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Os estafetas querem deixar de ser “apenas um número”. Serão as cooperativas o futuro em Portugal?

Remuneração, subsídios e protecção social são alguns dos pontos que levam a pensar nas cooperativas como forma de organizar os estafetas em Portugal. Esta quinta-feira, 9 de Julho, acontece, em Lisboa, uma reunião para “medir as vontades dos estafetas” face às dificuldades do trabalho e ponderar a criação de um “sistema livre”.

Na última quarta-feira, 1 de Julho, no Brasil, milhares de estafetas de aplicações online, como a UberEats ou a iFood, saíram à rua em protesto contra as condições precárias do sector. Por cá, dão-se os primeiros passos no sentido de criar “condições mais justas” e “regulamentação” para os estafetas em Portugal. Nuno Rodrigues, bolseiro de investigação na área de tecnologia e com uma ligação ao desenvolvimento de plataformas, trabalhou, durante alguns meses de 2019, como estafeta na Glovo, Essas experiências deram força ao jovem de 30 anos para organizar uma primeira reunião no sentido de criar uma cooperativa de estafetas. A reunião, lançada através do evento Vamos criar uma cooperativa de estafetas? Uma coopcycle em Lisboa, no Facebook, realiza-se esta quinta-feira, 9 de Julho, às 17h, na Cicloficina dos Anjos, em Lisboa.

E o que é o CoopCycle? “É uma federação de plataformas”, responde. “Foi desenvolvida por pessoas da área da tecnologia e é uma plataforma semelhante a uma Glovo ou a uma UberEats, com a diferença de ser um software livre para grupos que queiram funcionar de forma cooperativa.” Nuno Rodrigues explica que a grande vantagem desta plataforma, que surge para substituir todas as outras, está na “união entre o produtor e o consumidor": “A UberEats ou a Glovo ficam no meio, são intermediários da relação entre o produtor e o consumidor, e ficam com esses ganhos. Numa CoopCycle, os estafetas podem gerir de forma autónoma os ganhos do seu trabalho.” Uma das queixas dos estafetas passa pelas comissões das entregas cobradas pelas plataformas, que Nuno denuncia. “Estas plataformas cobram entre 30% e 35% por cada parceiro. Por exemplo, numa entrega que custe 10 euros, 3,5 ou três euros vão para a plataforma.” 

Nuno explica que a criação de uma cooperativa “implicaria um conjunto de alterações” a serem pensadas no futuro. Para já, esta primeira reunião serve para “medir quais as vontades” dos estafetas e, inclusive, “definir um grupo”. “Antes de mais precisamos de saber se existe um conjunto de pessoas com interesse para esta iniciativa. Depois, temos de perceber como se instituem formas de remuneração, definir parceiros e lógicas de funcionamento interno”. 

As medidas e alterações que motivam a criação deste “software livre que substitui as outras plataformas já existentes” surgem para responder às dificuldades sentidas pelos estafetas que, afirma Nuno, a pandemia veio “acentuar e tornar mais visíveis". “Este é um dos poucos sectores onde as pessoas que não têm acesso a um mercado de trabalho mais regularizado podem entrar”, o que explica também o aparente número crescente de imigrantes a alistar-se neste tipo de trabalho.

É o caso de Rafael Vyana, brasileiro a viver em Lisboa há cinco anos, e trabalhador a tempo inteiro na Glovo há ano e meio. “Sempre andei de bicicleta e quando vim para Lisboa via muitos estafetas a passar e pensava ‘Será que dá para viver disto?’.” Trabalhou uns tempos em restauração, mas quando o restaurante onde trabalhava foi vendido teve de procurar outra opção e foi aí que decidiu juntar-se ao sector dos estafetas de aplicações online. Depois de uma viagem a Bruxelas, em 2019, descobriu o “mundo” das cooperativas de estafetas: “É melhor para o cliente porque se cria um vínculo maior, e é melhor para o estafeta porque deixamos de ser apenas um número.”

Nuno Rodrigues acredita que “há um lado muito visível no trabalho do estafeta, o que choca mais, que é o esforço físico e a exposição a factores climáticos adversos”. Mas é o facto de ser "um trabalho muito precário, variável na remuneração, como a questão do ranking e do algoritmo" que o torna tão complicado. Rafael admite a “vantagem” de ter um horário flexível que lhe permite, por exemplo, tirar férias “sem prestar declarações a ninguém”, mas reconhece o preço a pagar por essa independência. “Eu vim agora de viagem durante dez dias. Mas, para isto, estive a trabalhar durante dois meses sem tirar um dia, 12 horas por dia”, confessa.

Para além deste sistema livre, Rafael refere que seria positivo que se criassem também “infra-estruturas que garantam aos estafetas um ambiente melhor”, como espaços onde possam descansar e fazer pausas. Nuno Rodrigues refere a importância de uma cooperativa para colmatar falhas que ameaçam a qualidade do trabalho. “Não há subsídio de doença, de emprego, não há subsídios de férias, não há forma de protecção social”, completa. 

Tal como a “expansão” actual do sector, também a expansão da iniciativa para lá de Lisboa é uma das perspectivas que Nuno aponta para futuro, caso se reúnam as pessoas suficientes para avançar com a iniciativa. “Não haveria nada que impedisse que uma plataforma destas ficasse com grande parte do sector dos estafetas.”

Texto editado por Ana Maria Henriques

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