White/other

Julgo que faria bem à maioria dos portugueses (e principalmente aos chamadores de táxis destros participantes de manifestações anti-anti-racismo) tentar responder a esta simples questão: que tipo de branco sou eu?

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Ao contrário do que se passa em Portugal, aqui, no Reino Unido, é-nos pedido o preenchimento de dados relativos à nossa proveniência étnica para todo o tipo de formulários. Este bingo multi-cultural é aceite pacificamente como uma forma de o Governo poder recolher dados em relação aos 18 grupos étnicos nos quais se considera que a maioria da população se encaixa. Basicamente, é o equivalente burocrático da indiscreta interrogação “és filho de quem? com que os pais costumam escrutinar amigo/as novos que os filhos levam a casa.

O objectivo principal desta pergunta é o de poder desenvolver políticas especializadas e gerir recursos de forma objectiva no sentido de minimizar as desigualdades, o que faz todo o sentido para um melting pot deste tamanho. Para mim, é também uma forma prosaica de relembrar a ordem de preferência que a sociedade anglo-saxónica atribui às diferente origens dos seus cidadãos. Brancos no topo e tudo o resto para baixo. Gostemos ou não do uso de uma construção social para categorização de pessoas, é necessário encontrar forma de identificar e quantificar oficialmente a desigualdade e discriminação. A alternativa é o fechar dos olhos que se tem visto, o varrer dos problemas para baixo da carpete branquinha que cobre o chão da maior parte das instituições portuguesas.

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Figure 1 - Exemplo de parte do formulário relativo à proveniência étnica

Os burocratas ingleses vão ainda mais longe e decidem dividir cada grupo em subcategorias, tornando o questionário num verdadeiro 50 shades of beige. Destaco aqui a categoria “white”.

A primeira vez que me deparei com esta categorização fiquei surpreendido. Em Portugal, sempre fui branco, com todos os direitos e privilégios que a nossa sociedade me atribuiu. No entanto, aqui sou white/other, branco de segunda categoria, falho o teste do algodão. Talvez até me encaixe geneticamente no grupo mixed (mistura, já bastante diluída), graças às aventuras do meu avô materno por Angola. Num instante passei do topo da cadeia alimentar para BAME, minoria étnica. A confusão aumenta porque nunca tive que superar os desafios impostos a pessoas com ascendência semelhante e pigmentação ligeiramente diferente. Passo assim mais tempo do que o suposto a tentar lidar com a síndrome de impostor e o espectro cromático da minha epiderme. To BAME or not to BAME? That is the question.

Julgo que faria bem à maioria dos portugueses (e principalmente aos chamadores de táxis destros participantes de manifestações anti-anti-racismo) tentar responder a esta simples questão: que tipo de branco sou eu? Aproveitariam para dar uma voltinha à história e genética dos seus pais (e do seu país?) e reconsiderar a sua posição na hierarquia social mundial. Verificariam que têm mais em comum genética e culturalmente com as pessoas que tanta afronta lhes causam do que com um europeu do Norte. E, fazendo uso de terminologia náutica do saudoso tempo das Descobertas de que eles tanto gostam, passariam da supremacia à segunda categoria em 12 paralelos de latitude.

Quanto mais rápido deixarmos para trás a bagagem que toda uma experiência de vida monocromática nos pôs às costas, aprendermos a empatizar com experiências de vida diferentes e celebrarmos a diversidade, melhor. Afinal, todos somos filhos da (mesma) mãe.

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