A substituição da estátua de Edward Colston por uma jovem negra será temporária?

A estátua Surge of Power (Jen Reid) 2020 representa uma das manifestantes que derrubaram a do comerciante de escravos de Bristol. O autor da nova escultura é o artista Marc Quinn e toda a operação foi planeada como uma “missão secreta”.

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A estátua representa Jen Reid, uma jovem estilista que foi fotografada com o punho levantado em cima do pedestal da estátua derrubada LUSA/NEIL HALL

A estátua do comerciante de escravos Edward Colston foi substituída na madrugada de quarta-feira em Bristol, no Reino Unido, por uma escultura hiper-realista que representa uma das manifestantes negras que a derrubaram, noticiou o jornal The Guardian, que acompanhou a instalação.

A estátua representa Jen Reid, uma jovem estilista que foi fotografada com o punho levantado em cima do pedestal da estátua derrubada, numa recriação da saudação do Black Power dos anos 60 e 70.

A queda da estátua de Colston, a primeira a ter lugar em Inglaterra, a 7 de Junho, tornou-se um dos símbolos mais recentes do movimento Black Lives Matter, na sequência da morte em Maio de George Floyd às mãos da polícia nos EUA e que provocou protestos em todo o mundo.

O autor da nova escultura é o artista Marc Quinn e toda a operação foi planeada numa perspectiva “okupa”: a estátua tinha que poder ser erguida rapidamente, antes das autoridades locais poderem chegar ao local, e foi realizada em resina preta, um material mais leve do que o metal ou pedra. Segundo o Guardian, a “missão secreta” de Marc Quinn levou apenas 15 minutos a concretizar.

No site do artista, uma declaração conjunta de Quinn e Jen Reid informa que esta é “uma instalação pública temporária” e que não foi obtida “uma autorização formal” das autoridades para a operação. “Jen e eu não colocamos esta escultura no plinto como uma solução permanente — é uma faísca que esperamos que ajude a trazer uma atenção continuada para este assunto vital e premente. Queremos sublinhar o problema inaceitável do racismo institucionalizado e sistémico que todos temos o dever de enfrentar”, lê-se.

Decisão de todos

Marc Quinn, que chamou à obra Surge of Power (Jen Reid) 2020, é um reputado artista britânico, que faz parte da geração Young British Artists, conhecido por ter instalado em 2005 uma estátua de uma mulher grávida e deficiente no plinto de Trafalgar Square, intitulada Alison Lapper Pregnant, no âmbito de um programa de arte pública londrino. Esta quarta-feira o novo trabalho já tinha uma entrada na wikipedia.

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Estátua do político, filantropo e esclavagista Edward Colston, do século XVII, foi atirada às águas do porto de Bristol Keir Gravil /REUTERS

Até agora não são conhecidos os planos da cidade para substituir a estátua do político, filantropo e esclavagista do século XVII que os manifestantes acabaram por lançar nas águas do porto de Bristol. Posteriormente recuperada pelas autoridades municipais, a obra do século XIX tem como destino um museu da cidade, onde será exposta ao lado de cartazes do movimento Black Lives Matter.

Mas o mayor de Bristol, Marvin Rees, disse à BBC que o futuro do que será instalado no pedestal em sua substituição deve ser decidido por todos os cidadãos. “Isso é fundamental para construir uma cidade que é casa daqueles que ficaram contentes com o derrube da estátua, daqueles que simpatizam com a sua retirada mas ficaram desanimados com a forma como aconteceu e daqueles que sentem que perderam uma obra de Bristol que conheciam e era parte deles próprios.”

A condição do monumento

Em Portugal, a onda de protestos internacionais teve recentemente expressão na pichagem com a palavra “Descoloniza” da estátua do Padre António Vieira, instalada em 2017 no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, onde o jesuíta é representado ao lado de três crianças indígenas.

No episódio de Lisboa, o que o historiador de arte Afonso Dias Ramos destaca é o facto de estátua de Vieira ter sido inaugurada já depois destas questões se terem posto a nível internacional, nomeadamente através da ampla mediatização do movimento Statues Must Fall, que na sua declinação mais recente começou na África do Sul em 2015 com o protesto Rhodes Must Fall, dirigido contra uma estátua na Cidade do Cabo de Cecil Rhodes, símbolo da colonização britânica. “Mas sempre se derrubaram estátuas ao longo da história. O primeiro acto simbólico nos EUA é a destituição da estátua do monarca inglês como um estandarte anticolonial. Do nosso tempo, foi o movimento na Cidade do Cabo, mas se abrirmos um bocadinho a lente chegamos mais recentemente à comemoração do cinquentenário de Cristóvão Colombo, em 1992, em que houve uma pichagem e derrube generalizado na América das suas estátuas.”

Daqui para a frente, será muito mais difícil inaugurar estátuas como a de António Vieira, diz este investigador na área do estudos pós-coloniais. “Prevejo que seja mais complicado sem ter essa noção de que há zonas problemáticas na história. Isso acho que mudou. Não me espantaria que passasse a haver muito mais escrutínio do espaço público em Portugal. Retoricamente já existe o discurso que fundamenta esse tipo de acções.”

Quando ao exemplo de Bristol, o historiador de arte considera que a proposta, apresentada como temporária, tem a capacidade de mostrar que há várias maneiras de lidar com a questão. “Demonstra essa capacidade metamórfica dos monumentos: eles vão mudando e são temporários. Essa é a própria condição deles.”