos realizar os nossos planos mágicos, e surpreender filhos e netos.

Ah, e também é, aprender a lidar com a frustração de ser retaguarda, aprender a tirar prazer do tempo que ainda temos para nós, um tempo que sabemos tão finito, sem abdicar dos nossos projectos pessoais, do direito à preguiça. É crescer na capacidade de tratar com progressiva indiferença os rios e rios de culpa, por tudo e por nada.

Uf, afinal a lista podia ser infinita. Só falta incluir a lição que uma das tuas filhas me deu, e não esqueci: Ser avó é não nos metermos onde não somos chamados.

Obrigada Ana, por me terem feito avó.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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