Torne-se perito

Já chegou o “novo ciclismo”, mas recta da meta continua à “moda antiga”

A primeira grande prova de ciclismo no pós-confinamento traz muitas regras sanitárias - nem todas cumpridas de forma cabal. Na estreia deste “novo ciclismo”, o português João Almeida esteve perto de ser o herói do dia.

Ciclistas da equipa Israel Start-Up na fase de medição de temperatura
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Ciclistas da equipa Israel Start-Up na fase de medição de temperatura LUSA/Santi Otero

Tal como fez com muitas outras actividades, desportivas ou não, a pandemia de covid-19 interrompeu a temporada de ciclismo de 2020. Depois de uma corrida menor na Roménia, sem qualquer expressão, e de várias semanas de estranhos eventos de ciclismo virtual – com os corredores em bicicletas estáticas, em casa –, o ciclismo “a sério” está de volta, com um pelotão de luxo na Volta a Burgos, em Espanha. Com o ciclismo “a sério” chegam regras também elas sérias, mas nem por isso cumpridas à risca.

Não, ninguém pede que um desporto fisicamente tão brutal como o ciclismo seja feito com máscaras na cara. Nem sequer que haja distanciamento de 1,5 metros entre os ciclistas no pelotão. Mas há cuidados a ter. Uma das medidas que já foi bem visível nesta terça-feira, no Norte de Espanha, foi a impossibilidade de partilha de materiais entre ciclistas. Acabou, portanto, a função de “aguadeiro”, na qual um ciclista da equipa ia ao carro buscar águas e comida para os restantes colegas. Até aqui, tudo cumprido.

Fim dos bidons pela estrada

Mas há mais. As regras do “novo ciclismo” prevêem que nenhum corredor possa atirar garrafas de água para o chão – algo comum no ciclismo, havendo, mais tarde, uma equipa de recolha destes vestígios plásticos. Os ciclistas não puderam deixar espalhados pelo percurso os bidons vazios, podendo fazê-lo apenas em locais específicos da etapa. Sucesso também aqui.

O manual de 134 páginas, elaborado pela UCI e pelas autoridades de saúde espanholas, permite a presença de jornalistas na cobertura do evento, mas apenas com um teste negativo à covid-19. Ciclistas e staff das equipas são, por maioria de razão, também eles testados. E não foram apenas procedimentos para “fazer figura”.

Dois ciclistas da equipa Israel Start-Up Nation foram impedidos de alinhar à partida. Um outro ciclista equipa, Omer Goldstein (que nem está nesta prova), testou positivo à covid-19 e, como estiveram em contacto com o companheiro, Itamar Einhorn e Alex Dowsett não puderam ir para a etapa, nesta terça-feira, ainda que tenham sido testados e o resultado tenha dado negativo ao novo coronavírus.

“É uma frustração para mim não poder correr. Mas acho que a equipa tomou a decisão correcta ao garantir que a “bolha” do pelotão é absolutamente segura. Respeito e apoio a decisão de me retirar da corrida. E agradeço à equipa, à organização da corrida e à UCI pelas medidas que tomam para nos garantirem segurança nestes tempos”, argumentou, compreensivamente, o aparentemente saudável Dowsett.

Com tudo cumprido em matéria de organização, o problema é que à população em geral também foram pedidos comportamentos especiais. Distanciamento social, máscara e evitar aglomerados. E isso, pelas imagens da recta da meta, esteve longe de ser cumprido, com pessoas tão juntas e coladas como em qualquer recta da meta à “moda antiga”. E é difícil imaginar cenário diferente deste, a não ser com restrições mais claras na entrada nas zonas da meta.

Para Burgos, a covid-19 foi uma bênção

Poucas pessoas no mundo estarão contentes com a propagação do vírus. Há, no entanto, do ponto de vista puramente desportivo, um cenário muito positivo proporcionado pela covid-19. Para a Volta a Burgos, em concreto, a pandemia significou passar de uma prova secundária, com pouca expressão no calendário, para uma das corridas mais aguardadas do ano.

Habitualmente “ensanduichada” entre a Volta a França e a Volta a Espanha, a corrida de Burgos até teria, em 2020 – como tem de quatro em quatro anos – o problema de coincidir com os Jogos Olímpicos. Seria uma prova ainda mais irrelevante do que já costuma ser, mas o vírus mudou tudo isto.

Sem Jogos Olímpicos e com todas as provas do World Tour adiadas, a Volta a Burgos é, nesta semana, a Meca do ciclismo. Todos os olhares estarão na prova espanhola, seja pela saudade de ver ciclismo de “primeira água”, seja pela curiosidade de ver a adaptação da modalidade às regras sanitárias.

E uma prova que tem, habitualmente, um par ou trio de equipas World Tour tem, em 2020, 14 equipas da nata do ciclismo mundial. Há em prova nomes como Valverde, Carapaz, Evenepoel, Landa, Cavendish, Yates ou Aru. E o português João Almeida, que estará na corrida para apoiar o jovem Evenepoel, vencedor da última Volta ao Algarve, a dar o triunfo à poderosa Quick-Step.

Português João Almeida em destaque

Em Espanha, a primeira das cinco etapas da corrida trouxe, nesta terça-feira, alguma montanha. Uma subida dura a meio da tirada e uma pequena elevação no final, indicada para corredores explosivos – ainda que, no pós-suspensão das provas, fosse difícil imaginar especial explosividade em atletas parados há vários meses.

A fuga do dia – uma escapada pouco profícua – desde cedo pareceu condenada, apesar dos cinco minutos de vantagem que chegou a ter, e o pelotão estava compacto a 50 quilómetros da meta.

Aí, o português João Almeida entrou “ao serviço”. Preparou terreno para aquele que foi um ataque surpreendente de um colega de equipa. E só não foi mais surpreendente quando se percebeu que o autor era o sempre irrequieto e audaz Remco Evenepoel.

O jovem belga atacou, ganhou cerca de um minuto em pouco mais de dois mil metros e seguiu sozinho durante cerca de 15 quilómetros. Não se percebeu se foi um ataque com real intenção de sucesso, tendo parecido, por outro lado, mais um testar de pernas para o que ainda aí vem da corrida e da temporada.

Na subida final, Felix Grosschartner, da BORA, atacou de forma explosiva – não parece ter sofrido com a paragem – e não permitiu que alguém tivesse pernas para o neutralizar. O único capaz de dar resposta foi o português João Almeida, que cortou a meta em segundo lugar, superando os “tubarões” Alejandro Valverde, Alex Aranburu e Mikel Landa.

Nesta quarta-feira haverá uma etapa suave, boa para os vários bons sprinters presentes na prova.

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