Torne-se perito Reportagem

Eles não usam o talho, por isso inventaram oValho

Os alemães Jan e Larissa já não são hóspedes no Porto. Por isso decidiram contribuir. A Fugas foi conhecer oValho Vegan Snack Bar — e os seus “alimentos com um alto teor de proteínas”, que acabou de abrir portas.

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oValho

17 de Julho de 2020. Ainda há trabalhos em curso ao longo do quarteirão da rua do Barão de Forrester. Com o plano de renovação das infra-estruturas (abastecimento de água, saneamento e águas pluviais) também chegaram passeios mais largos e zonas amplas. “Estamos à espera das árvores”, comenta Jan Kube, um dos fundadores de um projecto que também é novo na vizinhança. Esta sexta-feira é dia de inauguração. Chama-se oValho, uma palavra inventada pelo casal alemão que deriva de “o talho”. “Como um talhante vegano, a equipa oValho oferece alimentos e pratos com um alto teor de proteínas.”

A inauguração deveria ser comemorada na primeira semana de Março, mas a pandemia adiou muita coisa. Também nos fez pensar que “isto é apenas o início”. “Temos que lidar com isso e encontrar um caminho não para voltar ao passado mas para evoluir”, lança Jan, que em Janeiro de 2016 trocou Hamburgo pelo Porto na companhia da namorada Larissa Smailes. “Temos que manter bem presente o que aprendemos nos últimos meses”, diz o alemão, sentado ao lado do brasileiro Jeís Carvalho. “É simbólico termos ficado estes últimos meses separados. Porque um dos problemas do planeta é a concentração de pessoas nas grandes cidades. Precisamos de espaço para vivermos juntos. Temos a tecnologia. Agora precisamos de uma nova visão de evolução.”

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Jan, Larissa e Jeís Luís Octávio Costa

Que comece pelo nosso bairro. O snack-bar é luminoso e foi pensado para coexistir com madeira e plantas. Há mesas cá fora e, atrás de uma grande vitrina, uma sala com uns bons 70 metros quadrados, agora com espaço para até 15 pessoas. Para já, oValho ("o nome tem harmonia") está aberto de quinta a sábado (das 18h às 22h) e de sexta a domingo (das 12h às 15h). E serve um menu suficientemente criativo para atrair clientes veganos e vegetarianos e simples quanto baste para cativar aqueles que se afastam do “v” de vegetal como o diabo da cruz. “oValho não significa comer nada a menos. Passa por comer muito mais de muitas outras coisas”, justifica Jan Kube, que um dia deixou de comer carne por ver passar à sua frente os camiões de porcos em direcção ao matadouro.

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oValho fica na renovada rua do Barão de Forrester oValho

Hoje é dia de Wrap HomNjom XL (pão ázimo fresco, húmus, fatias de bife vegano, tomate, cebola, salada, pepino e milho), de massa com lentilhas ou ervilhas e molho à bolonhesa ou goulash de pimentão, de salada Vegetaliosa (alface, tomate, pimento, cebola, pepino, milho, azeitonas, sementes de girassol e de abóbora fritas, molho vegano e duas fatias de pão caseiro) e Leguminosa (feijão vermelho, tomate, cebola, pimento, milho, azeitonas, salsa e molho vegano com uma fatia de pão caseiro) e de muffin vegan caseiro (noz, chocolate ou limão) a fechar.

“É um snack-bar”, resume Jan, enquanto vai acrescentando a percentagem de proteínas presente em cada prato confeccionado. É um ponto de honra. “Quero ver aqui pessoas veganas e vegetarianas, mas quero cá pessoas que não se identificam com este regime alimentar”, diz. “Há pessoas que dizem ‘gosto da comida vegan, mas preciso das minhas proteínas’ ou ‘eu como, mas tenho um filho e ele precisa de proteínas’. Podes ter um monte de proteínas sendo vegan. É uma preocupação do nosso menu”, assume.

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"É um snack-bar", resume Jan oValho

Jan e Larissa já estão no Porto há quase cinco anos. “Já não somos hóspedes. Vamos contribuir”, pensaram, depois de já terem abandonado os trabalhos na Alemanha e o apartamento em Hamburgo, uma cidade que está para Berlim como o Porto está para Lisboa. Desta vez, queriam fazer “algo com um impacto ambiental positivo”.

Jeís chegou em Novembro de 2018, após uma longa viagem pela Europa. Andou por alguns países até cair no Porto. “Vim visitar uns amigos” — onde é que já ouvimos isto? Acabou por ficar. Natural de Açailândia, no Maranhão ("dizem que é a cidade do açaí, mas é a cidade do aço"), esteve ligado à indústria agro-pecuária e à farmacêutica ("estava lá dentro; tinha claro que não queria ir nessa direcção") antes de mergulhar na produção de festivais de música electrónica e, por consequência, na cozinha de restaurantes vegan itinerantes. “Foi uma escola muito grande”, conta o brasileiro que se juntou ao projecto pouco antes de accionado o alarme covid-19.

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oValho

oValho “não é um lugar romântico para ir e ficar”, diz Jan. “É onde encontramos um amigo, agarramos em algo para comer, bebemos um copo e seguimos. É mais rápido e não convencional e não muito caro.” É um sítio “para voltar muitas vezes” com comida com “sabores umami” feita por quem aprendeu muito sobre gastronomia vegana. “Se és vegetariano, aprendes a cozinhar”, lança Jan. “Tens que aprender”, reforça Jeís. “Ao longo das últimas décadas, todos fomos perdendo as nossas opções do cardápio. Agora estamos a resgatar essa variedade.”

A rua do Barão de Forrester — no enfiamento da rua de Cedofeita — está arranjada. Está como nova. “Vivemos aqui. As pessoas conhecem-se”.

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Luís Octávio Costa
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