Redes usam cada vez mais Portugal para lavar lucros de burlas

PJ associa crescimento à facilidade de criar empresas em Portugal. Ministério da Justiça diz desconhecer qualquer relação entre programa “Empresa na Hora” e o crime organizado.

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LUSA/MÁRIO CRUZ

As redes internacionais que se dedicam a burlas informáticas estão cada vez mais a usar Portugal para “lavar” o dinheiro que arrecadam através das práticas criminosas. A notícia é avançada esta segunda-feira pelo Jornal de Notícias, que dá conta que estas redes criam empresas de fachada em Portugal, o que lhes permite abrir contas bancárias, para onde é canalizado o dinheiro arrecadado com os diferentes tipos de burlas.

Desde Janeiro, segundo dados da Polícia Judiciária (PJ) citados por aquele jornal, terão sido detectados movimentos de 15 milhões de euros para branquear dinheiro de burlas, o dobro da quantia interceptada durante os 12 meses do ano passado. A PJ associa o crescimento – que tem vindo a registar desde 2017 à facilidade de criar empresas em Portugal, através do balcão “Empresa na Hora”, uma medida tomada no âmbito do programa Simplex.

O Ministério da Justiça, responsável pelo balcão que está a funcionar desde 2005, diz desconhecer qualquer associação entre a simplificação administrativa e o crime organizado, já que os actos continuam a ter que ser praticados presencialmente.

As burlas em causa são das mais diversas. Entre elas está o comum phishing: a vítima recebe um email que aparenta ser do seu banco que o reencaminha para um site fraudulento onde a pessoa introduz informações confidenciais que vão permitir ao burlão aceder à sua conta e realizar transacções. O burlão também pode tentar fazer passar-se por um executivo da empresa onde um funcionário trabalha ordenando-lhe que faça uma transferência de dinheiro. 

As empresas de fachada são criadas muitas vezes com recurso a documentos de identificação falsos. Segundo a PJ, são quase sempre sociedades unipessoais com escritórios virtuais ou moradas falsas. Servem apenas para abrir contas bancárias para onde é canalizado o dinheiro que resulta das burlas. As verbas são depois encaminhadas em montantes mais pequenos para territórios como Hong Kong, Nigéria ou Turquia. Este ano a PJ deteve oito pessoas ligadas a estes esquemas em Portugal.

Estas empresas são muitas vezes criadas por estrangeiros, residentes fora de Portugal, que se especializam em prestar este tipo de serviços criminais. Por vezes, as redes de burlas também recrutam cidadãos nacionais, com alguma fragilidade económica, a quem pagam comissões. Estes correios, conhecidos como “mulas", nem sempre têm consciência de estar a participar num esquema para branquear capitais

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