Editorial

“Sempre que possível” uma DGS independente

Mesmo que estejamos a viver uma fase confusa de combate à pandemia, com avanços e recuos próprios de quem aprende caminhando, a confiança continua a ser o bem mais essencial.

Nos EUA, tem sido dolorosa a disputa entre o discreto imunologista Anthony Fauci, um dos responsáveis pelo combate à covid-19, e o Presidente norte-americano, Donald Trump. De um lado a voz da ciência, do outro a voz da política. É o retrato de um país polarizado em que ouvimos, por exemplo, o candidato democrata, Joe Biden,a apelar ao Presidente: “Ouça os seus especialistas em saúde pública, em vez de denegri-los, faça seu trabalho.” E um vice-presidente, Mike Pence, a dizer que não quer que as indicações dadas pelo CDC (Centro de Controlo de Doenças) “sejam a razão pela qual as pessoas não abrem as suas escolas”.

Ninguém no seu perfeito juízo quer enfrentar uma pandemia com este cenário de dissensão, mesmo que se aceite, dentro da razoabilidade, que especialistas de saúde pública e políticos não estejam sempre de acordo. A sintonia entre estes dois lados, especialmente na hora de falar ao país, tem-se mostrado crucial para uma boa resposta no debelar da pandemia. Entre a vontade de preservar ao máximo a saúde pública e a necessidade de continuarmos as nossas vidas, é preciso encontrar o consenso do que é o risco aceitável.

Só que da mesma forma que não se exige que os políticos estejam sempre de acordo com os cientistas – recorde-se que o momento mais significativo de discordância foi quando, ao arrepio do recomendado pelo Conselho Nacional de Saúde, o primeiro-ministro decidiu avançar para o encerramento das escolas –, também não é expectável que a Direcção-Geral da Saúde, DGS, pareça estar sempre pronta a enquadrar as suas recomendações e as suas análises de acordo com o que o poder político pretende.

Quando a directora-geral da Saúde afirma, como ontem fez, que “sempre que possível, deve garantir-se o distanciamento físico de, pelo menos, um metro” entre alunos, o que ela está a dizer é que para assegurar a abertura das escolas tudo é possível, mesmo que aconteça num país onde os restaurantes tiveram de reduzir a sua lotação para metade.

Quando se recusa mostrar dados que justifiquem porque é que há uma freguesia em Lisboa em situação de calamidade há um mês, quando em todo o concelho em dez dias se somaram 439 casos, sem que isso motive outras medidas localizadas, o que se está a fazer é deixar-nos sem ferramentas para avaliar a justeza das decisões políticas.

Mesmo que estejamos a viver uma fase confusa de combate à pandemia, com avanços e recuos próprios de quem aprende caminhando, a confiança continua a ser o bem mais essencial. Para que ela subsista, a DGS tem de, pelo menos “sempre que possível”, mostrar a sua independência. E não está a fazer muito por isso.

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