Reportagem

Em Oleiros, o medo e a tristeza perante as chamas: “Isto é um crime, destruir uma paisagem tão linda”

Comandante distrital de Operações de Socorro de Castelo Branco diz que “o potencial de evolução” do incêndio de Oleiros “é enorme”. A persistência de condições meteorológicas adversas levou já a que fosse decretado o estado de alerta até ao final do dia de terça-feira.

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A chegar a Oleiros, nesta tarde de domingo, ainda na auto-estrada, via-se o fumo a enovelar no céu. Subindo pela mata, até Sardinheiras de Baixo, sentia-se o cheiro acre a floresta ardida e viam-se as árvores, desoladas, num panorama cinzento. No meio da estrada, um jovem parou a sua motocicleta para dizer: “Aqui já ardeu.”

É um cenário aterrador aquele que se alastra de Oleiros, pela Sertã e Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. A persistência de condições meteorológicas adversas levou já a que fosse decretado o estado de alerta até ao final do dia de terça-feira, em todo o território continental, o que, entre outras coisas, obriga a que parem todas as actividades agrícolas.

Também neste domingo, as bandeiras dos quartéis de bombeiros estiveram a meia-haste em homenagem a Diogo Dias, o jovem de 21 anos da corporação dos Voluntários de Proença-a-Nova que morreu no sábado, num acidente de viação a caminho do incêndio de Oleiros.

Na freguesia de Ermida (Sertã), um helicóptero paira sobre as árvores carcomidas. “É recorrente”, relata uma idosa da freguesia, que teve de passar a noite de sábado para domingo em casa da filha, longe do fogo que consumiu a área envolvente. “Isto está sempre a acontecer, só as autoridades é que não querem ver”, reforça, enquanto olha para a área ardida com desolação.

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Seguindo em frente pela floresta desbastada, um homem partilha que, no dia anterior, passara pela zona de Ermida e dera já conta do incêndio. “Parecia já estar há algum tempo a arder”, conta, acrescentando que “tentou pedir ajuda mas ninguém fez nada”.

Pouco depois das 18h deste domingo, a Protecção Civil afirma que “o fogo está a descer” mas que a “população de Ermida será poupada”. Ouvem-se vozes a serem transmitidas pelos intercomunicadores dos bombeiros. Um deles, José Fernandes, afirma no meio do alvoroço que a situação está tornar-se progressivamente mais difícil. Uma família da Isna de São Carlos observa o incêndio “com medo que chegue” até sua casa.

No mesmo lugar, Paulo Alves, que integra a Junta de Freguesia de Ermida, relata que o incêndio “tem-se apagado, tem-se reacendido”, explicitando que há uma “rodela a arder perto do cemitério”. Porém, “está tudo mais ou menos controlado”. Mas a situação não se manterá assim no resto do dia.

Uma “noite de terror"

Numa encosta em Ermida, a caminho da Castanheira, há um ajuntamento de carros de bombeiros de Manteigas, Trancoso, Soito, Via Folgosinho e Mêda, que, em articulação com os meios aéreos, lutam para apagar as labaredas que dominam a mata. Os helicópteros, a planar sobre as árvores despidas, reduzidas a uma cor gasta, lançam água, criando um pequeno arco-íris ao apagarem as faúlhas. Os esforços são redobrados, num momento em que o panorama, um pouco por todo este território, parece estar a agravar-se.

Por volta das 19h30, da Associação Sagrado Coração de Jesus, em Ermida, vêem-se as chamas a alastrar pela vegetação. Maria do Rosário Martins, que tem ali casa, explica que, durante o dia, “o fogo esteve mais calmo”, mas que “agora, já está outra vez” mais forte. “Ontem à noite, foi um filme de terror”, diz, explicando que o fogo apenas amainou “de madrugada”. “Isto é um crime, destruir uma paisagem tão linda”, remata, apontando para os resquícios de folhagem verde que resistem.

Em direcção a Oleiros, o pôr-do-sol fulmina o céu em tons avermelhados. A população assiste ao estranho fenómeno com estupefacção, no meio da estrada. Às 20h30, a caminho do Vale da Cuba, crianças jogam futebol num pequeno descampado, onde a população se reúne depois de um dia que começou calmo, segundo Ricardo Esteves, de Abrantes, cujos pais vivem na Serra da Lousa, onde as labaredas voltaram em força. “Ontem, por volta das 15h, começou o fogo”, elucida Ricardo, “Mas não veio nenhum bombeiro, estivemos nós a guardar a população e a apagar o fogo até à noite”, ressalva, esclarecendo ainda que, no Vale da Lousa, a população é maioritariamente idosa.

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O céu mancha-se de matizes alaranjadas, quase vermelhas. O sol está prestes a dissipar-se no horizonte, as labaredas propagam-se com rapidez. Os carros dos bombeiros avançam em sentido do Vale da Lousa, onde a população está isolada. A confusão agora é grande, com os contornos das labaredas a engolirem o mato. Ninguém sabe quando é que as chamas por ali se extinguirão de vez.

À espera de reforços

Neste domingo, em conferência de imprensa, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, avisou que a complexidade do incêndio de Oleiros deverá obrigar à manutenção de um dispositivo operacional no terreno até terça ou quarta-feira, o que não foi posto de parte pelo comandante distrital de Operações de Socorro de Castelo Branco, Luís Belo Costa, num ponto da situação feito às 19h. “O potencial de evolução deste incêndio é enorme”, admitiu. “Compete-nos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para inverter esse cenário. Conto que o possamos fazer.”

Ao final da tarde estavam no terreno, a combater as chamas, 264 viaturas e 14 meios aéreos, esperando-se a chegada de três grupos de reforço, o que deveria significar a presença de mais cem operacionais. Apesar de ter vários sectores dominados ou em vias de o ser, havia ainda algumas áreas, sobretudo na direcção da Sertã, que continuavam por controlar, pelo que não se antecipava um fim para o incêndio que se iniciou pelas 15h de sábado.

A noite prometia também ser novamente agitada para as povoações mais próximas do incêndio, em concreto para três aldeias de Oleiros que estavam sob vigilância “muito apertada”  por parte da GNR e dos serviços municipais da Protecção Civil, para a eventualidade de o fogo avançar para ali: Vale da Lousa, Vale de Cuba e Pedintal. Luís Belo Costa disse que, apesar de o risco para estas povoações ser “efectivo”, estava convicto que o forte dispositivo presente no local impediria qualquer consequência mais gravosa.

O comandante distrital disse que era muito cedo para se avaliar a área ardida por este incêndio, mas admitiu que havia estruturas afectadas, sem precisar se seriam habitações ou barracões.

O responsável lembrou também a morte do jovem bombeiro de Proença-a-Nova no capotamento da viatura em que seguia e que causou ferimentos em quatro outros bombeiros, um dos quais em estado grave. De manhã, o ministro lamentara a morte de mais este bombeiro, o terceiro este ano, e afirmou que, como acontece com qualquer morte em combate a incêndios, será aberto um “inquérito técnico”, embora, disse, tudo aponte para que estejamos perante “um trágico acidente de viação”.

Seis incêndios florestais estavam em curso ao fim da tarde desta tarde de domingo, mobilizando quase dois mil operacionais, a grande maioria no distrito do Castelo Branco.

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