Editorial

Os Sopranos na Sala Oval

O Presidente dos EUA usa os seus poderes para benefício pessoal ou para a sua protecção, como é o caso do perdão da pena de prisão ao ex-conselheiro Roger Stone.

Trump não está em Washington com qualquer ideia de missão ou de dedicação à defesa do bem público, mas apenas interessado no seu próprio umbigo. O Presidente dos EUA usa os seus poderes para benefício pessoal ou para a sua protecção, como é este o caso. Trump perdoou ao amigo, antigo conselheiro e guru Roger Stone, na última sexta-feira, o cumprimento de uma pena de 40 meses de cadeia.

A deferência é simples de explicar e impossível de aceitar em qualquer regime: Stone foi condenado por mentir ao Congresso, manipular testemunhas e obstruir as investigações a propósito da interferência russa nas eleições que Trump ganhou a Hillary Clinton. Neste estranho guião, uma espécie de anti-Rocky, segundo o qual o Kremlin é quem elege o inquilino da Sala Oval, Stone foi elogiado várias vezes pelo Presidente dos EUA, pela coragem de resistir a “um procurador desonesto e fora do controlo”, que procurava provas de ingerência estrangeira nos EUA.

Stone é uma peça-chave para explicar este guião e sabe-o muito bem, como demonstram as pressões públicas à medida que se aproximava a sua entrada na prisão. Trump também o sabe. Recompensou o silêncio e impediu revelações escandalosas.

Claro que o Partido Democrata reagiu a este perdão escabroso, de tão ostensivo, acusando o Presidente de agir como um “chefe da máfia”, de atacar o Estado de direito e de abuso de poder. Mas era bem mais importante que os republicanos, caso não sejam apenas um aglomerado de interesses oportunistas, condenassem estas atitudes de um presidente que nem dignifica o país nem o partido. A excepção é Mitt Romney, que sublinhou a “corrupção histórica sem precedentes”. Há muito da saga Padrinho ou dos Sopranos nesta comutação de pena e nos homens do Presidente condenados pela Justiça.

Morgan Pehme, Daniel DiMauro and Dylan Bank, os autores do documentário Get me Roger Stone, da Netflix, lançam a pergunta: “Depois de tudo o que passaram juntos, é provável que Stone e o Trump tenham chegado simultaneamente a um momento de grande necessidade. Trump resgatou agora Stone, mas será que o Stone pode retribuir o favor?” Afinal, foi Roger Stone quem lançou a ideia da candidatura presidencial, quem a liderou inicialmente e quem dispõe do maior arsenal de truques baixos para ser bem sucedido na manipulação das redes sociais numa reeleição. Stone pode ser a personagem ­de que Trump precisa para ­esta segunda temporada na Sala Oval.

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