Crónica

Até ao fim

Domingo foi Dia dos Avós. E o meu apelo é que cuidemos dos nossos, que não lhes larguemos a mão, que estejamos para eles como eles sempre estiveram para nós.

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"Os dois filhos, que durante a primeira semana foram visita assídua, foram deixando progressivamente de aparecer" Clément Falize/Unsplash

A Ana, vamos chamar-lhe assim, entrou no meu serviço num dia em que chovia torrencialmente. Recebi-a perto das 22h, ainda instável, depois de um enfarte extenso que a levou directamente à sala de hemodinâmica. Com ela chegaram dois filhos aflitos e que tivemos muita dificuldade em tranquilizar. 

Durante cerca de uma semana, a Ana, de 76 anos, lutou pela vida e, numa quinta-feira, a primeira boa notícia chegou: o quadro clínico havia-se estabilizado e era hora de ser transferida para a enfermaria. Infelizmente, o enfarte deixara as suas sequelas e a Ana, que antes do internamento ainda cuidava de uma neta, agora cansava-se com muita facilidade. Cedo se percebeu que a Ana não ia poder voltar para casa sozinha, cozinhar ou cuidar da neta. Agora era ela quem precisava de ser cuidada. 

Os dois filhos, que durante a primeira semana foram visita assídua, foram deixando progressivamente de aparecer. E a Ana, que, ao princípio, nos dizia “coitadinhos, eles trabalham muito”, foi ficando cada vez mais triste. Pela nossa parte, cuidávamos dela o melhor que podíamos e, como acontece muitas vezes em internamentos longos, foi ficando quase “da casa”. 

Nas tardes, sempre que o turno o permitia, gostava de me sentar com ela. Comprei-lhe três vernizes para as unhas, bandas de cera depilatória para o rosto… Acho que, como quase todos no serviço, tentava mitigar um bocadinho a sua tristeza: os dias passavam e ninguém aparecia nas horas de visita. 

E, um dia, tal como seria de esperar, a Ana teve alta. Telefonámos para o filho cujo contacto ficou como referência e combinámos a hora da saída para a quarta-feira seguinte. Quando o dia finalmente chegou, pintei as unhas da Ana de vermelho, a seu pedido, e penteei-lhe os cabelos com cuidado. Sentada no cadeirão, de pijama azul e robe branco, com um saco de papel ao lado com os poucos bens que tinha no hospital, a Ana esperou até que, às 23h, sendo por de mais evidente que ninguém iria buscá-la, aceitou beber um chá e comer uma bolacha. Ajudei-a a deitar-se e pediu-me que lhe tirasse o verniz das unhas. Nunca mais falou. O filho não voltou a atender o telefone. 

Não sei se cientificamente se pode morrer de tristeza, mas ninguém me tira da cabeça que foi o que aconteceu. A Ana foi ficando cada vez mais pequenina, começou a recusar levantar-se, a recusar comer… Foi vista e medicada por psiquiatras, foi mimada por uma equipa inteira. Mas a Ana queria os filhos que não vinham e, na sua ausência, a Ana nunca mais sorriu. Morreu cerca de um mês após a data da suposta alta, com um colega meu e uma assistente operacional como companhia. 

No dia após a morte, o filho apareceu no serviço. Queria saber se tinham lá ficado guardados o colar e os brincos de ouro que a mãe usava quando entrou no hospital. Fui eu quem o recebeu e gosto de acreditar que, apesar do profissionalismo que mantive, os meus olhos lhe disseram tudo aquilo que a minha boca queria poder ter dito. 

Infelizmente, os hospitais do SNS estão cheios de histórias como a da Ana. Não acredito que haja um único profissional de saúde que não conheça uma história destas. Apesar do esforço das equipas e dos serviços sociais, todos os dias estas histórias se repetem.

E se é verdade que hoje em dia o contexto social não facilita que se reúnam as condições necessárias para ter um idoso dependente em casa, também é verdade que não existe nenhuma desculpa para os abandonar. Nenhum hospital põe doentes na rua ou obriga a que as visitas os levem à força e, como tal, nenhum motivo é válido para deixar de os visitar. As soluções, mesmo que não pareçam simples à primeira vista, acabam quase sempre por ser encontradas num esforço conjunto entre famílias, utentes e instituições.

Domingo foi Dia dos Avós. E o meu apelo é que cuidemos dos nossos, que não lhes larguemos a mão, que estejamos para eles como eles sempre estiveram para nós. Eles connosco desde o início. Nós com eles até ao fim. 

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