Editorial

O ADN salazarista de Rio e Costa

A decisão do PSD e do PS de libertarem o primeiro-ministro do aborrecimento parlamentar, ao qual doravante só fica sujeito de dois em dois meses, é uma manifestação grosseira do ADN salazarista que António Costa partilha com Rui Rio e com muitos portugueses.

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Nuno Ferreira Santos

Faz agora, na próxima semana, 50 anos que Salazar morreu. Em tempo histórico foi ontem – Rui Rio e António Costa deviam estar de férias, como todas as crianças da época que não trabalhavam. Rio e Costa, o primeiro, estudante do Colégio Alemão do Porto, o segundo, a acabar a escola primária, em Lisboa, faziam parte da curta elite que o Estado Novo permitia. Jerónimo de Sousa, que nasceu fora disso, estaria com alguma probabilidade na fábrica. Catarina Martins não era nascida, Francisco Rodrigues dos Santos também não.

Um dos problemas das ditaduras prolongadas é que o seu efeito vai muito para lá da morte de um ditador ou do fim do regime. Há qualquer coisa que se entranha – como se um ADN político, colectivo, tivesse uma força correspondente ao ADN genético.

Uma vez, numa entrevista, o general Garcia dos Santos dizia-me que continuávamos a perpetuar estereótipos do salazarismo e que isso só acabaria na geração dos filhos dos seus filhos, porque todos os que viveram a ditadura e os filhos dos que a viveram estavam “contaminados” pelo ADN salazarista. Não estava a falar das grandes coisas não há salazaristas, ou se há não se mostram muito – mas das pequenas. E nas pequenas coisas, meu Deus, o homem está vivo e não exactamente da mesma forma que o Elvis.

 Numa ditadura em que a oposição ao regime era residual – havia o PCP, cujos militantes sofreram nas prisões os horrores do regime, havia também “os outros democratas”, mas a maioria das pessoas “vivia habitualmente” (a frase é maravilhosa para descrever o sonho do salazarismo e é do próprio) – é possível hoje dizer que foi bem tolerada. Aliás, uma ditadura em que um dos símbolos da oposição, Henrique de Barros (será o primeiro presidente da Assembleia da República a seguir ao 25 de Abril), almoça todos os domingos em família com o ditador Marcelo Caetano – eram cunhados – é provavelmente um case study. Com algumas excepções, os capitães de Abril que fizeram a revolução não eram oposicionistas militantes. 

Este relambório serve de introdução para justificar que o que se passou ontem na Assembleia da República, com o PSD e o PS a libertarem o primeiro-ministro do aborrecimento parlamentar, ao qual doravante só fica sujeito de dois em dois meses, é uma manifestação grosseira desse ADN salazarista que António Costa partilha com Rui Rio e com muitos portugueses.

Não interessa que Costa tenha nascido numa família da oposição e que o seu pai tenha sido militante do Partido Comunista. As coisas não são simples. O ADN salazarista não se pode controlar – não temos culpa de ter nascido no passado – mas pode vigiar-se. Claramente, essa vigilância falhou quando Rui Rio, glosando (sem o saber? Impossível) uma frase atribuída a António de Oliveira Salazar (“A minha política é o trabalho”), achou que o primeiro-ministro não podia ir de 15 em 15 dias ao Parlamento, porque tinha “de trabalhar”. É verdadeiramente espantosa a força do ADN que menoriza o papel do Parlamento e as suas funções de escrutínio do poder executivo, reduzindo-a a uma espécie de “politiquice”.

É absurdo que seja o líder da oposição a propor reduzir o seu “trabalho” que, para o próprio, dá “má imagem” dos políticos. É profundamente triste que António Costa e o PS aproveitem a boleia e façam aprovar a diminuição das presenças do primeiro-ministro na Assembleia. O Bloco Central, provavelmente sem ter consciência, está a ajudar o partido do ponto de exclamação e isso é extremamente grave.

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