Crónica

Maria e Maria

Não há luvas nem óculos. Nem fatos, nem botas de biqueira de aço. Há músculo e força de vencer.

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Adriano Miranda

É difícil percorrer aquelas estradas. Tenho tudo mapeado no meu cérebro. O sítio exacto onde os automóveis arderam, a posição dos corpos, as casas que desapareceram, os animais que ficaram de pernas para o ar, os gritos que ouvi, o vento quente com cheiro a fogo que me rebentou os lábios e os olhos. Tenho tudo tão arrumado em pensamentos frescos. Tudo tão presente. Não gosto de voltar ali. Fico desassossegado. Fico triste. Tudo parece camuflado. Já saltam veados e já há matilhas de javalis. Já há eucaliptos e alcatrão novo. Já há casas pintadas de branco com telhados luzidios. Já há árvores de fruto e alfaces. E ainda há pessoas. Os ministros e as altas figuras da nação deixaram de aparecer. Mas ainda há pessoas. Pelo fio contínuo de metal que separa o alcatrão da vegetação, coroas de flores secas cobertas por silvados, lembram o sofrimento. A luta desigual. Uma cruz branca numa árvore, um coração gravado num muro. Tudo serve para manter a chama acesa da memória cruel. Ainda há pessoas.

Faço as rectas e as curvas muito devagar. Por vezes digo umas palavras. Sozinho. Como naquela noite. Agora o filme é a cores. Já quase nada é negro. Mas fica a sensação estranha que um dia voltará a acontecer. Todos o dizem. Com resignação. Como se o futuro não se pudesse moldar. Depois virá tudo de novo. Os queimados, as lágrimas, as campanhas solidárias, os números das contas bancárias, os ministros e presidentes, os “entendidos da coisa”, os subsídios com juros, as habilidades e as coroas de flores. Virá tudo num socorro fatal. E ali as pessoas serão menos. As poucas ficarão teimosamente. A conta-gotas. Na ampulheta sem direito a viragem.

Maria e Maria. Uma podia ser mãe da outra. Sorriem quando me vêem. São operárias numa fábrica. Está imenso calor. No interior do país é assim. Longe da brisa do oceano. O mais próximo fica na Figueira da Foz. Bem longe para se sentir o seu refresco. Vive-se com o que se tem. A Deus se agradece. Na terra inclinada ainda se adivinham as cicatrizes do fogo. As oliveiras sobreviveram. Os pinheiros não. Os eucaliptos estão pujantes. Foram horas de aflição para salvar o sustento. Mas a divina providência encarregou-se de salvar a chaminé centenária. A máquina mais moderna. Os baldes gigantes de sangue de pinheiro bravo. Os milhares de litros de aguarrás. Maria e Maria aparentam ser felizes. 

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Adriano Miranda

Numa estrutura de betão armado, as nódoas resinosas estão por todo o lado. Ficamos colados ao chão de múltiplos tons. Maria e Maria já se habituaram ao precário equilíbrio provocado teimosamente pelas botas que ficam presas nas pequenas lagoas de resina. Arrastam com toda a força os bidões de duzentos litros. Cada uma trata dos seus. Com a força certeira do martelo, desventram a chapa e inclinam os bidões. O sangue do pinheiro bravo liberta-se a toda a velocidade. Maria e Maria carregam bidões, tombam bidões, arrumam bidões. Maria e Maria respiram resina, sujam as mãos com resina, sentem os salpicos da resina. Maria e Maria estão nisto sete horas. Faça sol, faça chuva, faça vento ou trovoada. Não há luvas nem óculos. Nem fatos, nem botas de biqueira de aço. Há músculo e força de vencer. Há o sustento. As bocas para alimentar.

Dizem que no Verão é calor. No Inverno é frio. Não se queixam de mais nada. Ficam orgulhosas quando lhes dizem que aquilo é trabalho de homens. Maria, a mais velha, tem um ar frágil. Maria, a mais nova, tem um ar robusto. Cada uma com as suas histórias. Maria, a mais velha, já viu a aldeia cheia de povo. Talvez descalços. Talvez analfabetos. Trabalho à jorna. Mal pagos. Mas eram felizes. Pobres, mas felizes. Como se a pobreza algum dia trouxesse felicidade. Maria, a mais nova, resiste à morte da aldeia. Trabalha no que aparece porque é cada vez mais raro aparecer alguma coisa. Andou na escola. Nunca se deu ao excêntrico pensamento de um dia ser doutora. Quem sabe se os seus filhos não irão para Coimbra. É feliz. Tem dias. Uns sim outros não.

Foi assim e sempre será, ou, foi assim e um dia mudará. Talvez sejam estas as duas grandes encruzilhadas da humanidade. De Bogotá a Nova Deli. De norte a sul, de este a oeste. Que caminhos vamos escolher? O alemão de barbas fartas bem nos avisou a seu tempo. Aquele chão de cimento de nódoas resinosas é igual ao chão de cimento dos tanques de uma tinturaria em Marrocos. Ou de uma fábrica têxtil na Indonésia. Ou de uma mina na África do Sul. Ou de uma plantação de algodão no México. Ambos são pisados por homens e mulheres. Força bruta de trabalho. Vendida para a sobrevivência, comprada para a abundância.

Maria e Maria. São mais duas na dureza da contabilidade dos números. Milhões de braços. Milhões de notas. Não se importam. Sempre foi assim e sempre será. E os teus netos Maria? E os teus filhos Maria? Pode ser que um dia…

Volto à estrada. Penso em Maria e Maria. Aquela terra é para mim um lamento de recordações. E a imagem das botas cobertas de horas e horas de trabalho não me larga. Fico mais inconformado do que já era. Afinal, dali vi o mundo. E não é coisa bonita de se ver.

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