Desinformação da China e Rússia ganha popularidade depois de traduzida em francês, alemão e espanhol

A narrativa varia consoante da linguagem e o país que as produz. Desinformação com origem russa tende a destacar a fragilidade das democracias europeias e desinformação oriunda da China tende a enaltecer o país asiático.

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A equipa analisou cerca de sete mil notícias sobre a covid-19 partilhada nas redes sociais Rui Gaudencio

Rumores e notícias dúbias sobre a covid-19, produzidos por meios de comunicação estatais da Rússia, China, Turquia e Irão, distribuídos com a ajuda de bots, estão a ser traduzidos para francês, alemão e espanhol e a ganhar sucesso nas redes sociais. Muitas das histórias têm pelo menos quatro vezes mais partilhas quando comparadas com notícias de jornais mundialmente conhecidos como o Le Monde, o Der Spiegel e o El País.

A informação foi compilada pelo Projecto de Propaganda Computacional, um grupo de investigadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que está a monitorizar campanhas de desinformação no Twitter e no Facebook sobre a covid-19 desde Março.

“Quando começámos a analisar o conteúdo gerado por meios de comunicação estatais em inglês percebemos que material escrito e partilhado por este canal em espanhol estava a ter mais sucesso. E isso despertou o nosso interesse”, explica ao PÚBLICO Jonathan Bright, especialista em ciências sociais e polícias, e um dos investigadores do estudo. 

Ao todo, a equipa analisou cerca de sete mil notícias sobre a covid-19 partilhadas nas redes sociais ao longo do mês de Março. Os resultados da equipa mostram que a narrativa das notícias falsas varia consoante a linguagem e o país que as produz e onde são distribuídas. Por exemplo, notícias de órgãos de estatais russos, como o RT e a agência de notícias Sputnik, tendem a destacar a fragilidade das democracias europeia. Já notícias em espanhol, oriundas de sites chineses como a China Global Television Network e a Xinhua News Agency, descrevem o país como “líder global” no combate à pandemia. Utilizadores que falam espanhol, nos EUA, são frequentemente alvo de desinformação produzida pela Rússia ou pelo Irão.

“Estes órgãos são muito bons a criar conteúdo provocador”, sublinha Jonathan Bright. “Muitas pessoas que partilham conteúdo de locais como a Russia Today [RT] nem se apercebem que é um órgão financiado pelo governo russo. Não é óbvio sem alguma investigação.”

Embora grande parte das partilhas venham de pessoas reais, a equipa também encontrou provas de uso de bots no Twitter. Tratam-se de programas de computador que simulam comportamentos humanos nas redes sociais, frequentemente usados para difundir propaganda eleitoral.

O sucesso dos programas deriva da estratégia de fundir factos reais com factos fabricados. “Muitos destes órgãos de comunicação apoiados pelo estado misturam relatos reputáveis e baseados em factos com informação falsa ou enganadora, o que pode gerar uma maior incerteza junto do público”, explicou Katarina Rebello, outra investigadora de Oxford envolvida no projecto, na apresentação do mesmo.

No futuro a equipa quer analisar, também, notícias partilhadas em português ou arábico. Esta semana, o Facebook eliminou uma série de contas e páginas dedicadas à difusão de notícias falsas ligadas a funcionários do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e a dois dos seus filhos.

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