Para Trump, a máscara contra a covid-19 passou de opção a “acto patriótico”

Depois de meses a desvalorizar o uso de máscara e a fazer da questão um factor de divisão política, o Presidente norte-americano mudou de posição perante a queda nas sondagens.

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Trump usou máscara pela primeira vez em público durante uma visita a um hospital militar dedicado à covid-19 CHRIS KLEPONIS/EPA

Quase quatro meses depois de as autoridades de saúde norte-americanas terem começado a recomendar o uso de máscara no combate à covid-19, o Presidente Donald Trump veio dizer aos seus apoiantes, pela primeira vez, que a protecção facial em tempos de pandemia é “um acto patriótico”.

Numa mensagem partilhada na rede social Twitter esta terça-feira, Trump surge numa fotografia a usar uma máscara com o selo presidencial – a mesma que usou numa visita a um hospital militar no dia 12 de Julho, quando apareceu pela primeira vez em público com máscara desde que a Organização Mundial de Saúde declarou a existência de uma pandemia, a 11 de Março.

Ainda assim, o Presidente norte-americano fez questão de sublinhar na sua mensagem que o novo coronavírus veio de fora, lançado por um inimigo externo, e não assumiu a autoria da ideia de que o uso de máscara é um “acto patriótico”.

“Estamos unidos nos nossos esforços para combater o Vírus Invisível Chinês, e muitas pessoas dizem que é patriótico usar uma máscara quando não é possível manter a distância social. Não há ninguém mais patriota do que eu, o vosso Presidente favorito!”

Pressão no partido

Desde que os Estados Unidos começaram a enfrentar a pandemia, o Presidente norte-americano nunca se manifestou contra o uso de máscaras pela população em geral, mas também nunca tinha aconselhado os cidadãos a protegerem-se em público. E no início de Abril, quando o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano começou a aconselhar o uso de máscaras, Trump disse numa conferência de imprensa que não iria fazê-lo.

“Não me parece que vá usar”, disse Trump no dia 3 de Abril. “Não me estou a ver a usar máscara e a cumprimentar presidentes, primeiros-ministros, ditadores, reis e rainhas.”

Segundo a CNN, o Presidente norte-americano viu-se forçado a mudar de posição nos últimos dias, à medida que muitos governadores e outros políticos do Partido Republicano foram começando a defender o uso de máscaras perante o aumento significativo do número de casos de covid-19 em vários estados.

As sondagens mais recentes, que penalizam muito a forma como Trump tem gerido o combate à pandemia, incluindo entre o eleitorado republicano, foram o incentivo final para que o Presidente dos Estados Unidos abandonasse a sua posição a favor da liberdade individual, segundo os media norte-americanos.

No domingo, numa entrevista ao canal Fox News, Trump voltou a responsabilizar a comunidade científica por avanços e recuos na recomendação do uso de máscaras. Em particular, disse que o principal epidemiologista da equipa da Casa Branca de combate à pandemia, Anthony Fauci, também começou por desaconselhar o uso de máscara.

Em várias entrevistas, Fauci tem dito que o uso de máscaras pela população em geral não foi recomendado nos primeiros tempos da pandemia porque não havia sinais de que a doença pudesse ser transmitida por pessoas sem sintomas, e temia-se que os médicos e enfermeiros ficassem sem acesso às poucas máscaras disponíveis na altura.

“Agora temos muitas máscaras. E sabemos que a população em geral não precisa de usar máscaras N95, e que um simples pano pode ser suficiente”, disse Anthony Fauci numa entrevista ao site TheStreet, em Junho. “Por isso, apesar de parecer que houve uma contradição, o que aconteceu é que as circunstâncias mudaram.”

Para além da nova recomendação sobre o uso de máscaras, o Presidente norte-americano anunciou também que vai retomar as conferências de imprensa diárias na Casa Branca a partir de terça-feira.

“As conferências de imprensa vão dar a Trump o tempo de televisão que ele ambiciona, e vão ser retomadas depois de ele ter dito aos seus apoiantes, no fim-de-semana, que o agravamento da pandemia vai obrigá-lo a suspender os comícios”, notou o correspondente da CNN na Casa Branca, Stephen Collinson.

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