Crónicas de pintura (1)

O retrato roubado do menino de Urbino

O fragmento em falta na tela do Martírio de S. Sebastião de Federico Barocci , o pintor confinado em Urbino durante 50 anos, deveria ter regressado “a casa” no final do ano passado. Primeira de uma série de crónicas dedicadas à pintura.

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Foto
4 — Última Ceia, por Federico Barocci, 1590-99, Catedral de Urbino

Gli piace il Barocci?”. A voz veio de trás de mim e, antes de me virar, dei-me conta de que já estava a olhar para a pintura há bem mais tempo que os visitantes habituais do Duomo de Urbino levam a fazê-lo. Acolhi por isso a pergunta, nítida e em tom afável, como um elogio à minha concentração silenciosa e demorada diante da teatral Última Ceia (4) do mais célebre pintor da cidade depois de Rafael Sanzio: Federico Barocci (1535-1612). Na penumbra da capela do Santíssimo Sacramento, que a tela parecia acolher e prolongar nas suas arquitecturas sombrias, tinha reparado vagamente na senhora vestida de negro, sentada num banco mais recolhido que os restantes, julgando-a uma daquelas velhas beatas lançando olhares de censura ao visitante que não entra na igreja para murmurar umas orações. E eu não tinha vindo a Urbino para rezar mas, entre outras coisas menos ociosas, para ver o Barocci. “Sim, respondi com sincera cordialidade, é uma das mais belas pinturas que dele conheço. Mais bela ainda que as que estão expostas no Palácio Ducal”. A senhora pareceu-me desinteressada por tais comparações que, decerto, lhe soavam a escusado encómio. “Sabe que ele, Federico, o pintor, ficou doente, muito doente, quando foi a Roma, ainda jovem? Dizem que o envenenaram, por inveja. Logo regressou a Urbino. E não mais saiu de cá, durante quase meio século, até morrer. Seus pais, de Milão, eram fabricantes de relógios e de instrumentos de precisão. Compassos e essas coisas…”. E logo acrescentou: “O último duque, Francisco Maria II della Rovere, diz nas suas memórias: Hoje vou ver as pinturas do Barrocho (é um termo local) a sua casa. Imagine! O Duque é que ia ao pintor! E as pessoas cediam-lhe salas grandes para ele trabalhar nas telas de maior formato. Como se a cidade se identificasse totalmente com Federico e a sua arte”. Reparei que não falava com afectação ou por desenfado, o seu olhar vivo e uma certa atitude de serena frontalidade incutiam aquele não sei quê de aristocracia natural e antiga que alguns italianos cultos ainda detêm. “Venha, continuou, vou mostrar-lhe uma coisa extraordinária e terrível…”.