Carvalhal regressa ao Sp. Braga, clube que não o queria ter perdido

O técnico de 54 anos vai treinar pela segunda vez o clube da sua cidade e onde passou boa parte da carreira como jogador.

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Carvalhal vai treinar o Sp. Braga pela segunda vez REUTERS/Rebecca Naden

Carlos Carvalhal tinha passado um ano sem trabalhar quando decidiu que reentrar no futebol português por uma porta média (Rio Ave) seria a melhor opção. Os amigos diziam-lhe que ele era maluco. “Se as coisas não corressem bem, diziam, a mina carreira ia ficar muito difícil”, contou Carvalhal numa entrevista em Maio passado. Chegamos ao final de Julho e vemos que as coisas correram espectacularmente bem. O Rio Ave fez a sua melhor época de sempre e qualificou-se para a Liga Europa. Carvalhal fez o seu trabalho com distinção, agradeceu a oportunidade, mas seguiu em frente. Ou melhor, para cima. Entre os vários convites que tinha (um deles do Flamengo), o técnico de 54 anos escolheu um clube que lhe é muito familiar, de uma cidade que é a sua.

Carvalhal, bracarense de nascimento e criação, tem contrato para treinar o Sp. Braga nas próximas duas épocas. É o regresso a um clube onde se formou como jogador (era defesa-central), que representou durante seis anos (em três períodos diferentes) e que já treinou durante menos de meia época. É ele a aposta de António Salvador para consolidar a posição do Sp. Braga nos lugares cimeiros do futebol português e, quem sabe, subir o degrau que falta (o título de campeão). Tinha sido, aliás, com Salvador que Carvalhal tivera a sua primeira oportunidade no banco da equipa minhota, substituindo Jesualdo Ferreira, mas foi uma aventura que durou apenas quatro meses. Os resultados foram razoáveis (sobretudo na Europa), mas Carvalhal invocaria “razões pessoais” para sair.

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Uma aposta repetida

Na altura, em Novembro de 2006, Salvador não queria que ele saísse e, agora, apresentou-lhe argumentos que o convenceram a escolher o projecto desportivo do Sp. Braga acima de outros (e o Flamengo estaria interessado nele para substituir Jorge Jesus, que está de regresso ao Benfica). Mas terá falado mais alto a familiaridade e o conforto – Carvalhal vivia em Braga enquanto treinava o Rio Ave e fazia diariamente uma viagem de 48km para ir trabalhar em Vila do Conde.

Depois de Jesualdo e José Peseiro, Carvalhal é mais uma aposta repetida de Salvador, que não costuma ter muita paciência com os treinadores, mas que não quererá repetir a época passada, em que teve quatro (Sá Pinto, Rúben Amorim, Custódio e Artur Jorge) e quererá alguma estabilidade técnica para que o Sp. Braga consiga crescer. Em 18 anos com Salvador na presidência, só três dos seus 19 treinadores é que estiveram dois ou mais temporadas no clube – Jesualdo, Domingos Paciência e Abel Ferreira.

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Carvalhal também deverá querer uma estabilidade que poucas vezes tem tido ao longo da sua carreira como treinador. Começou em 1998 no Sp. Espinho (onde tinha pendurado as chuteiras) e construiu uma carreira de avanços e recuos. Depois de Espinho, seguiram-se Freamunde e Vizela, tendo a sua primeira oportunidade na primeira divisão no Desp. Aves em 2000-01 – pegou na equipa a meio da época, mas não evitou a despromoção. O seu destino seguinte, apesar de dois patamares abaixo, deu-lhe notoriedade: levou o Leixões, da II Divisão B, à final da Taça de Portugal.

No Sporting, para o lugar de Paulo Bento

Belenenses, Sp. Braga, Beira-Mar, V. Setúbal (onde conquistou uma Taça da Liga, a primeira de todas, em 2008) e Marítimo foram os outros clubes que treinou na I Divisão antes de chegar ao Sporting em Novembro de 2009 para substituir Paulo Bento. A relação com o presidente José Eduardo Bettencourt e com a estrutura do futebol não foi famosa, os resultados também não foram brilhantes e saiu no final dessa temporada rumo a uma estadia prolongada no estrangeiro. Esteve na Turquia (Istambul BB e Besiktas), nos Emirados Árabes Unidos (Al-Ahli), em Inglaterra (Sheffield Wednesday) e no País de Gales (treinou o Swansea numa fuga falhada à despromoção na Premier League).

Para além dos seus méritos como treinador, Carvalhal levou para o futebol inglês uma boa dose de portugalidade (e pastéis de nata, que chegou a oferecer aos jornalistas em conferência de imprensa). Tornaram-se virais expressões como “Put all the meat in the barbecue” (adaptado da famosa frase de Quinito “Meter a carne toda no assador”) ou “Queremos lagosta, mas só temos dinheiro para sardinhas”.

Teria cartel suficiente no futebol inglês para voltar e também seria a escolha para um dos clubes com mais adeptos do mundo (o Flamengo). Ambos os cenários dar-lhe-iam, por certo, outras condições financeiras, mas Carvalhal preferiu o conforto de casa. E o futebol português só tem a ganhar por continuar a ter um treinador carismático, competente e com sentido de humor.

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