Estudantes ciganos melhoram resultados: “Um avanço importante para sarar uma ferida histórica”

Ministro da Educação congratula-se com “evolução muito positiva” e fala em “trabalho necessariamente progressivo, resultante de mudanças nas práticas escolares, bem como nas próprias comunidades ciganas”.

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Tiago Brandão Rodrigues: "Não se alteram padrões culturais de um ano para o outro" Nuno Ferreira Santos

O Perfil Escolar das Comunidades Ciganas é um retrato quase completo dos alunos matriculados nas escolas públicas do continente no ano lectivo de 2018/2019. Responderam a este inquérito electrónico lançado pelos serviços do Ministério da Educação 99% dos agrupamentos e escolas não agrupadas, bem mais do que em 2016/2017 (70%). O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, comenta, por e-mail, os dados com o PÚBLICO. 

De 2016/2017 para 2018/2019 há um significativo aumento das taxas de aprovação em todos os níveis de ensino. Como interpreta estes dados?
Estes dados confirmam efectivamente uma evolução muito positiva das aprendizagens e do sucesso escolar das crianças e jovens das comunidades ciganas, também visível no aumento muito significativo de alunos que frequenta o ensino secundário. Trata-se de um avanço importante para sarar uma ferida histórica na sociedade portuguesa. Para isso, tem contribuído o trabalho que temos vindo a desenvolver, com as comunidades educativas, de promoção do sucesso escolar, através da diversificação, inovação e contextualização das estratégias de ensino e aprendizagem, envolvendo os alunos, as famílias e um conjunto alargado de entidades parceiras do campo da intervenção social. Gradualmente, tem vindo a afirmar-se a escola como um espaço no qual todos podem aprender e ser valorizados, mas não temos ilusões de que muito há ainda a fazer. Ou seja, existem progressos evidentes, mas é um trabalho que tem de se aprofundar e consolidar nos próximos anos.

Os alunos continuam a perder-se de ciclo para ciclo e muito poucos chegam ao ensino secundário. Como pretende melhorar a transição entre ciclos?
Este é um trabalho necessariamente progressivo, resultante de mudanças nas práticas escolares, bem como nas próprias comunidades ciganas, e sobretudo na relação entre escolas e comunidades. Não se alteram padrões culturais, por exemplo, de um ano para o outro. O afastamento das comunidades ciganas dos processos de escolaridade tem um forte enraizamento histórico e o que este questionário demonstra é que, mesmo no espaço de apenas dois anos, entre 2017 e 2019, são já observáveis evoluções muito positivas ao nível do sucesso educativo e do prosseguimento de estudos para o ensino secundário. Mas claro que é um trabalho que tem de continuar nos próximos anos.

Há mais pessoas ciganas a morar no distrito de Lisboa, mas Braga e Porto têm mais alunos ciganos. Comparativamente, a AML apresenta as mais elevadas taxas de retenção e abandono. Como explica esta assimetria?
Existem variações regionais que implicam um estudo mais aprofundado. Isto porque podem corresponder a diferenças existentes nos próprios padrões gerais de escolaridade, mas podem também reflectir diferenças entre as comunidades ciganas que habitam nos diferentes territórios e que têm condições, integrações e expectativas distintas. Assim sendo, qualquer resposta seria especulativa.

Durante a pandemia, muitos destes alunos, sem acesso a computadores, ficaram distantes da escola. Como evitar que se percam para sempre no próximo ano lectivo?
Não podemos acreditar que alguém esteja perdido para sempre! É importante dizer que, mesmo este ano, foi feito um esforço muito significativo – com o #EstudoemCasa, a disponibilização de computadores, as parcerias com a comunidade – para que as nossas crianças não ficassem desatendidas. No próximo ano, está já planeado um trabalho muito intenso de recuperação e consolidação das aprendizagens, estando as primeiras cinco semanas dedicadas exclusivamente a isso, mas mantendo-se ao longo de todo o ano, com um reforço muito significativo do apoio tutorial específico, do crédito horário e a contratação de mais psicólogos e técnicos de intervenção social e comunitária.