Editorial

A Europa conseguiu. E nós?

Com grandes números vêm enormes responsabilidades, nomeadamente para Portugal, como ontem assinalaram, em uníssono, o ministro da Economia, o primeiro-ministro e o Presidente da República.

A Europa conseguiu obter um acordo histórico, mostrando capacidade de reacção num momento de enorme dificuldade, algo que as mais recentes crises, a da dívida soberana ou dos refugiados, não permitiam ter como certo. O difícil processo negocial deixará marcas, mas faz parte da natureza de uma família com 27 membros, cada um com a sua cabeça.

Isso não ensombra o facto de, pela primeira vez, os países concordarem em endividar-se conjuntamente para responder a uma crise que é de todos. É uma medida temporária, mas o quebrar do tabu releva a excepcionalidade do que foi conseguido.

Os números também são impressionantes: 1,8 biliões de euros para atacar os efeitos da covid-19, dos quais 750 mil milhões são para financiar a reconstrução económica e social e, destes, 390 mil milhões são a fundo perdido. Só Portugal terá acesso a 45 mil milhões a fundo perdido.

E com grandes números vêm enormes responsabilidades, nomeadamente para Portugal, como ontem assinalaram, em uníssono, o ministro da Economia, o primeiro-ministro e o Presidente da República. E não é um sublinhado em vão porque, infelizmente, a nossa história continua a ser escrita com muitos insucessos. Basta constatar que ao fim de 34 anos de adesão ao espaço comunitário, e apesar de todos os milhões dos fundos de coesão, o Norte persiste como uma das regiões mais pobres da UE.

Depende de todas as áreas da sociedade a “enorme responsabilidade” de fazer com que esta oportunidade não se transforme em mais um desencontro com a história, mas depende muito especialmente de quem vai receber o dinheiro e  canalizá-lo, o Estado. As condições depauperadas do sector público, o esvaziamento das CCDR, por onde passava muita da gestão de verbas comunitárias, não deixam boas perspectivas.

Lembrava ontem Costa Silva, na apresentação da sua visão estratégica para a recuperação económica nos próximos dez anos, que se a administração pública “continuar business as usual”, ou seja, sem se modernizar e simplificar, o plano sai beliscado. Mas não é o plano, é o país que não singra.

A oportuna coincidência de agenda, entre a histórica decisão europeia e a apresentação deste importante plano, vem destacar o outro grande obstáculo para que Portugal aproveite seriamente a oportunidade, a nossa incapacidade de fazer escolhas estratégicas claras e de as manter. Basta ver o caso da ferrovia, em que só temos a lamentar o tempo perdido, mas em que muitos, como destacava Costa Silva, preferem continuar uma discussão fetichista em torno da sigla TGV.

Sem uma visão clara e sustentada do que queremos, e uma grande dose de persistência, o dinheiro que virá da Europa corre o risco de se perder como água deitada na areia.

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