Torne-se perito Opinião

A liberdade em tempos de pandemia

O impacto desta Pandemia na organização social e económica e o efeito catalisador de alterações sociais, económicas e até na relação humana não está escrito na organização do RNA do vírus; essas, a acontecerem como prevêem os futurólogos, serão um produto da capacidade, inteligência, cultura e resiliência humanas e aí reside o lugar da Responsabilidade indeclinável, individual e pública.

I only cared about man; man, not the mass,
is what our calling is about.

John Le Carré in The Secret Pilgrim

Muito se tem escrito agora sobre as pandemias passadas e o seu impacto na Vida e na Sociedade. A análise histórica é sempre estimulante e dela podem extrair-se lições úteis; contudo, devem ser enquadradas com o seu Tempo, com as possibilidades da Medicina na época e os Valores sociais e filosóficos que, podendo ser transversais na História da Humanidade, tiveram interpretação e concretização próprias em cada tempo histórico.

Por isso, interessam-me menos comparações entre a gravidade, mortalidade e o impacto na sobrevivência dos humanos de épocas onde a nossa capacidade de intervenção médica era totalmente diferente do tempo actual. Aplica-se, obviamente, à frequentemente invocada gripe espanhola de 1918, que dizimou uma percentagem muito elevada da espécie humana. Daí inferir que seria bem mais grave que a actual causada pelo SARS-CoV-2 vai uma enorme distância, marcada pela Higiene e Sanidade Pública, estado de nutrição da população diminuída e enfraquecida por uma guerra mundial, capacidade de intervenção médica, ambulatória e hospitalar. Recursos que não existiam na 2.ª década do século XX, desde a generalização de água canalizada a esgotos, aos antibióticos e anti-inflamatórios, ao suporte ventilatório e cuidados intensivos de que dispomos hoje.

Seria legítimo deixar espalhar o actual vírus e não usar os recursos adequados? Deixar morrer por ausência ou incapacidade de tratamento uma percentagem significativa da população? Aceitar a teoria da gripezinha? Obviamente que não, caro leitor, e todos nos chocamos com o número de mortes e as imagens dos campos transformados em cemitérios imensos e anónimos. E se há 100 anos os recursos de hoje estivessem disponíveis, certamente que a mortalidade da Gripe Espanhola seria muito diferente e, por isso, desde o princípio, estive sempre do mesmo lado da controvérsia: conter e reduzir a difusão da doença, organizar o combate e usar com inteligência os recursos que a Medicina, as Ciências Biomédicas e da Saúde e a Tecnologia nos proporcionam. Até porque, não obstante toda a panóplia de recursos, morre muita gente e nos sobreviventes podem ficar sequelas cuja verdadeira dimensão ainda é objecto de estudo. E aqueles que, contaminados, estão assintomáticos ou com a tal gripezinha, são focos de disseminação potencial, que nunca se sabe onde pára, se não actuarmos correctamente.

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Valas abertas no cemitério de Vila Formosa, São Paulo, Brasil REUTERS/Amanda Perobelli

E se a defesa da Vida e a Solidariedade global na espécie humana são valores superiores de dimensão universal para a qual se exige a tradução na Polis, eles devem sobrepor-se às pequenas solidariedades e interesses das tribos integrantes da Sociedade.

É a dimensão individual e solitária na grande Responsabilidade humana e colectiva que me preocupa e daí a reflexão de Smiley, mestre-espião, mas homem de valores entre eles o da Liberdade, pilar da Sociedade que procurava preservar e que usei no início.

Sem essa Responsabilidade individual, expressão do espírito gregário de cooperação mútua, de Cidadania e cimento da Civilização, as mais proclamadas recomendações falharão sempre.

E nós falhámos! Os interesses das múltiplas tribos em que atomizámos a Sociedade, da Política ao Futebol, dos sindicalistas às turbas inorgânicas a quem tudo serve de protesto ou de comemoração, foram imagens de um falhanço global de Cidadania responsável e empenhada no Bem Público!

Falhanço de Educação? Egoísmos individuais e de grupo sobrepondo-se ao altruísmo, que até parece estará nos genes da espécie? Procuro evitar o discurso moral, da virtude pública, a qual muitas vezes é sustentada em vícios privados insuspeitos e recordo duas máximas que um bom amigo de longa data me fez chegar. Uma de Abraham Lincoln: It has been my experience that folks who have no vices, have very few virtues; e a outra, de Walter Kerr: he has all the virtues I dislike and none of the vices I admire.

Falhou a Educação Cívica nestes 45 anos de Democracia, no apelo e na prática da Responsabilidade individual pelo Outro, verdadeiro sustentáculo da Liberdade, a qual se conquista, mas tem que ser defendida, nas palavras e nos actos, com Verdade e Coragem, moral e física.

E esse é, caro Leitor, o cerne da questão, que leva os políticos a preferirem o pragmatismo da Narrativa ao respeito pela Verdade, e os cidadãos a sobrepor os seus interesses individuais e de tribo à Solidariedade devida ao Outro, no seu canto, bairro ou cidade.

Efeitos do vírus? Conhecido filósofo, bem ao sabor da oportunidade, chamou-lhe o vírus que nos enlouquece e aproveita para uma forte crítica ao Poder Médico, atribuindo a essa tribo ambição de Poder sobre o cidadão comum, que aliás considero um exercício filosófico interessante, mas exagerado. Mas não deixo de reconhecer alguma razão no comentário: que ouvir aqueles que sabem – os cientistas – é ouvir um tiro perpétuo e, quando somos um Estado, convidar a feira para a mesa do rei [1]! Por isso, mediação e recato são fundamentais, como referi em artigo anterior.

Mas que vírus é este? Mensageiro da Loucura? Da destruição da Liberdade e Valores que são pilares da nossa Sociedade? Arauto para os novos taumaturgos que interpretam como transcendentes e verdade revelada os sinais da nossa incerteza científica? Um precursor de demagogos, que sempre aparecem em tempos conturbados? Um convite à repetição de políticas higienistas (aqui usado no sentido de eugenistas) que a Ciência e a Moral renegaram, agora apontadas aos mais velhos, aos mais pobres e desprotegidos habitando nas margens da sociedade? A semente da dúvida na capacidade da Ciência que não se deixa instrumentalizar por aprendizes de feiticeiro? Um acelerador para um novo trans-humanismo que resultará da expansão da tecnologia digital e biomédica e substituirá Humanismo e Compaixão?

Será que a História se poderá um dia explicar pelo jogo entre duas moléculas complexas? Uma, o ácido desóxi-ribonucleico – DNA –, sede da informação fundamental que é a substância da Vida e da sua organização, apurada pela Evolução, e que Francis Collins designou The Language of God, um livro admirável cuja leitura recomendo, ele que foi director do NIH (National Institutes of Health nos EUA), nomeado por Obama, e director do Human Genome Program e agora veio defender Anthony Faucci dos ataques da demagogia anti-ciência. A outra, o ácido ribonucleico – RNA –, cuja função de mediador e mensageiro da informação do DNA levou a que fosse designado por mensageiro – RNA Messenger.

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O Cobas 6800, para detecção do RNA do novo coronavirus, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa Rui Gaudêncio

É que o infame SARS-CoV-2, vulgo covid-19, não é mais que partículas de RNA, agora arvorado em mensageiro de gravíssima crise mundial, da Saúde à vida social e económica e até ao modelo da própria organização da Sociedade. Mensageiro dum apocalipse mais eficaz que os quatro cavaleiros do Evangelho de S. João?

Compreender a ameaça e agir é o desafio, e nesse desafio há valores que são a substância da citação inicial usada: Verdade e Tolerância, Ética, Decência, Discussão informada e sem preconceitos, Procura do Conhecimento e Preocupação pelo Bem Comum. Foram a cartilha ocidental, de matriz judaico-cristã, aberta à diversidade e à inclusão e que foi responsável pelo maior patamar de desenvolvimento atingido pela Humanidade.

Há que resistir a este RNA – mensageiro do caos!

O impacto desta Pandemia na organização social e económica e o efeito catalisador de alterações sociais, económicas e até na relação humana não está escrito na organização do RNA do vírus; essas, a acontecerem como prevêem os futurólogos, serão um produto da capacidade, inteligência, cultura e resiliência humanas e aí reside o lugar da Responsabilidade indeclinável, individual e pública.

O vírus não se vencerá com recurso a narrativas, como a da lotação dos transportes públicos não ser factor de disseminação da epidemia, como anunciou como verdade oficial o ministro da tutela, incapaz de os melhorar, qualificar, diversificar e também de não se ter planeado, nos anos de governo do seu partido, a melhoria das condições de habitação nas periferias servidas por esses transportes.

Este é outro vírus que infelizmente predomina: pouco rigor, falta de isenção, instrumentalização dos factos, exercício tímido da Responsabilidade individual.

Nesta semana, gostaria de mencionar três acontecimentos.

Primeiro, o atentado à Liberdade defendido num manifesto de académicos a propósito do que chamaram a higienização da extrema-direita e que António Barreto demonstrou com brilho e coerência, em artigo publicado neste jornal e de leitura obrigatória. Impressiona-me o silêncio de alguns sectores políticos, do partido do Governo e da oposição. Que resta dos defensores da Liberdade, das Liberdades, como dizia Mário Soares? Porque os sucessores dos arautos da colectivização e do conformismo intelectual com ditaduras de sentido oposto, sabemos onde estão e felizmente são coerentes, o seu discurso não engana. O artigo de António Barreto é um exemplo de Responsabilidade individual, de um public intelectual que soube resistir ao ópio dos intelectuais e merece todo o eco na Sociedade, porque é um grito de alarme.

Em segundo lugar, a corajosa entrevista do bastonário da Ordem dos Médicos, que chamou a atenção para reais problemas que podem afectar o nosso desempenho profissional, perante o silêncio ensurdecedor do Poder. Este é o contraponto do discurso do poder médico: o medo, a sobranceria do Poder político à intervenção dos Médicos, a que estamos bem habituados. A exibição da descoordenação no Alentejo – foi mais uma –, em que se procurou passar mensagem de indisponibilidade dos médicos para a solução do problema. Foi uma afronta. Médicos, enfermeiros, técnicos auxiliares e todos os profissionais de Saúde que na linha da frente deram o melhor da sua competência e humanidade merecem respeito, reconhecimento e condições de trabalho adequadas. E permitam-me que recorde a memória de colega – o Dr. Vítor Duarte –, que se oferecera como voluntário para ajudar no Hospital Curry Cabral e que doente comum, operada há anos de uma situação vascular complexa, me recordou na sua consulta de seguimento anual. Foi um exemplo de dedicação e de espírito de serviço, da Ética e do Profissionalismo Médico.

E, finalmente, o documento sobre a Visão Estratégica para a Recuperação Económica. Embora demasiado longo e abrangente, merece uma discussão informada: é um exercício de Cidadania irrecusável. Curiosas as duas páginas e meia dedicadas à Saúde no conjunto de mais de cem!

Merecem análise detalhada.

O nosso Futuro está em jogo. Espero que a Política tenha a dimensão necessária ao Desafio que enfrentamos.

Referência

[1] Bernard-Henri Lévy, Este vírus que nos enlouquece. Ed. Guerra e Paz, 2020

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