Crónica

A praia

Quase me zanguei com a praia sem dar por isso, talvez porque sentisse a falta dela e não o quisesse admitir. Esqueci-me da cor do sol na minha pele.

Já há muito que aprendi que nunca estamos preparados para o que e vida nos vai colocando no prato, seja bom ou mau. As coisas acontecem e não temos outro remédio senão lidar com elas. Aceitá-las, acomodá-las, rebelarmo-nos, lamentarmo-nos, ficarmos felizes. Por estes dias dei por mim a pensar que a vida me devolveu a praia. E eu nem tinha percebido que a tinha perdido.

A selectividade da memória leva-nos a cristalizar o passado em momentos que tomamos pelo todo. Para mim, o Verão era um tempo interminável, de férias que nunca mais acabavam, de dias inteiros a brincar na rua ou nos pátios da mãe e da avó, com o bando de primos que nós éramos. A praia era um acontecimento intermitente que se intrometia nesses dias longos como algo extraordinário, pelo qual ansiávamos desesperadamente, mas que era sempre curto.

A minha primeira praia foi a de Matosinhos. E sobre ela não esqueço duas coisas: a aventura que era chegar lá, num trajecto que implicava apanhar dois autocarros, o segundo dos quais estava sempre a abarrotar de outros veraneantes sem transporte próprio, que se empurravam e gritavam, sem vontade de perderem a viagem por excesso de passageiros.

De Matosinhos guardo esses trajectos acidentados e a memória de estar aos ombros do meu padrinho, mar adentro, já tão longe do areal (ou assim me parecia) e com um frio a percorrer-me a espinha pelo medo de ser largada ali, pelo terror de a água me levar quando ele se agachava até ficar só com a cabeça de fora, para que o mar me salgasse as pernas. Nunca perdi o medo do mar e tenho muita pena disso.

Depois veio a praia da Memória (ou julgo que era essa) nas colónias balneares organizadas pela junta de freguesia, com o lanche de pão com marmelada ou pão com salsicha a meio da manhã. Aí, só me recordo de nevoeiro. Como se ele estivesse sempre presente e só desaparecesse no momento em que também nós éramos encaminhados pelas monitoras para as camionetas que nos levariam de volta para casa.

Aquela onde passei mais tempo, contudo, foi a praia de Agudela. Para aí ia com a família de uma amiga, daquelas que chegavam ao areal às 8h, montavam uma enorme barraca azul escura e só abandonavam mar e areia quando a tarde chegava ao fim.

PÚBLICO -
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"Por estes dias dei por mim a pensar que a vida me devolveu a praia. E eu nem tinha percebido que a tinha perdido" Patrícia Carvalho

Depois desses tempos de criança, as praias foram-se perdendo para mim. Houve uma ida para um parque de campismo, com a família de outra amiga, que já nem sei onde foi. Houve uma semana num apartamento no Mindelo, que, ainda adolescente, partilhei encantada com uma amiga de escola, sem ninguém para nos dizer o que fazer, já que a mãe dela só se juntava a nós de vez em quando. E, depois, quase nada.

As idas à praia tornaram-se esporádicas. Sem carro nem metro, faltava-me a vontade para apanhar mais do que um autocarro apinhado para chegar ao areal. O Verão passou a ser em casa, entre livros, música e televisão, com visitas frequentes a casa das amigas onde as tardes desapareciam em conversas intermináveis.

Quase me zanguei com a praia sem dar por isso, talvez porque sentisse a falta dela e não o quisesse admitir. Esqueci-me da cor do sol na minha pele e dei por mim verdadeiramente surpreendida quando, já na faculdade, fui passar uma semana ao Algarve com uma das minhas irmãs e fiquei morena de verdade. Ainda hoje acho que essa minha primeira visita ao Algarve foi também a primeira vez que fiquei morena na vida.

Crescer começou a devolver-me a praia. Ter o meu próprio dinheiro, mais facilidade de mobilidade e amigos para quem dias inteiros deitados ao sol parecia a única coisa que valia a pena fazer no Verão, ajudaram. Descobri Vila Nova de Mil Fontes, a Zambujeira do Mar, Odeceixe, Tavira e a Ericeira. De carro, percorremos a costa alentejana e algarvia (ainda ficou tanto, tanto por ver). Mas eu ainda resistia e costumava dizer que dez dias era o máximo que aguentava dedicar à praia. Duas semanas já não dava.

Hoje, finalmente, sinto que me reconciliei com a praia. Procuro-a muitas vezes. Seja para percorrer os seus passadiços, em caminhadas que sabem sempre melhor com o cheiro a maresia por companhia, ou para estar simplesmente a aproveitar o sol e o mar. Até me habituei ao mar gelado do Norte e não há um único dia dos muitos em que já fui à praia este ano, que não tenha ido à água, como se diz por aqui.

Voltei à Agudela, onde não ia há décadas, espreitei outras praias, num dia de mar cristalino e água com a temperatura ideal para os quatro ou cinco banhos que tomei, e para as próximas semanas, em que a vontade de fazer planos é zero, a única coisa que está em cima da mesa é ir conhecer outras praias que ficam tão perto de casa, mas onde, por (falta de) hábito, nunca vou. Este Verão que assim se anuncia, sem aviões nem hotéis pelo meio, sabe-me a infância como nenhum outro dos últimos anos. E isso faz dele algo especial.

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