O crime que não foi bem um crime e o humor subversivo de Hannibal Buress

O comediante expõe a sua versão da “intoxicação desordenada” que lhe valeu uma noite na prisão em 2017 e mostra o seu olhar impecavelmente preparado para desmontar as dissimulações do mundo no especial Miami Nights.

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A referência surge com 36 minutos de espectáculo. O comediante Hannibal Buress lembra a noite em que bebeu “tantos copos como os anos que o LeBron James tem na NBA” e passou uma noite na prisão, em Miami, por “intoxicação desordenada”. O incidente remonta a Dezembro de 2017. Já foi há muito tempo e é uma acusação menor, aponta o humorista. Provavelmente, teria esquecido logo o caso se, um mês depois, alguns meios de comunicação norte-americanos não tivessem começado a “fazer actualizações da história ao minuto como se fosse um triplo assassinato”. O caso transformou-se numa mini-notícia depois de serem divulgadas as imagens da câmara no uniforme do polícia que o prendeu. O momento alto do vídeo: “Como é que isso vai, YouTube? Sou eu, o Hannibal Buress. Este polícia é um estúpido.” Por um lado, argumenta o comediante, há muito contexto anterior que a gravação não apanha. “Para além disso, dizer aquilo pode não ser esperto, mas não é ilegal”, ri-se em Miami Nights, o seu novo especial de stand-up, publicado no YouTube a 3 de Julho, onde regressa à cena do não-crime.

Uns conhecem-no como o fiel sidekick de Eric Andre no louco The Eric Andre Show, uma atenta e desgovernada sátira ao formato dos talk-shows que domina o pequeno ecrã norte-americano em horário nobre. Outros reconhecerão o seu nome pelas piadas que fazia sobre as transgressões de Bill Cosby anos antes de, no auge do movimento #MeToo, o actor e comediante ser condenado por crimes de abuso sexual. Aos 37 anos, Hannibal Buress aperfeiçoou um timing cómico muito peculiar: o seu humor tipicamente subversivo vive tanto da postura aparentemente desinteressada com que se apresenta como do olhar impecavelmente preparado que tem para desmontar as dissimulações do mundo.

Há muita dissimulação a atacar em Miami Nights, mas neste especial, onde o seu intoxicado desencontro com as autoridades e a noite de 2017 na prisão constituem o grande tema, não deixa de ser irónico e engraçado que o humorista comece por mergulhar no estranho e libertador mundo da sua recente sobriedade. “É fascinante que, quando digo que deixei de beber, as pessoas me vaiem em vez de se confrontarem com o seu próprio alcoolismo”, brinca nos primeiros minutos do stand-up. “A única coisa má de estar sóbrio é que já não me posso esconder por detrás daquela escapatória: ‘Ah, eu estava tão bêbedo ontem, peço desculpa por me ter transformado na pior versão de mim mesmo.’ Agora, se disse alguma coisa demasiado má ou ofensiva, é porque desta vez, se calhar, estava a falar muito a sério.”

Não menos perspicazes são as suas deambulações confessionais enquanto pessoa de “nível médio de fama” (“Eu consigo muito facilmente convencer as pessoas de que se enganaram e de que não sou o Hannibal Buress quando me reconhecem na rua”, comenta divertidamente) ou as referências ao rapper 2 Chainz — que Buress descreve como uma pessoa “muito religiosa que ao mesmo tempo é muito materialista, usando a fé para pedir coisas luxuosas” —, com efeitos sonoros e visuais surpreendentemente ambiciosos e criativos para um espectáculo de stand-up.

Outras premissas parecem quase sketches de The Eric Andre Show, com os seus níveis de absurdo ligados ao máximo. Desde a vontade de “morrer de uma maneira muito própria, como o Lou Gehrig”, à ideia de dar um aparelho de auto-tune para pessoas com doenças na garganta, que “iam precisar de um computador para falar de qualquer das formas”, o humor de Buress tira-nos da nossa zona de conforto, irresistivelmente desmantelando a nossa compostura no processo.

Mas é ao incidente, ou o especial não se chamasse Miami Nights, que o comediante invariavelmente regressa. Hannibal não distorce a história ao ponto de sugerir que estava completamente inocente. “Quanto é que eu bebi? Quantos álbuns é que o Snoop Dogg tem? Ninguém sabe. Sei que são mais que dez e menos que 30”, diz. Mas não deixa de aproveitar o palco que tem à disposição para se defender do vídeo incriminatório e de apresentar a sua versão dos factos.

Hannibal diz que, naquela noite, com uma ou duas miligramas de álcool a mais no sangue, tinha o telemóvel descarregado e não conseguia chamar um Uber para regressar ao hotel onde estava hospedado. Pediu, então, a um polícia que tratasse da incumbência, com a promessa de que lhe pagaria 20 dólares pelo favor. Talvez não a melhor estratégia de sempre, aceita admitir, mas, de qualquer das formas, não necessariamente um crime. “O agente rejeitou. Tudo bem. Meti-me noutro bar para tentar carregar o telemóvel até 10% de bateria. O polícia seguiu-me! Disse que eu não estava em condições para estar dentro do bar e que tinha de sair. Eu obedeci porque não queria levar um tiro. Não queria que ele depois se explicasse com: ‘Eu tinha de disparar. Os dentes dele pareciam 32 armas pequeninas.’

O humorista, que não duvidará de que foi alvo de tratamento especial por ser negro, dedica os últimos minutos de Miami Nights à leitura de uma notícia que fornece algumas luzes sobre os problemas de álcool do polícia, que, algum tempo antes da altercação com Buress, terá fugido de um bar depois de beber demasiado whisky e tentar sufocar o barman. “Que sorte a minha. Ser preso por um fugitivo”, atira.

Miami Nights é mais do que uma demonstração de humilhação e vingança pública, no entanto. O comediante tem suficiente capacidade de controlo para não transformar o stand-up numa sessão de enxovalhamento – e nunca perde a capacidade inata de encontrar risadas no meio de situações injustas. Hannibal Buress está a equilibrar as taças da balança num momento em que a necessidade colectiva de encontrarmos esse equilíbrio se sente com cada vez mais urgência. E isso não é crime nenhum.

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