Em Beja, o mercado fechou e a venda é na rua sob 40 graus. Vendedores, peixe e legumes já saem “assados”

O mercado municipal de Beja vai estar em obras durante ano e meio mas a câmara local não disponibilizou instalações alternativas para 19 comerciantes de produtos perecíveis que passaram a vender na rua. Tudo coze debaixo de tanto calor e as moscas fazem a festa.

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Há quase duas semanas que os termómetros se aproximam ou tocam 40 graus centígrados no interior alentejano. E é sob sucessivas ondas de calor que são expostos, ao ar livre, no mercado de Santo Amaro, junto à torre de menagem do castelo de Beja, produtos perecíveis como frutas, legumes e peixe. 

As condições que a Câmara de Beja faculta tanto a vendedores como a consumidores contrariam as regras de venda de alimentos ao ar livre. “Nem quero lembrar que estamos a vender como há 30 anos”, lamenta-se ao PÚBLICO Fátima Silva, peixeira. “Nem sequer temos uma torneira para lavar o peixe ou condições para afastar as moscas que quase nos comem vivas”. Mas não é só a falta de água que lhe transtorna o negócio: “o calor que temos de suportar faz da venda um martírio”, acentua.

Junta a este conjunto de situações anómalas a inexistência de um sistema de frio. Nas condições actuais, o pescado é mantido durante horas em barras de gelo, que rapidamente desaparecem. Acresce a preocupação com a “falta de cuidado das pessoas que se abeiram do pescado sem máscara” ou sem preocupação por manter o distanciamento social, acrescenta o marido de Fátima Silva. Sentado no lancil do passeio junto à carrinha onde expõe sardinhas, carapaus e pouco mais, o vendedor fazia contas do que ainda estava para vir enquanto despacha um cigarro.

Desde que a Câmara de Beja decidiu encerrar o mercado municipal, no dia 30 de Junho, para obras de remodelação em toda estrutura, só vende aos sábados. E quando a autarquia desmontar a câmara frigorífica, onde o peixe era guardado, “acaba-se o gelo e deixo de poder trabalhar”.

Não arriscam comprar mais pescado por não terem onde o acondicionar. “Tínhamos tanta clientela e agora deixaram de vir. Quem é que compra peixe quando a gente não tem condições”. No mercado municipal vendia 15 caixas de sardinha numa manhã de sábado, agora fico-me pelas 5, acrescenta Fátima Silva.

No outro lado da rua, António Pimpão oferece dois quilos de sardinha a sete euros. Também deixou de ter hipóteses de ganhar o suficiente para garantir o sustento da família. “Não estou a vender o que vendia no mercado municipal”.

O calor é o que mais incomoda: “Os da câmara é que deviam vir para aqui trabalhar em tão más condições. Não se pode ter peixe confinado daquela maneira com 40 graus de temperatura”, diz o vendedor que se lamenta de nem poder escamar ou cortar as peças de pescado.

"Meteste os tomates no micro-ondas?”

Os vendedores de frutas e legumes fazem coro com os peixeiros nas queixas pelas más condições que o mercado ao ar livre oferece. A autarquia colocou-os em 13 pequenas tendas que normalmente são usadas para a exposição de artesanato ou para funcionarem como tasquinhas. “Estive lá dois dias e o calor cozeu-me a fruta”, contou ao PÚBLICO, Aníbal Bento, recordando um comentário que a esposa lhe fez quando chegou ao local da venda na altura de arrumar os produtos. “Olha lá como tens os tomates! Meteste-os no micro-ondas?” E parte dos legumes “vai para o lixo” .

O comerciante diz que são 19 as pessoas afectadas pelo encerramento do mercado municipal e que se dedicam à venda de peixe, frutas e legumes, sem que a autarquia disponibilizasse, até ao momento, um espaço alternativo onde pudessem exercer a sua actividade até que esteja concluída a remodelação do edifício do mercado municipal.

Os protestos fizeram-se sentir e o executivo municipal comprometeu-se com a instalação de um espaço alternativo, dentro de três meses, mas a solução apresentada não foi bem acolhida pelos vendedores com o argumento: “Trabalhamos no Verão para ganhar para o Inverno”, Como tal, “não podemos ficar em casa três meses à espera que a câmara nos arranje um espaço com mínimo de condições para vender o nosso peixe e as nossas hortícolas” observa António Pimpão.

Numa reacção espontânea, recusaram-se a abandonar as instalações do mercado municipal e foram pedir explicações ao presidente da autarquia, Paulo Arsénio (PS) na reunião de câmara, realizada a 1 de Julho. 

Confrontado com a ocupação do mercado, o autarca explicou que a câmara “tem actuado de boa-fé para corresponder às solicitações dos operadores” realçando o desconforto que a situação lhe causava: “Não gostámos do que fizeram. Pareceu-nos uma atitude precipitada com que não contávamos”.

Para alojar os nove vendedores de peixe saídos do mercado municipal, a câmara adquiriu um contentor com 12 metros quadrados de área. Mas a opção revelou-se “impraticável” porque só dava para duas bancas de venda e mesmo assim “não dispunham das condições ideais”, reconheceu ao PÚBLICO o autarca, explicando que o executivo “iniciou de imediato a procura de soluções que permitissem uma melhor reinstalação dos revendedores de pescado” que só estará em condições de receber as bancas de venda dentro de três meses. “Resta-nos fazer mea culpa porque sabemos que as pessoas estão numa situação difícil”, confessa Paulo Arsénio, reconhecendo que não tem uma solução imediata.

Os peixeiros e vendedores de fruta e hortícolas vão continuar a ter de vender os seus produtos durante os próximos dois anos debaixo de um sol inclemente e dentro de alguns meses vão suportar o frio e chuva caso não se encontrem alternativas.

Paulo Arsénio queixa-se que “até nem dorme” a pensar numa solução para o problema. Quem foi forçado a abandonar o mercado municipal sem alternativa, não descansa enquanto a autarquia não os acomodar num sítio onde possam ganhar a vida. Está aquilo a que se costuma designar nos falares alentejanos “um baile armado.”