Substâncias preocupantes encontradas em protectores solares para crianças

Estudo francês analisou 71 produtos e em todos encontrou substâncias preocupantes para a saúde e o ambiente, com maior ou menor gravidade.

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Peter Cade

Um estudo francês, realizado entre Março e Maio deste ano por duas associações ligadas ao ambiente e aos direitos cívicos, encontrou substâncias preocupantes para a saúde em diversas marcas de protectores solares destinados às crianças.

Partindo de uma análise à composição de cada um dos produtos escrutinados, as duas associações concluíram que nenhum dos 71 cremes, loções, leites, mousses ou sprays está isento destas substâncias nocivas, embora estas causem diferentes níveis de preocupação e não se encontrem em igual número em todos eles. Entre os componentes mais preocupantes estão os modificadores endócrinos.

O trabalho (publicado online) foi desenvolvido por responsáveis da Wecf France e da Agir pour l’Environnement, que adquiriram 71 marcas de protectores solares que podem ser comprados também em Portugal em grandes superfícies, farmácias, parafarmácias ou lojas de produtos bio. Depois de analisarem cada um dos principais ingredientes que constam dos rótulos dos produtos, classificaram as substâncias de risco que encontraram em três categorias: extremamente preocupantes, muito preocupantes ou preocupantes. Três produtos foram ainda enviados para um laboratório, para uma análise mais detalhada. 

Além de concluírem que nenhum dos produtos analisados está livre de, pelo menos, uma daquelas substâncias, os autores desta investigação divulgada no início deste mês referem ainda que nove produtos “contêm um cocktail de pelo menos dez substâncias problemáticas” e que cinco dos ingredientes detectados em diferentes protectores são “perturbadores endócrinos extremamente preocupantes”. Além disso, as análises realizadas em laboratório levaram-nos a concluir que três produtos analisados, incluindo um bio, contêm nanopartículas que não estão indicadas no rótulo da embalagem, como é obrigatório pelas directivas comunitárias.

“Não são substâncias inócuas”

Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, diz que os resultados obtidos são suficientemente importantes para que em Portugal também se comece a olhar para estes produtos com mais atenção.

“É o primeiro estudo que conheço que pega nas marcas de uma forma muito clara e como foi feito em França estamos a falar de produtos que na sua generalidade também são comercializados cá. Este é um assunto que tem de começar a ser mais falado, porque são produtos dirigidos a crianças, bebés, grupos mais vulneráveis, e que são de venda alargada, mas têm desreguladores endócrinos ou outros produtos que podem afectar diferentes órgãos. Precisamos de perceber que não são substâncias inócuas”, diz.

As associações francesas responsáveis por este trabalho consideram os resultados suficientemente preocupantes para as levarem a exigir mesmo que seja feita “uma reavaliação” da análise custo/benefício da utilização de protectores solares.

Susana Fonseca não vai tão longe. “Para nós, é incorrecto e inaceitável que os cidadão sejam colocados perante esse dilema, porque sabemos que o cancro da pele é uma realidade e que o excesso de radiação solar na pele pode ter consequências. Temos é o direito de usar produtos que não representem uma ameaça para a nossa saúde. Precisamos de uma regulamentação que nos garanta que os produtos que estão no mercado são seguros, porque precisamos deles”, diz. O essencial, defende, é usar estes protectores o mínimo que posso, optando antes por outras regras de segurança bem conhecidas: evitar a exposição solar nas horas mais críticas, usar camisola, chapéu e óculos de sol.

Em caso de dúvida, não usar

Conceição Calhau, especialista em bioquímica da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, admite que recorre sempre “ao princípio da precaução”, ou seja, em caso de dúvida, deve evitar-se o uso. E não só no caso dos protectores solares para a infância, mas nos produtos dermoestéticos em geral.

“A presença de alteradores endócrinos nestes produtos é um tema sobre o qual não se tem falado muito, mas que tem consequências para a saúde, ao nível da obesidade, da resistência à insulina, das doenças cardiovasculares ou do cancro. Há associações completamente robustas entre mulheres que usam mais cosméticos e o cancro da mama”, diz.

A matéria é “muito sensível”, admite, e a precaução estende-se, para Conceição Calhau, ao que está estabelecido como sendo um produto legal ou não. “Em relação a estes alteradores endócrinos, o que está estabelecidos como limite seguro (para estar presente num produto deste tipo) prende-se com testes de toxicidade e não de cronicidade. A cronicidade nunca é avaliada e a questão é que estamos a falar de substâncias que se mantêm no organismo e que interferem com o sistema endócrino, com consequências muito sérias”, explica.

Mesmo o facto de, em todo o caso, não estarmos a falar de substâncias proibidas, deve ser visto com a tal precaução. “São da lista de produtos seguros até deixarem de o ser e, tal como aconteceu com outros, como o DDT, serem retirados dessa lista. É preciso evidência para isso acontecer e leva-se anos para isso, às vezes 30 anos”, lembra.

Creme da Lancaster em destaque pela negativa

No estudo são analisados protectores solares de marcas tão distintas como a Avéne, Anthelios, Bioderma, Corine de Farme, Eucerin, Garnier, Mustela, Nivea, Uriage ou Vichy, entre outros. Dos produtos analisados, aquele que aparece com mais substâncias preocupantes é um creme da Lancaster, em que foram identificadas 15 desses produtos, incluindo sete classificados pelas duas agências como “extremamente preocupantes”. Entre os produtos bio foram encontradas uma ou duas substâncias, nas categorias “muito preocupantes” ou “preocupantes”.

No caso de um creme bio dos Laboratórios Biarritz – um dos três produtos testados em laboratório no âmbito da investigação das associações as conclusões de que o mesmo possui nanopartículas foi “categoricamente refutada”. Numa resposta enviada ao PÚBLICO, o laboratório de cosmética refere que o método utilizado no estudo foi “inadequado”, porque partiu as substâncias em causa, quebrando o revestimento que possuem na fórmula habitual. Só por essa razão é que o dióxido de titânio e o óxido de zinco surgem, nos resultados, como nanopartículas, porque foram modificados com essa manipulação, alegam. Estes dois protectores minerais são os únicos autorizados para obter a certificação orgânica que o produto tem, refere o laboratório, garantindo que as duas substâncias são “sistematicamente medidas por um laboratório independente” e que “a segurança dos seus clientes e dos seus filhos estão no coração das preocupações” do Biarritz desde a sua origem.

Além dos riscos para a saúde, potencialmente causados pelas diferentes substâncias identificadas no estudo, as associações francesas chamam ainda a atenção para os riscos para o ambiente, sobretudo para os oceanos, onde vão parar grande parte dos protectores solares utilizados.