Há contratos falsos em Inglaterra para futebolistas jogarem em Portugal

Rede de falsos intermediários está a utilizar o nome do Beira-Mar e a acenar com salários generosos para atrair jogadores, a quem pede 660 euros para viagens e estadia. FIFPro lançou alerta internacional

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Um exemplo dos documentos enviados aos jogadores com o timbre do Beira-Mar DR

Uma rede internacional de falsos intermediários está a utilizar o nome de, pelo menos, um clube português para recrutar jogadores. Com documentos falsos e em nome do Beira-Mar prometem contratos de trabalho fictícios a troco de um depósito bancário para custear as viagens e estadia em Portugal. O alerta internacional foi lançado esta sexta-feira pela Federação Internacional dos Jogadores de Futebol Profissional (FIFPro), após queixas apresentadas em Inglaterra por alguns jovens futebolistas.

Nos documentos apresentados pelos burlões para atrair futebolistas, constam os símbolos do Beira-Mar e a suposta assinatura do presidente do clube, Hugo Coelho. O dirigente já garantiu ao Sindicato dos Jogadores (SJ) tratar-se de uma fraude e já informou as autoridades competentes.

O SJ foi alertado para este esquema pelo seu congénere britânico. “Contactaram-nos porque alguns dos seus sócios tinham sido abordados com uma proposta de contrato de trabalho de um alegado ‘scout’ [olheiro] que trabalharia para o Beira-Mar e se apresenta como Frederick Dawson”, explicou ao PÚBLICO João Oliveira, responsável pelo gabinete jurídico deste organismo sindical.

Os potenciais candidatos foram contactados através da rede social WhatsApp, sendo-lhes depois remetida a documentação, com o símbolo do clube português, por correio electrónico. “Ao ver os documentos, apercebi-me logo que algo estava mal, tanto ao nível dos valores praticados [muito elevados para as competições não profissionais, onde está inserido o clube aveirense] como em relação ao enquadramento legal da proposta. E nem o nome do clube estava bem escrito”, prosseguiu João Oliveira.

“Trata-se do esquema habitual: uma falsa promessa e, a certa altura, os falsos intermediários pedem aos jogadores que transfiram dinheiro para custear a viagem para Portugal”, conclui João Oliveira.

Nos documentos apresentados, a que o PÚBLICO teve acesso, constam cartas convite e formulários que simulam contratos oficiais. Numa das cartas, um dos candidatos obriga-se a transferir para a conta de um suposto director financeiro do Beira-Mar, que se apresenta com o nome de Laiba Nassir, uma verba de 600 libras [perto de 660 euros], relativos à viagem e estadia durante 10 dias em Portugal. Já num dos falsos contratos, o Beira-Mar surge a oferecer um salário mensal de 3500 euros, mais um prémio de 600 euros por cada triunfo da equipa e 200 por empate.

Alerta internacional

Face às queixas recebidas, a FIFPro lançou um alerta internacional aos seus sócios. “Para todos os jogadores: fiquem atentos quando alguém se aproxime e diga que pode providenciar um teste [num determinado clube] ou contrato. Poderá ser uma farsa”, avisa o organismo, que relata a história de alguns futebolistas em Inglaterra contactados por esta rede.

Um guarda-redes de 20 anos recebeu um contrato do Beira-Mar de 3500 euros mensais. “Foi estranho. Eles queriam que assinasse apenas com as imagens que tinham de mim [a jogar]”, lembrou. A um outro jogador, um médio, também com 20 anos, foi-lhe apresentado um contrato de 1750 euros líquidos mensais, após uma fase experimental de 10 dias. Depois de uma reacção inicial de contentamento, a mãe do jovem desconfiou e contactou o sindicato inglês.

“Li novamente [o contrato]. Algo simplesmente não estava bem com o texto da mensagem, o inglês não estava muito correcto”, referiu à FIFPro. E as suspeitas aumentaram quando reparou nas 600 libras que o filho teria de pagar antecipadamente pela viagem e estadia.

Para desfazer dúvidas, o médio ligou ao suposto agente Frederick Dawson, de quem recebeu a garantia de que o Beira-Mar estaria a agendar o seu voo e iria viajar para Portugal com outro jogador. Recebeu o itinerário de voo digital e ligou várias vezes ao seu suposto companheiro de viagem, mas este nunca atendeu. Também não encontrou qualquer informação sobre Dawson na Internet.

O guarda-redes teve a mesma sorte nas suas pesquisas. “Parecia suspeito. Reparei em erros de ortografia no contrato e os emails tinham sido enviados de uma conta pessoal e não da conta do clube”, denunciou à FIFPro.

“O agente [Dawson] disse-me que tinha conseguido o meu número [de telemóvel] através de um ‘scout’ na academia do meu antigo clube, mas, quando fui confirmar, esse ‘scout’ não se lembrava de mim, nem do agente”, prosseguiu. Voltou então a ligar a Dawson insistindo para que fosse contactado directamente pelo Beira-Mar.

“Passado algum tempo, recebi um telefonema com o pior dos alteradores de voz, como se estivesse a falar com alguém a negociar um refém. A chamada veio dos EUA, o que também foi estranho.” Totalmente convencido que era alvo de uma fraude, bloqueou o número do agente e dirigiu-se ao sindicato dos jogadores ingleses.

Esquema continua

Após várias pesquisas, o PÚBLICO encontrou uma mensagem de Frederick Dawson num comententário na página do Facebook da intitulada Associação Internacional de Scouts Gerentes Intermediários e Promotores de Futebol, publicada há três meses.

Na mensagem, publicada por Luke Joly Jeffrey - que se apresenta nesta rede social como um agente nigeriano de futebolistas -, Frederick Dawson apresenta-se como intermediário que pretende recrutar jogadores para equipas da primeira divisão da Bielorrússia.

Destaca que pretende jogadores europeus e que residam apenas na Europa, sem necessidade de visto para entrar no país do Leste. Tem preferência por pontas-de-lança, defesas centrais e extremos direitos, entre os 18 e 24 anos, oferecendo um salário de quatro mil euros mensais, mais comida e bónus.

“O jogador receberá a sua cópia oficial do contrato assinada pelo director ou gestor do clube e, depois de a obter, deverá pagar a taxa de consultoria da agência [que não refere o nome] de 1000 euros antes de viajar para ingressar no seu novo clube”, promete. Este suposto intermediário, Frederick Dawson, refere ainda que, com o pagamento desta comissão, não será cobrada qualquer percentagem dos seus ordenados futuros. “O negócio é 100% honesto e temos 4-5 dias, no máximo, para concluir a transferência”, garante.

“Estou desesperado para jogar futebol, mas não tão desesperado”, disse à FIFPro o jovem guarda-redes que foi abordado em Inglaterra para vir representar o Beira-Mar. “Quando ele [Dawson] entrou em contacto comigo, eu não tinha pressa. Não havia futebol devido à pandemia do covid-19. Tive tempo para avaliar a situação. Mas em outra altura poderia ter reagido de maneira diferente. Parecia um grande contrato.”