Número de animais mortos em Santo Tirso sobe para 73

GNR e população retiraram entretanto dezenas de cães e gatos de duas casas em Valongo, aparentemente ligadas a uma das proprietárias de um dos canis que ardeu na Serra da Agrela.

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Muitos dos animais morreram carbonizados no abrigo mais afectado pelo fogo PAULO PIMENTA

A Câmara de Santo Tirso actualizou o número de animais de companhia vítimas do incêndio que no passado fim-de-semana atingiu dois abrigos ilegais, na Serra da Agrela. Depois de ter contabilizado 54 mortes, no domingo à tarde, a autarquia admite agora que foram pelo menos 73 (69 cães e quatro gatos) os animais que não sobreviveram ao fogo. Outros 190 foram resgatados, o que dá uma noção da dimensão da actividade desenvolvida nestes espaços cuja falta de condições, conhecida há anos por várias instituições, não foi suficiente para o seu encerramento. E esta segunda-feira, em Valongo, as autoridades resgataram mais 32 animais, em duas casas. 

A imundície, a sobrelotação, as pragas de roedores ou as doenças dos bichos ali guardados não foram relevantes para o Ministério Público considerar, em 2018, que os animais que viviam nestes abrigos eram alvo de “maus-tratos”, levando ao arquivamento de queixas apresentadas no ano anterior. Mas esta segunda-feira, uma situação parecida, em muito menor escala, levou o veterinário municipal do concelho vizinho de Valongo a não ter dúvidas em considerar que a lei que protege os animais estava a ser violada e a intervir, com a GNR. 

O veterinário Fernando Rodrigues foi chamado pela GNR à freguesia de Sobrado, à propriedade da dona de um dos abrigos da Agrela, e, explicou, depois de conversarem com a senhora recuperaram quatro cães e 12 gatos, que viviam em total falta de higiene, com ratos e fezes espalhadas pelo chão. Noutro ponto da localidade, numa casa devoluta, foram encontrados mais 16 cães, ali mantidos aparentemente pela mesma pessoa, também em condições deploráveis. A situação foi acompanhada por membros de associações e população que acabaram por ficar como fiéis depositários e cuidadores destes animais, depois de identificados (animais e pessoas) para o auto que foi elaborado na sequência desta acção.

A intervenção aconteceu depois de, nas redes sociais, e na sequência do desastre de Santo Tirso, alguém ter alertado para a existência de mais espaços com animais, das mesmas proprietárias, em Valongo e Gandra, Paredes, onde a GNR estava também a acompanhar o caso. Em declarações ao PÚBLICO, Fernando Rodrigues insistiu que manter animais em situações destas, sem vacinação e sem registo, configura “maus tratos”. E salientou que se não houver “acompanhamento psicológico e judicial” nada impedirá que as mesmas pessoas voltem a acumular animais. 

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GNR diz que a sua acção permitiu salvar a maioria dos animais, mas pessoas acusam autoridades de lentidão Paulo Pimenta
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PÚBLICO - Canil foi alvo de queixas em 2017 devido às fracas condições de higiene, mas Ministério Público arquivou o processo por entender "não haver crueldade em manter animais num espaço sujo, com lixo, dejectos e mau cheiro"
Canil foi alvo de queixas em 2017 devido às fracas condições de higiene, mas Ministério Público arquivou o processo por entender "não haver crueldade em manter animais num espaço sujo, com lixo, dejectos e mau cheiro" Paulo Pimenta
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Acumuladores perdem o controlo

O novo veterinário municipal de Santo Tirso, Helder Tulha, admitiu também, como outro profissional já tinha explicado ao PÚBLICO, que há muitas vezes um lado patológico, neste processo de acumulação de animais sem condições por parte de pessoas que não pretendem maltratar os bichos, mas que acabam por perder o controlo da situação ao longo do tempo. Na verdade, há quase uma década que eram conhecidos os abrigos de Santo Tirso e nem as intervenções do Ministério Público (arquivamento de queixa), da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (Vistorias e multas) ou da própria autarquia impediram que os animais, e os problemas, se acumulassem. 

Com a atenção do país voltada, por péssimos motivos, para o concelho, Santo Tirso tenta mostrar que não quer, por um lado, que a culpa morra solteira e, por outro, que não é um município insensível ao bem-estar animal. Minutos antes de assistir a uma concentração de centenas de pessoas em frente aos paços do concelho, o presidente da Câmara anunciou a abertura de um inquérito interno à forma como os serviços actuaram no fim-de-semana e ordenou a suspensão de funções do anterior veterinário, cuja intervenção esteve no centro de muitas críticas. 

Também a Ordem dos Veterinários deu conta da abertura de um inquérito, embora o respectivo bastonário, Jorge Cid, se tenha mostrado confiante no trabalho do colega de Santo Tirso, que “terá feito o que podia, com os meios ao seu dispor”. A suspensão do veterinário de Santo Tirso não é uma declaração de culpa mas uma medida de protecção do próprio inquérito, explicou o autarca Alberto Costa que, esta terça-feira, visitou o canil municipal, inaugurado em 31 de Julho de 2018, e por onde passaram, garante, centenas de animais que entretanto arranjaram novos donos.

Pior sorte tiveram os 73 patudos da Agrela, para os quais os defensores dos direitos dos animais, e vários partidos pedem justiça em respeito de uma lei que lhes garante (ou devia garantir) protecção. Depois de ter desvalorizado a situação destes abrigos, o MP vai investigar o que ali aconteceu na sequência de uma denúncia do PAN, neste fim-de-semana. E pode contar desde já com os resultados do inquérito municipal e com o que vier a ser apurado pela Inspecção-Geral da Administração Interna, que abriu um inquérito à actuação da GNR - acusada de impedir o resgate de animais na noite de sábado para proteger propriedade privada - e da própria Protecção Civil, que comandava o combate ao fogo mas a partir de Valongo, onde o incêndio começara. 

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