Museu de Arte de São Paulo
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A arte é para quem?

O Museu de Arte de São Paulo é considerado uma obra-prima, e com razão. Não conheço formas de defender a superioridade da arte mais convincentes do que colocar a arte, literalmente, por cima de nós. Mas isso é obsoleto, a não ser que todas as pessoas possam ser elevadas com ela.

Em 2017, numa viagem a São Paulo, visitei uma exposição das Guerrilla Girls, o grupo artivista que descortina disparidades étnicas e de género na arte, no Museu de Arte de São Paulo (MASP).

O MASP, que tem a maior colecção da América Latina, situa-se na Avenida Paulista. A própria avenida é um híbrido pela sua função na cidade: é uma das áreas mais ricas de São Paulo, delineada por arranha-céus; é um local de cultura, tendo, além do MASP, o Centro Cultural Itaú, o Centro Cultural FIESP/CIESP, e o Cinema Reserva Cultural; é um local de consumo, com mais de cinco centros comerciais; e é um local de resistência, onde ocorrem as paradas do orgulho LGBT+ e protestos de várias naturezas.

Suportada por quatro pilares e duas vigas de concreto, a estrutura do edifício parece estar suspensa no ar, desconectada do chão. Foi a solução da arquitecta Bo Bardi para uma restrição imposta aquando da construção: o edifício não poderia obstruir a vista para a cidade. Mas esta característica não é só funcional. A arquitectura conta histórias — e uma das histórias aqui contada é que qualquer coisa ou pessoa que entre no edifício ganha um estatuto de superioridade.

O MASP foi um dos museus criticado pelas Guerrilla Girls. Na exposição, os curadores apresentaram uma nota reconhecendo as falhas do museu e prometendo melhorar. E, de facto, segundo o G1, o número de obras feitas por mulheres no MASP cresceu de 6% em 2017 para 16% em 2019. É lento, mas é progresso.

Quando vou a museus, gosto de observar os visitantes. E o que verifiquei, sem surpresa, nesta exposição, foi que a maioria das pessoas presentes era branca e vestia roupa formal.

O trabalho das Guerrilla Girls obriga-nos a perguntar “Quem pode fazer arte?”. Mas, naquele dia, perguntei-me: “A arte é para quem?” Já é difícil para artistas mulheres, não-brancos e LGBT+ conseguir um lugar em museus e galerias. Quando conseguem, o que acontece com a sua arte? O que significa um poster das Guerrilla Girls dentro do MASP, fora do alcance de alguns? 6% para 16% em dois anos é suficiente, e será isso indicativo de mais mudança por vir, ou será esta exposição o início de uma longa palmadinha nas costas? E se artistas mulheres, não-brancos e LGBT+ conseguem expor o seu trabalho, mas mulheres, pessoas não brancas e LGBT+ não conseguem vê-lo, quem beneficia desta diversidade?

Em 2018, visitei novamente o MASP, e passei algum tempo no vão-livre por baixo do edifício. Quando não está a ser usado para eventos culturais, o vão é um lugar onde jovens se juntam para beber, andar de skate e ouvir música. Lá instalam-se pessoas sem-abrigo, muitas delas menores de idade, e é também um ponto de encontro para manifestantes e organizações activistas. Algures no vão, encontrei posters e graffiti alusivos a uma série de questões sociais. Chamaram-me a atenção os posters com a frase “Quem matou Marielle Franco?”, acompanhada da imagem da deputada, assassinada a 14 de Março de 2018.

O vão é um espaço público e de convívio vital para a cidade. Mas as pessoas que ali se reúnem não são as mesmas que entram no museu. São, contudo, as pessoas do vão quem deveria ter tido acesso à exposição das Guerrilla Girls. Partilham o espaço geográfico com aquele que é talvez o mais importante museu de arte da América Latina, e a sua arte mesmo assim é-lhes vetada. Lá em baixo, todos podem olhar para dentro do museu através das suas paredes de vidro. Nem todos podem estar do outro lado, a ver a avenida, de cima. E isso diz muito sobre como funciona o Brasil, e sobre como funciona o mundo da arte.

O edifício de Bo Bardi é considerado uma obra-prima, e com razão. Não conheço formas de defender a superioridade da arte mais convincentes do que colocar a arte, literalmente, por cima de nós. Mas isso é obsoleto, a não ser que todas as pessoas possam ser elevadas com ela.

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