Porto vai pintar novas ciclovias com a prata da casa

Vereadora da mobilidade explicou porque vai demorar a cidade seis meses a pintar ciclovias que já estavam planeadas “há largos meses”

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Ciclovias vão ser feitas com recurso a tinta e separadores Paulo Pimenta

A vereadora da Mobilidade da Câmara do Porto justificou esta quarta-feira o prazo de seis meses apontado para a pintura e sinalização de um conjunto de 35 km de novas vias cicláveis na cidade com o facto de os trabalhos serem realizados, na íntegra, por equipas municipais. Num debate sobre mobilidade pós-covid com um representante do município espanhol de Valladolid, a autarca admitiu que os trabalhos possam começar pelos troços onde seja mais eficaz a ligação a escolas, ao metro e interfaces de transporte, já no Verão, e que o prazo de conclusão até possa ser antecipado.

A vereadora da Mobilidade do Porto participou no terceiro debate online sobre Mobilidade Pós-Covid organizado pelo projecto Boost – uma parceria do Centro de Investigação do Território Transportes e Ambiente (CITTA), da Universidade do Porto e da Universidade de Aveiro (UA), que procura impulsionar o uso da bicicleta em contextos urbanos sem grande tradição ciclável – e pelo Laboratório de Planeamento e Políticas Públicas, da UA. Do outro lado, em Valhadolid, o responsável local pelo serviço de transporte rodoviária, Álvaro Herédia, explicou também o que tem vindo esta cidade espanhola a fazer para retirar protagonismo ao automóvel e garantir mais espaço público para peões, pessoas em bicicleta e autocarros. 

Valhadolid está a criar rapidamente 25 km de vias cicláveis, 22 mil metros quadrados de espaço pedonal em ruas a cortar definitivamente ao trânsito e 11,3 quilómetros de faixas bus, aproveitando o lento desconfinamento da sociedade espanhola. No Porto a estratégia de pedonalização tem sido, para já, mais táctica, com intervenções de fim-de-semana que têm gerado reacções distintas, admitiu Cristina Pimentel. O município, adiantou, já tem tido pedidos para estender este projecto a outras ruas - como a da Picaria, nas imediações da zona da Movida, mas também solicitações de quem gostaria de parar com ela, notou.

Assumindo a novidade e o carácter desafiante da experiência, a autarca deu conta de que o município tentará encontrar forma de mitigar os transtornos e garantir o acesso a algumas das zonas alvo deste corte de trânsito temporário, sem que para isso seja preciso recorrer ao automóvel particular. Noutras, como em Rodrigues de Freitas, a opção inicial de permitir o acesso de autocarros à rua acabou por ser abandonada, dada a adesão dos moradores a esta disponibilidade do espaço.

O conflito já existia

No mesmo dia em que o The Guardian dava conta de novos dados que ligam a poluição ao agravamento dos sintomas da covid-19, os dois protagonistas deste debate admitiram que a pandemia se tornou numa oportunidade para os decisores políticos locais recuperarem espaço público até aqui entregue ao automóvel. E Álvaro Herédia, que já dirigiu os transportes de Madrid, assumiu que a rapidez com que as intervenções têm sido feitas visa impedir, claramente, que a sua cidade chegue a Setembro ou Outubro com níveis de tráfego rodoviário muito acima do que existia antes da pandemia.

O responsável minimizou os protestos que já se começam a sentir, por parte de comerciantes que temem perder os clientes se estes não puderem chegar de carro, e por automobilistas preocupados com engarrafamentos. O conflito sempre existiu, assinalou, lembrando que simplesmente não se dá tanta atenção a um mãe que precisa de descer a estrada com o seu carrinho de bebé por ter um passeio estreito e cheio de obstáculos, nem com o ciclista que recorre ao passeio para evitar uma via de tráfego mais perigoso, interferindo com o peão. O espaço “estava mal distribuído”, vincou, acrescentando que “estávamos a sacrificar as cidades para os carros”. 

O Porto enfrenta estes novos tempos com uma repartição modal menos favorável que esta cidade de Castela-Leão, dado o maior peso do automóvel nas deslocações quotidianas. O executivo liderado por Rui Moreira tinha já planeado, no ano passado, um incremento das vias dedicadas à bicicleta e outros modos activos, mas só agora, com a pandemia, se comprometeu com o avanço das intervenções. Apesar de fazerem parte de um plano, e não terem um carácter experimental, a autarquia vai seguir nelas a lógica das ciclovias instantâneas, ou pop-up, e recorrerá a tinta, separadores e sinalização para as concretizar, até ao final do ano.

Questionada sobre a necessidade de seis meses para levar a cabo este plano, quando outras cidades o estão a fazer em semanas, Cristina Pimentel deu conta de que o município não recorrerá a trabalho externo para estas obras, que serão executadas por pessoal próprio. E insistiu que, apesar da leveza das intervenções, as novas vias cicláveis têm de ser “seguras e protegidas” e, acima de tudo, “funcionar” como mais uma opção na mobilidade urbana. “Isto até pode terminar mais cedo”, admitiu, referindo que os trabalhos vão decorrer já ao longo do Verão.