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Jorge Jesus e Benfica, uma aliança por uma ideia

Contratar Jesus é contratar uma ideia de sucesso imediato – com vista ao famoso “Benfica europeu” – e com garantias de investimento condizente. Caberá ao técnico mostrar se isso implica fechar os olhos a jogadores jovens, necessitados de preparação para a alta-roda.

Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira em 2012
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Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira em 2012 Paulo Pimenta

Em 2015, Jorge Jesus deixou o Benfica ou o Benfica deixou Jorge Jesus? Não há consenso sobre a matéria, mas há uma certeza: de que houve, pelo menos para o clube, uma comunhão de interesses. O projecto de aposta na formação era, para Luís Filipe Vieira, uma bandeira inabdicável e ter Jesus era ter uma barreira nesse intento.

“Quem conhece o Jorge Jesus sabe como ele trabalha. Tem uma maneira de trabalhar que, hoje, não serve os interesses do Benfica (…) [com Jorge Jesus] não era possível planear a três anos. O paradigma mudou”, disse Vieira, em 2016, referindo-se a um treinador preocupado com o sucesso imediato – sucesso dependente de um leque de jogadores capazes no presente, mais do que promessas ou apostas em nomes de futuro criados pelo Caixa Futebol Campus. E Vieira reforçou-o já em 2019: “Todo o sucesso do Benfica vai passar pela formação do Seixal. O Benfica não se pode desviar disto”.

Então e agora? Agora, Vieira haverá de dizer o que pretende. Ou acredita que Jesus já é um treinador com olho e predisposição para a aposta na formação começada por Rui Vitória e Bruno Lage ou assume que essa deixou de ser a preocupação que era em 2016. E, daí, virá o passo seguinte.

O presidente “encarnado” nunca escondeu a ambição de “Benfica europeu”. O Benfica que nenhum treinador deu ao clube nas últimas décadas, mas que Jesus esteve perto de dar: a Liga Europa não é a Liga dos Campeões, mas duas finais europeias já foram, para o clube, um feito e tanto.

E o Benfica parece preparado para dar esse passo. Até ao ano passado, tinha explorado ao máximo a conta bancária em casos esporádicos como Jiménez ou Rafa. Em cerca de um ano, o clube já contratou, porém, num molde coerente com o “Benfica europeu”: além dos 17 milhões de euros com Vinícius, o Benfica gastou 20 milhões em Weigl, outros 20 em Raúl de Tomás e mais 20 em Pedrinho. Tudo no último ano, reforce-se.

Contratar Jesus é contratar uma ideia de sucesso imediato – com vista ao famoso “Benfica europeu” – e com garantias de investimento condizente. Caberá a Jesus dizer e, sobretudo, mostrar se isso implica fechar os olhos a jogadores necessitados de preparação para a alta-roda.

Jesus e o orgulho de Vieira

Além do “Benfica europeu”, assente no investimento, mas também na qualidade de Jorge Jesus, outro ponto essencial neste regresso do técnico é a relação com o presidente. Entre Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus há laços pessoais – ambos assumem a amizade que mantêm –, mas também desportivos. É que Jesus foi, desde que Vieira é presidente do Benfica, o grande “grito de poder” do dirigente.

Quando Jesus perdeu o campeonato, a Liga Europa e a Taça de Portugal em poucos dias, em 2013, Vieira, contra toda a estrutura do clube, decidiu manter o treinador. “Se calhar, não renova por dois anos, mas por quatro”, chegou a disparar na altura.

Vieira queria corrigir o erro de que já tanto falou, quando despediu Fernando Santos, em 2007, cedendo às pressões externas. E a aposta pessoal em Jesus correu bem, com seis títulos nos dois anos seguintes.

Jesus foi, portanto, o homem que permitiu a Vieira legitimar a liderança unicéfala aplicada no clube da Luz – a mesma base que, sem sucesso, permitiu ao presidente manter Rui Vitória, depois de ter visto “uma luz”. Mas, com Jesus, Vieira teve sucesso. E isso é difícil de apagar no laço que os une.

“Nenhum benfiquista pode ter a memória curta. Este treinador é o mesmo que deu o título nacional e faz parte da solução, não do problema”, disse Vieira em 2010. E em 2011: “Eu e a grande maioria dos benfiquistas não temos a memória curta, temos bem presente tudo o que conquistámos com Jorge Jesus. A família benfiquista não é ingrata”.

Pela amizade com o presidente, pela competência como treinador, pelo projecto de Benfica europeu ou mesmo pela gratidão dos benfiquistas, Jorge Jesus está de regresso ao Benfica. Talvez seja até por um pouco de tudo isto.

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