Opinião

Os efeitos da pandemia na mobilidade autónoma

Engane-se quem pensar que a pandemia em curso não vai trazer mudanças radicais na forma como vivemos. A sociedade em que nos inserimos vai emergir diferente no após crise, crise que ainda mal começou.

Ora quando há uma crise há áreas que são normalmente as primeiras a sofrer. Ao nível das empresas, qualquer depressão económica tem invariavelmente no marketing e publicidade a sua primeira vitima, quando se começa a cortar é por regra por aí que se começa. A tentação passa por defender o modelo de negócio, aquilo que trouxe cada empresa, cada organização, até ao presente, e por isso outra área que por norma também sofre são os investimentos.

Por isso, não é de estranhar que a pandemia seja à primeira vista um fator de atraso na introdução da mobilidade autónoma, seja porque algumas empresas com reduções drásticas de vendas não têm capacidade para continuar a investir numa altura destas, seja porque as startups que estão a investigar e a desenvolver se vêm privadas de fundos de capital de risco, que preferem nesta fase ativos mais seguros, seja porque um dos fatores imprescindíveis para o desenvolvimento deste novo conceito é a obtenção de dados para processamento ao nível de Machine Learning, o que com clientes confinados não é fácil.

Acresce que no meio de uma pandemia, onde o distanciamento social é crítico, modelos de partilha de veículos tornaram-se numa impossibilidade, estando aqui um fator que obviamente não vai ajudar a que tenhamos num futuro próximo veículos simultaneamente autónomos e partilhados nas nossas cidades, pelo menos enquanto a pandemia durar.

Mas se estas são dificuldades incontornáveis para a mobilidade autónoma, outros novos fatores estão a despontar que podem de alguma forma equilibrar a balança, a começar pela adesão em massa à tecnologia a que assistimos nos últimos meses. Já não são só nesta altura as gerações mais jovens a interagir em exclusivo com gadgets e apps, de repente uma boa parte da sociedade viu-se obrigada a fazer compras na Internet e a participar em reuniões virtuais, trazendo a tecnologia para todo o tipo de atividades e necessidades quotidianas. Naturalmente, este é um fator que vai ajudar à adesão das pessoas a este tipo de oferta mal esta surja, pois descarregar uma app, registar-se e adjudicar um serviço deixou de ser um entrave.

Mas a pandemia revelou outra funcionalidade da mobilidade autónoma, a que se relaciona com o transporte não de pessoas, mas de mercadorias, nomeadamente ao nível da distribuição capilar por meio de viaturas autónomas de bens de primeira necessidade e de medicamentos, algo muito importante em tempos de confinamento e distanciamento social, ao ponto do CEO da Waymo (unidade de mobilidade autónoma da Google) afirmar que o mercado de distribuição é maior do que o mercado de transporte de pessoas. A afirmação é polémica, no entanto os exemplos têm-se vindo a multiplicar em locais tão distintos como os Estados Unidos, a Rússia ou a China, com múltiplas empresas a explorar com sucesso este tipo de distribuição sem intervenção humana em tempos de pandemia.

No mesmo sentido, a questão do distanciamento social trouxe à discussão a possibilidade da utilização de viaturas autónomas como substituição de viagens aéreas de curta duração, opção que, sendo mais segura sob o ponto de vista epidemiológico, é porta à porta e não acarreta problemas de esperas nem controlos de segurança, podendo trazer de volta às estradas muita gente que hoje viaja pelo ar.

Desta forma, considerando todos estes fatores, uns a atrasar a mobilidade autónoma e outros a catapultá-la, como ficamos? A resposta não é fácil, no entanto é indesmentível que a mobilidade autónoma, que se pensou que iria ser numa primeira fase partilhada (os robotaxis), poderá vir a ter uma componente importante ao nível quer da distribuição local, quer ao nível do transporte individual não partilhado.

Por outro lado, dados os investimentos (infra-estruturas e testes) em curso nomeadamente nos Estados Unidos e na China, quando a mobilidade autónoma aparecer em massa será sempre numa realidade de geometria variável, vingará primeiro nos locais onde os investimentos essenciais para o seu funcionamento não sejam adiados por causa da pandemia e crise subsequente, investimentos cujos resultados não são facilmente transportáveis para outras latitudes, pois as pessoas são diferentes de país para país, e um carro autónomo terá de seguir sempre o comportamento perfeito que cada sociedade em concreto determinar.

Seja como for, vamos seguramente ter veículos autónomos a circular, provavelmente primeiro noutras estradas e só depois nas nossas, talvez o nível 5 de autonomia (sem qualquer intervenção do condutor) não seja para já, mas a realidade muitas vezes surpreende-nos e ultrapassa a ficção, e havendo mercado, as empresas tratarão de investigar e desenvolver de modo a ir de encontro às necessidades das pessoas.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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