Desigualdade de género

“Quando o homem deixar de dizer ‘eu ajudo-te’, estará tudo bem”

A covid-19 veio sobrecarregar as mulheres com o teletrabalho e as tarefas domésticas, provando que a igualdade ainda está longe de ser alcançada, apontam professoras universitárias.

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Javier Trueba/Unsplash

A pandemia veio sublinhar o que já se sabia: persistem as disparidades salariais entre homens e mulheres; os jovens e as mulheres são os mais afectados pela crise de covid-19; e durante este período elas trabalharam mais dentro e fora de casa. No fundo, a covid-19 veio evidenciar fragilidades que estavam camufladas, avançam algumas professoras universitárias ouvidas pelo PÚBLICO.

“As mulheres foram muito afectadas por causa do teletrabalho. Nós tínhamos de cumprir tudo na mesma: dar aulas, concorrer a projectos de investigação, cuidar dos filhos…”, começa por dizer Dora Santos Silva, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL). Esta visão de que a mulher, além da carreira, continua a ter uma sobrecarga de trabalho doméstico é subscrita por Rosário Moreira, directora do Digital MBA na Porto Business School, da Universidade do Porto (PBS/UP): “Ainda há muito o estigma do ‘eu ajudo-te’, mas eu não preciso de ajuda. Quando o homem deixar de dizer ‘eu ajudo-te’, significa que estará tudo bem.”

Esta perspectiva, de que o mundo doméstico é das mulheres, reflecte-se no trabalho. Sandra Oliveira, professora na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, recorda ter viajado para a Alemanha numa pesquisa para o doutoramento e de lhe terem perguntado quem é que ficaria com os filhos, como se a tarefa de cuidar de crianças competisse exclusivamente às mães, aponta.

A crise da covid-19 conseguiu “de uma vez só, expor e agravar as desigualdades de género existentes no mercado de trabalho e nas divisões das tarefas domésticas”, avalia Luísa Agante, directora do MBA Executivo da PBS/UP, clarificando que “se as primeiras se podem colmatar com sistemas de quotas e outras normativas de reposição da igualdade, as segundas estão dependentes de mudanças culturais na sociedade”. Dora Santos Silva atribui este problema a uma questão de educação: “Os filhos foram muito habituados a que a mãe fizesse tudo, e esse comportamento ainda se verifica.”

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Da esquerda para a direita: Rosário Moreira, Renata Blanc, Luísa Agante e Patrícia Teixeira Lopes Egídio Santos

Provar o seu valor

Renata Blanc, directora do Full-Time MBA na PBS/UP, concretiza que, durante toda a sua vida, constatou que “em geral, as mulheres sentem uma grande pressão para provar o seu valor”. Nesta lógica, Dora Santos Silva conta que, durante muitos anos, dedicou-se exclusivamente à carreira: “Não pensava em ter filhos pois o trabalho absorvia-me de tal forma... As mulheres querem provar tanto que têm valor que acabam por se tornar workaholics.” Luísa Agante, que também trabalha com crianças, diz que se notam diferenças significativas de auto-estima entre rapazes e raparigas — eles têm mais do que elas — e que, a partir dos 15 anos, os estereótipos reforçam-se. 

Patrícia Teixeira Lopes, vice-presidente da PBS/UP, confessa que só recentemente é que se tem tornado mais sensível ao tema da desigualdade de género, o que a obrigou a recuar no tempo até a um episódio “caricato” ao qual não deu importância na altura – terminada a licenciatura, foi abordada por um professor que habitualmente convidava os seus melhores alunos para trabalhar num banco. “O professor ligou-me e disse: ‘Olhe, Patrícia, é a primeira vez que ligo a uma mulher, porque no meu banco só trabalham homens.’”

A docente não está sozinha no que diz respeito a relatos de conversas com comentários que foram passando despercebidos, aceites como “normais”, mas que subentendem a desigualdade existente entre géneros. Luísa Agante e Dora Santos Silva contam exactamente a mesma história: entrevistas de trabalho em que lhes perguntavam, insistentemente, se tinham filhos ou se planeavam tê-los nos próximos tempos. Sandra Oliveira lembra-se de uma entrevista de estágio em que o chefe comentou que já só havia “mulheres em tribunal”. Já passaram alguns anos, mas a professora relembra que, mesmo hoje, não se usa a palavra “juíza”, só “juiz”.

A professora de Direito ainda sente que, em reuniões de trabalho, se espera que a mulher adopte a atitude de “ouvinte” e que fale menos do que o homem. Rosário Moreira é da opinião que o paradigma “ainda vai demorar duas gerações” para se alterar por completo. Segundo Dora Santos Silva, nas empresas, os líderes “ainda olham mais para os números e acham sempre que as mulheres são mais descartáveis” — esta é uma representação social que, de acordo com a professora da FCSH/UNL, “vai demorar a ser desconstruída”. 

Texto editado por Bárbara Wong

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