Maior exportador de carne do mundo comercializa gado ilegal, diz Amnistia Internacional

A multinacional brasileira JBS adquire gado de criadores localizados em áreas desflorestadas da Amazónia, em violação de convenções internacionais.

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Zona desflorestada na Amazónia, no estado de Rondónia Reuters/Bruno Kelly

Sem o saberem, milhões de consumidores em todo o mundo podem estar a comprar carne cuja produção se deu em regiões protegidas na Amazónia. Uma investigação revelada pela Amnistia Internacional mostra que a maior produtora de carne do mundo comercializa cabeças de gado criadas em zonas desflorestadas ilegalmente.

O relatório incide sobre a cadeia de produção de gado bovino que termina nos contentores da JBS, uma multinacional brasileira que é a maior produtora de carne no mundo e que tem na Ásia e na União Europeia alguns dos principais destinos de exportação. O que a investigação nota é que milhares de cabeças de gado que foram vendidas à JBS passaram temporadas a pastar em terras ocupadas e desflorestadas ilegalmente na Amazónia.

O esquema é conhecido como “lavagem de gado” e tem como objectivo evitar um rastreamento rigoroso da origem do gado quando este foi criado de forma ilegal. Um produtor cria gado num terreno ilegal e, perto da fase final que antecede a ida para o matadouro, transfere-o para uma quinta em território regular, a partir de onde poderá vendê-la a um grande distribuidor como a JBS.

A Amnistia Internacional, em conjunto com a organização Repórter Brasil, analisou documentos oficiais de controlo da saúde animal e verificou que a JBS comprou gado a uma quinta na Reserva Extractivista do Rio Ouro Preto duas vezes no ano passado. Em diversas ocasiões, a empresa adquiriu junto de dois produtores que trabalham com quintas ilegais situadas em áreas protegidas no estado de Rondónia.

A empresa, da qual um dos donos foi uma testemunha-chave na Operação Lava-Jato, afirmou, em resposta à Amnistia, que “não compra gado de nenhuma fazenda envolvida no pastoreio ilegal em áreas protegidas”. Porém, a JBS admitiu não ter capacidade para garantir que os fornecedores indirectos com quem trabalha respeitam as convenções internacionais, dizendo tratar-se de “uma tarefa complexa”.

As suspeitas de que, apesar de proibida, a carne produzida em contexto ilegal no Brasil continua a ser exportada não são novas. Ainda no final do mês passado, foi revelado que o Grupo Casino, uma das principais distribuidoras francesas, comercializa produtos provenientes de quintas operadas em zonas desflorestadas na Amazónia.

A desflorestação, associada aos incêndios, é a principal ameaça à preservação da floresta amazónica e um fenómeno que se tem intensificado nos últimos tempos. Entre Agosto de 2018 e Julho de 2019, a floresta perdeu mais de 9700 quilómetros quadrados, uma área equivalente à de Chipre, o que representou um crescimento de 30% face ao ano anterior.

Para além disso, a ocupação ilegal de terras está associada a um contexto de violência contra os povos indígenas que as habitam e há inúmeros episódios de homicídios motivados pelo controlo sobre as propriedades.

O Governo de Jair Bolsonaro tem sido criticado dentro e fora do Brasil pela atitude permissiva face à destruição da floresta amazónica. Tem havido um desinvestimento nos organismos de fiscalização, como o Ibama, e até uma desautorização do seu poder para multar quem ocupa ou incendeia a floresta.