Para a família Gavinho, as férias são seis semanas a fazer Portugal de bicicleta

Ciclovias, caminhos florestais e estradas municipais sempre que possível. Estes são os caminhos que pai, mãe e filha vão percorrer na sua volta a Portugal contornando o país: são 2600 km, de 25 de Agosto a 6 de Setembro. Com missão solidária e dedicados a promover empresas e produtos portugueses.

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António Gavinho, 52 anos, a mulher Elsa Gavinho, 50 anos, e a filha Joana Gavinho, 13 anos DR

A verbalização da ideia nem foi de António, mas ela andava a pairar na sua cabeça. “Nem me atrevia, ainda bem que foi a família a fazê-lo”, diz, bem-humorado. “Claro que não ia dizer que não.” Como podia alguém que é ciclista há 25 anos, que há dez faz da aliança entre as bicicletas e as viagens profissão, recusar uma volta a Portugal em bicicleta? “Estou com uma vontade enorme”, confessa, “vai ser a minha viagem mais longa em bicicleta e ainda para mais em família”.

Quando no sábado, 25 de Julho, António Gavinho, 52 anos, a mulher Elsa Gavinho, 50 anos, e a filha Joana Gavinho, 13 anos, saírem do “lendário espaço do Nirvana Studios” o destino será Setúbal, 82 quilómetros entre a serra e o mar. Porém, essa será apenas a primeira de 37 etapas:  espera-os 2600 quilómetros a pedalar, durante 43 dias no seu projecto “Bike Around Portugal”. Vai ser uma verdadeira “volta” a Portugal no sentido em que se vão seguir as “margens” – “não nos vamos desviar muito da linha de mar e da fronteira” com desvios para “os sítios mais bonitos, fantásticos, nessas áreas” (atenção especial para os miradouros do Douro Internacional: “dediquei muito tempo para incluir os miradouros mais emblemáticos na nossa rota”, assume António).

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António Galvinho DR

Estes foram os ingredientes essenciais para o planeamento destas férias extraordinárias. “Normalmente fazemos férias em bicicleta, mas durante uma semana”, conta. Contudo, num ano de todos os improváveis, seis semanas de férias pareceram ser a opção natural. “Profissionalmente, estamos muito mais parados e temos tempo para fazer agora coisas que se calhar noutra altura não teríamos”, explica. E como a profissão até passa por pedalar por aí, digamos, une-se o útil ao agradável: “dar a conhecer Portugal como destino de bicicleta” e proporcionar uma experiência inesquecível para a Joana”.

E isto é o que António e Elsa têm vindo a fazer nos últimos anos. Profissionalmente, desde que há 16 anos fundaram a Caminhos da Natureza, uma empresa dedicada a experiências e viagens de caminhada, BTT e bicicleta de estrada pela natureza adentro, claro. Ainda que a Caminhos da Natureza também leve viajantes ao estrangeiro, o seu palco natural é Portugal. “Estamos cá, conhecemos melhor, fazemos bem. Gostávamos que se desenvolvesse”, admite António. Em Portugal, nota, “este é um mercado de nicho”; contudo, recebem “gente de todo o mundo, EUA, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, alguns países europeus e Israel”.

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O mapa da volta a Portugal da família Caminhos da Natureza

No entanto, tudo parou em Março. “Estamos a zero, não voltámos a realizar nenhuma viagem”. Ainda têm reservas para Setembro, Outubro que não foram canceladas e até algumas foram reconfortadas. “As pessoas que fazem estas viagens, estrangeiros, sobretudo, marcam em média com 2, 3 meses de antecedência, alguns chegam a fazê-lo um ano antes”, diz-nos. Mas grande parte delas foram adiadas para o próximo ano. “Significa que acreditam em nós e nas viagens.”

Pessoalmente, desde que Joana nasceu, ela não tem parado e foi sempre acompanhando os pais em várias aventuras. Quando tinha dois meses, percorreu a Serra de Sintra, num marsupial, recorda António. Nessa altura, Elsa até preferia caminhar a pedalar, conta António para quem andar a pé se relaciona com montanha, “onde não se pode ir de bicicleta”, porém “as crianças não se motivam tanto para andar a pé, é muito mais fácil motivá-las com bicicleta”.

Aos três anos, Joana começou a andar numa cadeira na bicicleta; aos cinco passou para um trailer bike (“dá muita liberdade, a criança já vai na posição de bicicleta, tem pedais e mudanças simuladas, o que ajuda a aprender a gerir a mudança de velocidade”); a partir dos 8 começou a ir em tandem e fê-lo durante muitos anos (“de vez em quando ainda usamos”). O ano passado, fez a sua primeira viagem como ciclista independente – uma semana. Este ano, será a segunda. “Ela foi ficando entusiasmada com a ideia”, diz o pai. “Primeiro, disse logo que sim, com os dias a passar começou a perceber onde se metera, muitos dias, muitos quilómetros”, conta.

Com os dias a passar, António dava corpo ao projecto familiar recorrendo ao know-how profissional – no site da Caminhos da Natureza apresenta-se como “o fundador e o principal criador de experiências”. “Demorei duas semanas a preparar tudo. Se fosse alguém que não trabalhasse nesta área seriam dois meses”, avalia.

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O passeio será feito preferencialmente por caminhos florestais ou estradas municipais e ciclovias DR

Começou pela “base”, a volta a Portugal, seguindo o mais possível o litoral e a linha de fronteira. Depois, mapeou locais icónicos. Seguiu para a identificação de “sítios para dormir”, “uma limitação”, aponta, “sobretudo no Portugal profundo”. E começou a “desenhar etapas exequíveis para uma família”: que é como quem diz, entre 50 a cem quilómetros diários, com atenção ao desnível (“terá papel importante, especialmente em Trás-os-Montes e na zona do Gerês, muito montanhosa” – no final, o desnível positivo vencido será de 33 mil metros) e à segurança – ciclovias, (“quando as há”), caminhos florestais e estradas municipais sempre que possível para contornar a ainda “grande percentagem de automobilistas sem respeito pelos ciclistas”.

Cada membro da família vai usar material diverso: António vai estrear-se nas bicicletas de gravel (“tinha alguma curiosidade”, confessa, descrevendo o novo equipamento como um encontro entre uma bicicleta de estrada e uma BTT); Elsa e Joana levam bicicletas com assistência eléctrica (“estavam mais preparadas para BTT, fizemos transformação para optimizar para estrada”). E estão disponíveis para receberem acompanhantes. Seja para um dia, seja para vários, com a Caminhos da Natureza a tratar de toda a logística.

Quem se inscrever, estará a contribuir directamente para a causa que a família apoia nesta Bike Around Portugal, a Escola de Ciclismo de Oeiras (onde Joana aprendeu a andar de bicicleta), uma associação sem fins lucrativos que necessita de ajuda para comprar equipamentos – “coisas tão básicas como capacetes” – para crianças desfavorecidas. “Pretendemos angariar um mínimo de mil euros”, aponta António, com 5% por cento do valor das inscrições na “volta” a reverter para a escola, além de que há também um crowdfunding a decorrer (com link no site da empresa). Simultaneamente, a Bike Around Portugal, como embaixadora do Escolhe Portugal, assume “o compromisso de ir partilhando empresas ou marcas nacionais” que descubra em viagem. 

As aventuras da família Gavinho nas próximas seis semanas podem ser acompanhada no blogue do projecto. As expectativas? “Concluir a viagem de ver o país inteiro.”

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Joana Gavinho, 13 anos, está habituada aos passeios de bicicleta desde bebé DR
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