Contra o mito da cancel culture

Nós, cientistas sociais, temos responsabilidade em continuar a promover um debate sério e não banalizador de estruturas e práticas de exclusão.

Em 2017, a revista Third World Quarterly publicou um artigo de Bruce Gilley intitulado “The case for colonialism”. Nele argumenta-se que as análises ao colonialismo ocidental o prejudicam e lhe dão uma má reputação. Para o autor, era momento de destacar as benesses dos sistemas coloniais europeus e o que de desenvolvimento levaram ao mundo. A revista Third World Quarterly nasceu em 1979 com uma linha editorial abertamente anti-colonial. Edward Said, autor incontornável dos estudos pós-coloniais, foi seu editor. Esta revista publicava um texto abertamente defensor do colonialismo. A polémica instalou-se quando um conjunto de académicos solicitou esclarecimentos aos corpos editoriais da revista sobre a publicação desse texto. Perguntavam se tinha havido revisão por pares, estranhando a sua aceitação. Houve revisão por pares, sim, mas todos tinham recomendado a rejeição. Contra os avaliadores, a revista publicou. Tendo sido subvertidas as regras entre autores e revistas, e tendo desrespeitado o código de conduta, a direção optou por demitir-se.

Há três anos ainda não se falava de um dos novos chavões, “cancel culture”, mas Bruce Gilley defendeu-se dizendo que a academia estava refém de ideias politicamente corretas, não admitindo visões dissonantes e reclamando liberdade de expressão. Quis resgatar o que sentiu estar ameaçado na academia: as ideias de universalismo e da superioridade civilizacional europeia. O debate mais recente sobre a liberdade académica estava lançado. Em 2020 falamos de “cancel culture”, que pode ser traduzido por “cultura de cancelamento” ou, talvez melhor, “cultura de censura”, motivada por uma carta assinada, entre outros, por Noam Chomsky, JK Rowling ou Salman Rushdie e publicada na Harper’s no dia 7 de Julho. Intitulada “Uma carta sobre a justiça e o debate livre”, começa por alertar-nos para o momento que vivemos, de protestos e chamamentos sem precedentes sobre justiça social e racial em todos os âmbitos, das artes à academia. Mas (e todos sabemos que depois de um “mas” geralmente vem uma desculpabilização) erguem-se contra o que consideram ser um registo de intolerância e de moralidade para quem critica deslizes de discurso, omissões ou opiniões diferentes. Esta mesma justificação tem sido dada a respeito de uma carta publicada no PÚBLICO e assinada por cientistas sociais sobre as palavras públicas de Riccardo Marchi, autor de um livro sobre o partido Chega. Nela, os autores defendem “que a produção de conhecimento académico não se coaduna com propósitos de normalização, legitimação e branqueamento de um partido racista e com desígnios antidemocráticos”. E é importante situar esta carta num debate crítico e não no insulto ou no apelo à violência por trolls.

Ao longo da história colonial europeia, legitimaram-se estruturas sociais, políticas, económicas e epistemológicas de dominação e de subjugação. Uma das justificações morais do colonialismo foi a ideia de que os europeus estavam a levar a civilização a quem era primitivo. E esta justificação acompanhou o início do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e chega aos dias de hoje, quando ainda lemos nos manuais de História do 8.º ano que Portugal comerciava “especiarias, ouro e escravos”, sem questionamento, como se pessoas fossem bens de consumo semelhantes a um pau de canela. A ciência esteve ao serviço deste sistema de subjugação e de negação da humanidade a quem não era europeu e branco. Mediam-se crânios, exterminavam-se povos e justificava-se a superioridade com base em critérios de negação, de banalização e de extermínio. Estas ideias foram as dominantes na construção de um pensamento eurocêntrico sobre os não europeus e não brancos. Tal como o foram as ideias que normalizam e até mistificam o colonialismo e os seus legados, muito presentes até hoje nas sociedades pós-coloniais europeias.

Quando agora se escreve em linha oposta ao que se escreveu durante séculos, fala-se de censura. De denúncia. Nunca de debate, diálogo, ou sequer de olhar para o interlocutor como válido. Muitos de nós crescemos com o direito a achar que somos superiores e, quando somos confrontados como responsabilização e consciencialização, custa-nos. É desconfortável. Entendemos a crítica como se fosse uma censura e custa-nos sair de um lugar privilegiado de fala e de acesso ao conhecimento. Eu estou certa, pelo debate que tenho acompanhado nos Estados Unidos da América, em Portugal, Brasil ou Inglaterra, que para muitos dos defensores da tal “cancel culture” seria melhor continuarmos a viver numa “ignore culture” ou numa “cultura que invisibiliza”. Esta atitude deriva de quem sempre se considerou dono da voz legítima ou porteiro do conhecimento, porta-voz da posição que se considera válida porque derivada da construção do conhecimento no Ocidente: androcêntrica e branca. A discussão em torno do Chega e da higienização da sua imagem tem sido feita mais em torno de uma pretensa liberdade de expressão e omissão do que refletindo sobre o poder do discurso. As ideias e as palavras não são meras provocações. O discurso forma o mundo e nós somos e construímos o que pensamos e o que verbalizamos. As ideias e as palavras podem ter consequências graves para todas as pessoas e todos os coletivos que são alvos sistemáticos de discriminação, violência e anulação. Por isso acredito que nós, cientistas sociais, temos responsabilidade em continuar a promover um debate sério e não banalizador de estruturas e práticas de exclusão.

Nota: as opiniões expressas no texto apenas me vinculam a não à minha instituição.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico​