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Conto em Tempo de Pandemia

Autocertificação (VIII)

A pandemia ameaça eternizar-se e colar-se ao nosso quotidiano. As mães desinfectam pressurosamente as mãos dos bebés, os donos desinfectam as patas dos cães. Sónia sabe que só um amor desconfinado e alheio à etiqueta respiratória a pode salvar.

Lorenzo, minha paixão iminente, meu encontro adiado,

Nunca me viste, não conheces o meu rosto, não sabes se sou feia ou bela. Não sabes se tenho os olhos afastados ou juntos, o nariz grande ou pequeno, o cabelo encarapinhado ou liso. Não sabes se sou esquelética ou rechonchuda, ou até morbidamente obesa. Não sabes se tenho deformidades, se sou zarolha ou coxa. Não sabes se tenho um enorme sinal de sangue a manchar-me o rosto. Não sabes se tenho os dentes estragados, tortos ou impecavelmente brancos. Nada te desvendei, soneguei-te todas as imagens, não te enviei sequer um retrato fosco ou truncado que te permitisse ordenar-me numa escala qualquer, dizer que sou mais bela do que A ou mais feia do que B, que te permitisse comparar-me com mulheres vivas ou mortas, dizer que tenho a pele castanho-clara da Billie Holiday ou o queixo resoluto da Frida Kahlo ou as olheiras da Beata Beatrix ou os dedos compridos daquela tua antiga namorada do liceu. Todos os rapazes tiveram no liceu uma namorada de dedos compridos. Num momento em que ninguém confia em ninguém, em que, sem saberem ao certo porquê, todos temem o outro, pedi-te que confiasses cegamente em mim. Pedi-te que confiasses numa rapariga etérea, uma rapariga que talvez não exista, sequer. Pedi-te, principalmente, que confiasses em ti próprio.

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Billie Holiday
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Frida Kahlo Guillermo Kahlo
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Beata Beatrix (c. 1864 e 1870), de Gabriel Charles Dante Rossetti (1828-1882)

Pedi-te que acreditasses que me acharás bela quando me vires, e, mais ainda, que acreditasses que a minha beleza te perturbará da maneira certa. Há belezas que nos deixam frios, há belezas que nos repelem, há belezas que nos assustam, há belezas que achamos feias. Pedi-te que aceitasses de bom grado o facto de eu, a mulher, estar, desde o início, em vantagem em relação a ti, o homem. Conheço tão bem o teu corpo, sonhei tanto a tua figura, olhei-te demoradamente de longe, sei que te acho belo e que a tua beleza me comove. Conheço até a tua voz, que escutei uma vez sem que desses por isso, escondida atrás de uma coluna, enquanto conversavas com amigos, e sei que me soou aos ouvidos com o timbre certo. No mundo digital, em que as pessoas só confiam nas imagens, dei-te apenas palavras, caudais de palavras, e pedi-te que confiasses somente nelas. Pedi-te que deixasses as palavras fazerem o trabalho das imagens. Os monarcas de outrora, antes de se casarem com rainhas desconhecidas, em núpcias longamente negociadas por embaixadores e emissários, tinham ao menos o direito de ver o retrato a óleo da escolhida. E as pessoas que, em Oitocentos e nos alvores de Novecentos, namoravam e se casavam por correspondência, em margens opostas de vastos oceanos, trocavam, antes de darem o nó, fotografias tiradas em estúdio. Fiz-te recuar no tempo, até um tempo que nunca houve, um tempo só nosso. Como ervas daninhas, expurguei as minhas cartas, antes de as passar a limpo e de as meter no envelope, de todas as alusões à roupa que visto, à minha altura, ao meu peso, ao meu penteado, aos meus estados de saúde. Sou um romance epistolar, sou uma voz que ecoa num vale de montanha, sou a palavra em estado puro. Chegou o momento de ir ao teu encontro.

As pessoas anseiam por certezas, eu ofereci-te apenas a dúvida. A mesma dúvida que sinto quando começo a pintar um retrato na tela vazia. A dúvida que, ao fim de um certo tempo, o hábito e a mestria técnica vêm abafar. Neste momento, porém, quero manter-me no terreno da dúvida, não quero, para já, as certezas. A verdade é que não sei ainda ao certo o que quero, e enquanto há dúvida há esperança. Ou antes: sei o que quero, só não sei o que estou disposta a sacrificar para o obter. Incomodam-me as ideias de conquista e de entrega. Assim como me incomodam as metáforas guerreiras associadas ao vírus, também recuso as metáforas guerreiras associadas ao amor. Prefiro pensar numa permuta constante de órgãos. Hoje dás-me os teus pés, porque estou cansada. Amanhã perdes o fôlego, dou-te os meus pulmões. Perco a cabeça, dás-me o teu sangue-frio. Esqueceste-te de uma coisa, dou-te a minha memória, serve-te dela. Cortei-me, liga as tuas veias às minhas. Ceguei, dá-me o teu tacto. Hesitas, confio-te a minha persistência. Quero manter-me no terreno da dúvida, sem nunca terminar o retrato, retocando aqui, recomeçando além, esperando novas revelações, dando-te a oportunidade de, todos os dias, me desiludires e iludires de novo.

Mesmo antes de ter lido a tua última carta, em que me contaste como decorreu a performance que levaste a cabo a meu pedido, já eu soubera como tudo aconteceu. Um vídeo que alguém filmou com um telemóvel começou a circular, tropecei nele em vários recantos da Internet, os jornais italianos pegaram-lhe, deves ter visto. Achei piada à maneira como, ali estendido, olhaste para os agentes da polícia que te interpelaram. Parecias absolutamente sereno, como se levitasses, como se pairasses no ar, suspenso acima da armação metálica, sem lhe tocares. Da primeira vez que vi o vídeo, num tweet de alguém, temi que acabasse mal, que o gesto do agente ao tocar-te no braço te tivesse despertado em sobressalto daquele transe em que parecias mergulhado, fazendo-te cair desamparado em cima dos espigões. Como um sonâmbulo a quem acordassem bruscamente. Estremeci, não pude deixar de me sentir aflita e um pouco culpada. Afinal de contas, fui eu a sugerir-te a performance. Não ta exigi, quero crer que não há entre nós exigências nem chantagens, apenas a força tranquila que leva o corpo a acomodar-se na posição mais confortável, o impulso inconsciente que nos faz procurar o sol quando temos frio e a sombra quando o calor abrasa. Somos isso um para o outro, espero. E é por isso que preciso de ir ao teu encontro. O Verão chegou, o sol não dá tréguas, és a sombra onde me acolho. Foi com alívio que vi aquele polícia espadaúdo a agarrar-te e a erguer-te nos braços como se fosses um garoto, como se estivesses a ter um pesadelo em plena noite e ele te quisesse reconfortar. E pronto, lá te multaram mais uma vez. Esta nossa paixão está a sair-te cara.

Nessa tua última carta, contaste-me que, deitado naquela armação metálica, suspenso por cima dos espigões, só pensaste numa coisa: em mim. Só uma coisa te preocupou: saber se, àquela hora, eu estava bem. Se tudo corria bem na minha performance, em Lisboa. Quando li isto, perguntei a mim própria em que é que eu pensei enquanto segurava a flecha, de olhos cravados nos do José. E percebi, sem sombra de dúvida, que pensei em ti, só em ti. Disso tenho a certeza. Mas essa certeza não me incomoda, não me oprime, porque semeia à sua volta uma inquietude, uma dúvida muito grande. Será que vieste para ficar? Será que é o teu retrato que irei, no fim de contas, pintar pela vida fora?

Quanto à minha performance com o José, não houve, que eu saiba, vídeos virais. Quem se reuniu à nossa volta no Rossio foram sem-abrigo e, ao fim de um quarto de hora, apareceu a polícia. Com mil cuidados, como se fizesse parte da encenação, um agente aproximou-se pé ante pé, ergueu o braço lentamente, para não nos sobressaltar, fechou o punho em volta da flecha e soltou-a da corda do arco. Vi tudo isto pelo canto do olho, como num sonho. Nem eu nem o José nos mexemos, continuámos imóveis, de olhos nos olhos. Só quando nos pediram a identificação com maus modos é que perdemos a concentração, não deu para continuar. Encontrei apenas, num jornal online português, uma fotografia em que se vê o José, muito sério, ainda de arco na mão, dois polícias, ambos com o ar inexpressivo dos polícias de todas as latitudes, e eu, de costas para a câmara. Se chegaste a ver essa imagem, ficaste a saber que naquele dia eu usava um vestido vermelho com flores brancas e que tenho o cabelo liso e moreno, muito comprido. E que não sou, afinal, esquelética nem gorda. E nada mais. É muito importante para mim, esta demora em me conheceres. É muito importante para mim saber que nos encaminhamos devagar um para o outro, num prazer protelado, como se tivéssemos tempo, muito tempo. Todo o tempo do mundo.

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Miguel Manso

Fui ontem a casa do José, para me despedir dele. Não o via desde o dia da performance, tenho andado ocupada a planear a viagem. Marquei e desmarquei voos sucessivos, troquei emails com várias companhias aéreas. Percebi que a KLM facilmente me levaria para norte, para Amesterdão, mas que a Transavia não me garantia transporte para sul, se recusava obstinadamente a completar a terceira face do triângulo Portugal-Holanda-Itália. Durante uma tarde, explorei a possibilidade de voar até Marselha e apanhar o comboio para Milão. Depois percebi que o estado de emergência que vigora em França me impede, por enquanto, de pisar território francês. Até 10 de Julho, os turistas não entram em França. E, para todos os efeitos, aos olhos do mundo, a minha ida ao teu encontro não passa de um acto de turismo. Cheguei a telefonar para a embaixada de França, para saber se podia dormir no Aeroporto Charles de Gaulle entre dois voos. Disseram-me que sim, mas que não poderia abandonar a zona internacional. Dispus-me a ir ao teu encontro percorrendo corredores de confinamento. Os preços dos bilhetes dispararam, fiz contas, muitas contas. Finalmente, encontrei uma solução, tracei o meu plano de voo. Os meus pais não queriam que eu partisse, ficaram muito tristes, lá se resignaram. O meu irmão fez os seus comentários desagradáveis do costume, mas já não me incomoda. Está muito longe de mim, como alguém que nos chama da outra ponta da casa e a quem gritamos: “Se queres falar comigo, vem cá!” Mas depois essa pessoa demora-se, não vem, e nós esquecemos o assunto, nem sequer lhe perguntamos o que queria quando nos cruzamos de novo com ela. O meu irmão está muito mais longe de mim, aqui em Lisboa, do que tu, aí em Itália. Sobre ele não tenho dúvidas, apenas certezas.

Fui a casa do José para me despedir dele, portanto. Quando me preparava para tocar à campainha, a porta do prédio abriu-se e vi sair uma mulher dos seus setenta anos, ruiva, de sardas. Olhou para mim fixamente e sorriu. Disse-me assim: “És a Sónia, não és? Eu sou a Teresa. O Zé deve ter-te falado de mim. Estive mesmo agora com ele, um grande bocado, a conversar.” Tinha nos olhos um brilho de comoção e de alegria, mas não por causa do que via naquele momento, não por me ver a mim. Era um brilho que lhe ficara da conversa com o José. Depois disse-me: “Vi-vos no outro dia, no Rossio, a fazerem aquele gesto arrojado. Foi preciso coragem. A princípio, nem reconheci o Zé. Ele mudou muito. Já não o via há tantos anos... desde o dia em que fomos presos. Percebi que o conhecia, só não sabia de onde. Com a minha idade, uma pessoa já acumulou um grande arquivo morto. Só em casa, a pensar naquele rosto, é que percebi que era o Zé. Magoou-me muito, compenetrar-me de que tinha visto o Zé e não o tinha reconhecido de imediato. Foi como se tivesse regressado a 1971 e depois tivesse envelhecido outra vez num instante. Cinquenta anos passaram por mim num segundo. Pus-me a fazer telefonemas. Custou, mas arranjei o número dele.” De repente, como se caísse em si, pediu-me desculpa por falar tanto, disse-me: “Anda, sobe, ele vai gostar de te ver, disse-me que és uma miúda espectacular. Disse-me que gostava que a filha dele fosse mais parecida contigo. Se calhar não te devia ter dito isto, mas agora está dito, não há nada a fazer. Disse-me que se arrepende de não ter tido uma filha como tu.” E eu então enchi-me de coragem e perguntei-lhe: “E a Teresa?” Mas ela cortou-me a palavra: “Trata-me por tu, por favor, não me faças sentir avó.” E eu: “Está bem. Então cá vai. E tu? De que é que te arrependes?” E ela pensou uns momentos, com um ar concentrado, como se fizesse uma conta de cabeça, e respondeu-me: “De não ter confiado. Confia. Confia sempre.”

Subi, entrei em casa do José, e também ele tinha nos olhos aquele brilho persistente que eu notara na Teresa, uma felicidade sem rodeios que eu nunca lhe vira. Disse-lhe que tinha encontrado a Teresa lá em baixo, e ele perguntou-me se eu a achara bonita. Como um miúdo a perguntar ao melhor amigo se acha bonita a rapariga de quem gosta. E eu disse-lhe que sim, que a achei muito bonita, e não tive de fazer de conta, não tive de dourar a pílula. Ela é mesmo bonita. Disse-lhe que vou partir ao teu encontro, e ele desejou-me felicidades e disse-me que me queria contar o resto da história dele e da Teresa, para eu a levar comigo para toda a parte e a misturar com as outras histórias que me forem contando pela vida fora.

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Venus, Adonis e Cupido (c. 1590), de Annibale Carracci (1560–1609)

Nos anos 90, era ele ainda um cardiologista de meia-idade, estava de banco, nas urgências, em Santa Maria, e o INEM trouxe um velhinho de oitenta e tal anos, a sofrer um ataque cardíaco. Mal olhou para ele, o José viu que era o pide repelente, baixote, com os dentes saídos, só que mais velho, muito acabado. Tinha os olhos esbugalhados, um ar muito assustado, e o José percebeu logo que ele o reconheceu assim que o viu, porque o medo nos olhos dele ganhou uma cor pardacenta, um tom baço. Quando o José lhe colou um eléctrodo ao peito, para lhe fazer o electrocardiograma, o pide agarrou-lhe a mão e implorou-lhe: “Não me faça mal, peço-lhe por tudo, não me faça mal.” Uma enfermeira que estava a meter o cateter na veia do pide ouviu aquela súplica. O José ficou incomodadíssimo, como se aquele homem tivesse revelado um segredo íntimo que ele nunca tivesse confessado a ninguém. Nenhum colega, ninguém no hospital sabia que ele estivera preso e fora torturado. Ainda hoje quase ninguém sabe, aliás, disse-me ele. Só os antigos camaradas do partido. Nem a filha sabe, isso já ele me tinha contado. Cortou a palavra ao pide: “Não diga disparates, sim? Vamos lá a tratar de si.” Podia ter pedido que chamassem o cardiologista da urgência interna, pretextando que precisava de uma segunda opinião, para o usar como biombo entre ele próprio e aquele homem, mas recusou-se a fraquejar, não arredou pé da sala de observações, não se afastou da maca do pide, conversou com ele, perguntou-lhe como se sentia, esperou pelas análises, tomou decisões. Não quis que ninguém reparasse na sua perturbação, quis que os outros pensassem que aquele homem não passava de um velho assustado que dissera um disparate a um médico. Nas urgências era o que havia mais, pessoas desesperadas a dizerem coisas absurdas. Fez questão de salvar a vida àquele homem. “Um dia vais morrer”, pensou, olhando para a cara do velho, “mas não vai ser hoje, não vai ser nas minhas mãos.”

Passados uns dias, foi aos cuidados intermédios falar com um colega e ouviu chamarem por ele em voz baixa: “Doutor, doutor!” Era o pide, estendido na cama, as canelas muito brancas à mostra. O José contou-me que fingiu que não o ouviu, mas depois não resistiu e olhou para o velho. Aproximou-se e debruçou-se sobre ele como um garoto que se acerca, com repugnância e fascínio, de uma alforreca espapaçada na areia, junto à rebentação, só para se certificar de que ela já não lhe pode fazer mal. Achou-o digno de dó, insignificante. E o pide disse-lhe assim: “Deixe-me aliviar um peso que trago na consciência. Tenho de lhe contar uma coisa.” E o José fez menção de recuar, porque pensou: “Não, não te vais servir de mim como teu confessor, agora que estás cheio de medo de morrer”, mas o outro agarrou-lhe a manga da bata e falou muito depressa: “Fui eu que meti a fotografia na carta que o doutor escreveu da Alemanha à doutora Teresa Barros.” E o José ficou a olhar para ele, sem palavras. O pide aproveitou a pausa e explicou. Todas as cartas que iam para casa dos pais da Teresa eram abertas. Os pais dela eram oposicionistas conhecidos, tinham estado os dois presos, tinham sido os dois torturados, eram vigiados em permanência. Quando o pide leu a carta e viu que era de um apaixonado da Teresa, que por sinal já andava metida nas lutas académicas e até já tinha ficha, fez o que eles faziam sempre nesses casos: meteu a carta no envelope e, antes de o fechar novamente, enfiou lá dentro uma fotografia pornográfica. Tinha na gaveta um maço delas, exactamente para esse fim. O José ouviu isto e soltou o braço com um repelão, ficou a olhar para o pide. Disse-me que, mais do que nojo ou raiva, sentiu a vertigem da desproporção entre a causa e o efeito, entre o gesto comezinho de meter uma fotografia sórdida num envelope e o fim prematuro, antes sequer de começar, de um grande amor. Percebeu tudo. Percebeu o olhar frio da Teresa quando ele voltou das férias de Verão e as aulas recomeçaram, em 1971. Percebeu que as suas palavras ternas, na carta para ela, tinham sido contaminadas por aquela fotografia pornográfica, pelas impressões digitais do pide, pelo hálito dele. De repente, veio-lhe a raiva, que até ali tinha abafado. “Como uma onda de vómito a vir-me à boca”, disse-me ele. Atirou ao pide: “Para que é que me contaste isso, cabrão? O que é que eu faço com a tua merda? Queres que eu te ajude a limpá-la, é?” Virou costas e foi-se embora. Nem quis saber se alguém tinha ouvido. Estava-se nas tintas.

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Rui Gaudêncio

Contou-me que aquilo foi um golpe muito duro, que o magoou muito mais do que a recordação da tortura. Nunca mais tinha visto a Teresa. Soubera que ela fora libertada pouco antes do 25 de Abril, que depois se casara e fora viver para o estrangeiro. Entretanto, ele próprio se casara, gostava muito da mulher, gostava muito da filha, mas guardara sempre a Teresa num recanto especial da memória. E agora aquele pide arrancara a Teresa desse recanto secreto e pusera-a bem à vista, virando tudo de pantanas. Viste O Pianista, do Polanski? O José disse-me que, quando viu esse filme, muitos anos depois, já viúvo, houve uma cena que o perturbou muito. Teve de sair do cinema, não aguentou. É aquela cena em que o pianista, fugindo aos nazis, se esconde uma noite em casa da violoncelista polaca por quem se apaixonou antes da guerra, com quem esteve quase a namorar. Ela também gostava dele, mas não chegaram a dizê-lo um ao outro de viva voz, e a invasão alemã separou-os. Os anos passaram-se, ela casou-se com um gentio e está agora grávida. O pianista acorda de manhã no sofá, ao som do violoncelo, levanta-se, entreabre a porta e, pela fresta, vê-a a tocar na divisão contígua. E vislumbra ali, durante uns segundos, a vida que podia ter sido a sua e de que os alemães o privaram. E o José, sentado na plateia, vislumbrou naquela cena, durante uns segundos, a vida que poderia ter sido a sua, ao lado da Teresa, e de que a PIDE o privou.

Contou-me que, assim que entrou em casa dele, ao fim de tantos anos sem se verem, a Teresa pôs a carta da Alemanha em cima da mesa da cozinha e lhe disse: “Tenho uma coisa para te contar.” E que ele lhe respondeu: “Já sei o que é, não me mostres essa fotografia, peço-te.” E explicou-lhe como é que ficara a saber. E ela disse-lhe que só percebeu muitos anos depois, quando, numa visita a Portugal, a mãe lhe perguntou o que era feito “daquele rapaz do teu curso, o Zé, por quem tu tinhas um fraco”. E ela, que sempre se orgulhara de ser tão discreta, tão reservada, ficou estupefacta ao perceber que a mãe decifrara tudo nas inflexões das suas palavras, nos seus gestos. “Sempre julguei”, acrescentou a mãe, “que fosses namorar com ele. Sempre achei que era o homem certo para ti.” E então ela disse à mãe que sim, que tinha tido um fraco pelo Zé, é certo, mas... e neste ponto hesitou, porque, visto àquela distância, o motivo lhe pareceu idiota, pueril, talvez um mero pretexto de que ela se servira para se negar àquele amor. Talvez, com dezanove anos, não estivesse preparada para ser feliz. A mãe perguntou-lhe: “Mas... o quê?” E ela explicou que ele lhe tinha mandado uma fotografia horrível numa carta, e que ela tinha apanhado uma grande desilusão. E foi buscar a carta, que guardara sempre dentro de um livro, no seu quarto de solteira, e mostrou-a à mãe. E a mãe viu a fotografia e soltou um riso amargo e disse-lhe: “Ó filha, porque é que não falaste comigo? Mas tu achaste que foi o Zé que te mandou isso? Isso foi a PIDE! Mandaram-me tantas fotografias dessas, nas cartas do teu pai...” E ali na cozinha, depois de contar isto ao José, a Teresa tirou a fotografia de dentro do envelope, tendo o cuidado de esconder a imagem na concha da mão, acendeu um bico do fogão, pegou-lhe fogo e deixou-a arder dentro do lava-loiça, e depois beijou a carta e guardou-a no bolso e disse: “Desde aquele dia em que a minha mãe me abriu os olhos, sempre quis fazer isto. Sempre quis destruir esta fotografia, que tanto mal nos fez, mas tinha de ser contigo, na tua presença, depois de te explicar o mal-entendido.”

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Vi no lava-loiça as cinzas da carta, um canto de papel ainda intacto. A cozinha cheirava a queimado.

O José contou-me que perguntou à Teresa: “E agora? O que fazemos com esta sabedoria toda? Agora que estamos velhos, ainda temos alento para surpresas?” E sabes o que ela lhe respondeu? “Agora, recomeçamos exactamente onde ficámos no dia 6 de Abril de 1971, quando a PIDE nos prendeu, às duas da manhã. É como se nos tivessem dado uma segunda vida para vivermos. Com a vantagem de sabermos muito mais do que sabíamos naquela altura. Éramos uns miúdos, mais nada. Não é com isto que toda a gente sonha? Voltar atrás, mas sabendo o que sabe hoje? Pois bem, a nós deram-nos essa oportunidade.”

O José disse-me que ele e a Teresa se vão agora descobrir um ao outro. Vão perceber se são ou não o grande amor da vida um do outro. Gosto muito desta história, Lorenzo, porque não sei como vai acabar. Parece-se com a nossa história, que também não sei como vai acabar.

Parto para Milão. Pouco importa o dia em que irei viajar, pouco importa a companhia aérea que me irá levar, as escalas que farei ou não farei. O que importa é que faças o que te peço, contanto que o queiras fazer, contanto que sintas a urgência de o fazer. No dia 15 de Julho... repara, dou tempo de sobra para que te prepares... no dia 15 de Julho, de manhã, leva para a academia uma mesa de armar e duas cadeiras. Arma a mesa no meio do claustro, ao lado da estátua de Napoleão, aquela estátua a que nunca achei piada nenhuma, com a qual sempre embirrei. É uma figura cheia de si, despida de dúvidas, e eu prefiro os gestos hesitantes. Mas não há nada a fazer, é ali que toda a gente passa, tens de armar ali a mesa, à ilharga daquele figurão. Põe uma cadeira de cada lado da mesa. No rebordo da mesa, prende com fita-cola o cartaz em letras bem grandes que trouxeste de casa, já pronto, a dizer: “Senta-te à minha frente e olha-me nos olhos um minuto.” Às dez horas em ponto, senta-te numa das cadeiras, fecha os olhos e espera. Tomara que não chova, não há-de chover, se Deus quiser, como diz a minha mãe. O mês de Julho há-de mostrar-se à altura das circunstâncias. Quando ouvires alguém a sentar-se na cadeira à tua frente, abre os olhos e fita essa pessoa durante um minuto. Mesmo que o não saibam, as pessoas estão sedentas de olhar os outros nos olhos, estão cansadas dos ecrãs. Não faltará gente a aceitar o desafio, a sentar-se à tua frente, a devorar-te com os olhos. Talvez se forme uma fila. Pensando bem, talvez seja melhor pedires a dois ou três amigos teus que te acompanhem, para cronometrarem o tempo, para manterem as distâncias entre as pessoas na fila, para estabelecerem corredores de circulação, evitando que haja ajuntamentos. É muito importante que se cumpra o famoso distanciamento físico, que ninguém chame a polícia, que ninguém te interrompa. Permanece ali duas horas. Não é muito, duas horas passam num instante. Estarei por perto, algures no claustro, a ver-te. Olha bem as pessoas nos olhos, uma após outra. Procura nos olhos delas tudo o que ali há. Procura-me nos olhos de cada uma das raparigas que ali se sentarem. A certa altura, discretamente, irei aproximar-me. Se fila houver, irei para a fila. E, quando chegar a minha vez, quando o teu amigo me fizer sinal que avance, sentar-me-ei na cadeira à tua frente e tu abrirás os olhos. Não levarei o vestido vermelho com flores brancas, isso seria demasiado fácil para ti. Talvez corte o cabelo entretanto ou o pinte, não te fies na tal fotografia que talvez tenhas visto ou talvez vejas ainda, em que eu apareço de costas, no Rossio. Procura-me nos olhos de todas as raparigas que ali se sentarem, e até nos olhos dos rapazes. Poderei ir vestida de homem, só para despistar. O que importa é isto: se o que nasceu entre nós nestes cinco meses valeu a pena, irás reconhecer-me. Irás reconhecer-me sem nunca me teres visto. Irás abrir os olhos e, ao fitar-me, saberás que sou eu. Estenderás os braços por cima do tampo da mesa e dar-me-ás as mãos. Não terás dúvidas. Ou antes, terás dúvidas, mas saberás tomar partido delas. Saberás confiar nas tuas dúvidas. Exijo-te apenas isso, que confies nas tuas dúvidas. E começarei então, pela vida fora, a pintar o teu retrato.

Fim


18 de Junho de 2020

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(Canção do Capítulo IV: poema de Mário Cesariny, música, voz e piano de Miguel Ramos Leal; canção do Capítulo V: poema de Alexandre O’Neill, música, voz e piano de Miguel Ramos Leal.)

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