O Brasil inteiro no quarto de uma nordestina

Uma mulher olha um insecto e transporta nesse olhar a experiência de um território. Enquanto actuante nele, observadora e sua intérprete. Ela é G.H., urbana, classe média alta, mas nasceu da mesma cabeça de onde veio Macabéa, nordestina, pobre, perdida na cidade grande. As duas sintetizam uma visão íntima e política de um país, a de Clarice Lispector, autora de uma identidade extra-territorial, carregada de imagens incómodas que, cem anos depois do seu nascimento, em 1920, continuam a instigar o pensamento sobre o Brasil a que sempre disse pertencer mesmo que lhe chamassem estrangeira.

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De manhã cedo não há sol no passeio largo, só uma sombra grande que apaga as sombras mais pequenas dos que passam. Casas e gente diluem-se invisíveis naquela penumbra, apagados pela única luz que chega dourada e se vai esbatendo com a rotação da cabeça até ficar quase branca já no mar que dimana num paralelo à parede de edifícios. As janelas dão para a água em ondas e a água para o seu próprio reflexo entrecortado, em contramão com os vidros das janelas, o cimento dos edifícios, as palmeiras que contornam o bairro. E, no meio, o areal, ainda em alvoroço. É um quadro de sombra, luz e silêncio, onde há um homem a correr com um cão pela trela no que parece ser a fronteira entre claridade e penumbra.

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