Da fábrica de vestuário à licenciatura: raparigas do Bangladesh querem mudar o sector têxtil

Objectivo do programa é melhorar as vidas dos trabalhadores do sector do vestuário e dos seus filhos. O projecto tem quatro anos e teve, até agora, 470 inscrições de mulheres desfavorecidas.

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Uma criança ajuda a produzir equipamento para o Mundial de 2018, no Bangladesh018 participating countries at a shop in Dhaka LUSA/MONIRUL ALAM

Há cinco anos, Sadeka Begum trabalhava em turnos de 12 horas numa fábrica de vestuário, sendo o seu trabalho a principal fonte de rendimentos para a sua família no Bangladesh. Hoje, a jovem de 23 anos é uma das primeiras licenciadas de um programa universitário especial que visa inspirar as trabalhadoras a tornarem-se líderes e a impulsionar os direitos das mulheres em todas as indústrias.

Begum é actualmente estagiária na Unicef e espera usar a sua licenciatura em Economia para lançar um projecto que melhore a vida dos filhos dos trabalhadores da indústria têxtil do seu país, combatendo a falta de escolaridade e de cuidados infantis. “Sou um exemplo de como a educação pode mudar uma pessoa”, declara a jovem, uma das quatro antigas trabalhadoras de vestuário a formar-se no curso Pathways for Promise na Universidade Asiática para Mulheres (AUW) - com sede na cidade portuária do sudeste de Chittagong.

“Os trabalhadores da indústria têxtil são a razão pela qual a economia do Bangladesh está a ir bem”, acrescenta Begum. “Os seus filhos merecem melhor.”

Desde o início do projecto em 2016, inscreveram-se cerca de 470 mulheres desfavorecidas no programa gratuito de formação superior, incluindo colhedoras de chá e refugiadas, que recebem uma bolsa mensal enquanto estudam.

Dezenas de antigas trabalhadoras têxteis fazem parte do grupo e a vice-directora da AUW, Nirmala Rao, revela que a universidade está envolvida na criação de estágios para combater a “escassez de mulheres na média e alta gestão” na indústria do vestuário do Bangladesh.

Apesar de mais de 80% dos trabalhadores do vestuário serem mulheres, grande parte em posições mais baixas, tais como costureiras, a maioria dos cargos de alta direcção são ocupados por homens, segundo dados das Nações Unidas.

Rubana Huq, que dirige a maior associação comercial do país para fabricantes de vestuário e também esteve envolvida na concepção do curso académico, explica que ver as diplomadas a assumir posições de gestão no sector inspira outras mulheres a sonhar em grande.

“Elas têm uma exposição diferente e as suas perspectivas são muito frescas”, disse Huq à Reuters. “Elas vão ser capazes de contribuir para a forma como encaramos o empoderamento feminino.”

Direitos dos trabalhadores em risco

O Bangladesh é o segundo maior fornecedor mundial de vestuário para países ocidentais depois da China, mais de 80% das exportações e quatro milhões de empregos dependem da indústria têxtil.

No entanto, o sector tem sido abalado nos últimos anos: primeiro pelo colapso do Rana Plaza na periferia de Dhaka em 2013, que matou mil e 136 trabalhadores; depois pela pandemia de coronavírus.

A catástrofe de 2013 desencadeou esforços para melhorar os direitos e condições laborais, mas o surto do coronavírus levou ao despedimento de milhares de trabalhadores de vestuário nos últimos meses, uma vez que o encerramento global de lojas levou as marcas de moda ocidentais a cancelar encomendas.

À medida que os trabalhadores pressionam pelos salários atrasados e os desempregados procuram trabalho, as licenciadas da AUW querem ajudar a estabilizar o sector e a impulsionar a mudança, subindo nas fileiras da gestão.

“Quero ver todos com o mesmo olhar, não importa em que hierarquia alguém está a trabalhar”, afirma a antiga trabalhadora Yesmin Akther. “Quero que as pessoas respeitem os seus funcionários.”

Um relatório recente de uma comissão do Senado dos EUA revelou que o Bangladesh está a recuar em relação aos direitos dos trabalhadores do sector do vestuário. Segundo o relatório, os líderes sindicais enfrentam intimidação, dificultando a sua capacidade de investigar alegadas ameaças e abusos, principalmente sobre mulheres trabalhadoras.

Os proprietários das fábricas consideraram as conclusões do relatório imprecisas, enquanto os investigadores locais afirmam que o abuso verbal sobre os trabalhadores é mais frequente em fábricas e empresas de menor dimensão.

Dar de volta

A universidade, financiada por doadores que incluem a Fundação Ikea e a Fundação Bill & Melinda Gates, tem estudantes do sexo feminino de toda a Ásia e do Médio Oriente que procuram diplomas em áreas como saúde pública, filosofia e política.

As estudantes do sector têxtil recebem o salário completo, no valor de cerca de cem dólares (cerca de 85 euros) por mês, dos seus empregadores enquanto estudam.

Isto revela-se vital uma vez que as famílias dependem desse rendimento, segundo a AUW, que afirma ter persuadido vários donos de fábricas a apoiar a iniciativa e a permitir que algumas das trabalhadoras mais brilhantes deixem o local de trabalho durante cinco anos.

As antigas trabalhadoras têxteis, que tiveram de passar um rigoroso exame de admissão para conseguir entrar na universidade, referiram que a adaptação à vida académica era um desafio, tal como a melhoria do seu inglês.

Dipali Khatun, que vai concluir os estudos em Dezembro, tem a ambição de trabalhar para uma instituição de caridade ou regressar ao sector do vestuário na área de recursos humanos, para poder ter algum impacto. “Gostaria de assegurar que não há abusos contra qualquer trabalhador do sector do vestuário”, deseja.

Kalpona Akter, fundadora do Bangladesh Centre for Worker Solidarity, disse esperar que todas as trabalhadoras que já estivessem diplomadas quisessem regressar ao sector em vez de procurar outras oportunidades. “Se as cem raparigas que estão a estudar entrarem em cem fábricas, isso pode trazer mudanças pois elas sabem como as vidas são difíceis para os trabalhadores”, ejustifica. “Se se juntarem a outras indústrias, vão ter poder, mas isso não vai ajudar a nossa situação.”

Yesmin Akther, 23 anos, é uma das licenciadas que quer retribuir. “A minha fábrica pagou-me durante os últimos quatro anos e apoiou-me para que eu pudesse estudar”, disse. “Dada a oportunidade, gostava de fazer algo de bom em troca”.