Zero diz que estratégia para o hidrogénio “perpetua” uso do gás natural

Associação ambientalista considera que os planos do Governo para desenvolver a produção e utilização do hidrogénio no país não contribuem para abandonar rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

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Francisco Ferreira é presidente da Zero Francisco Romao Pereira / PUBLICO

A associação ambientalista Zero defende que a estratégia desenhada pelo Governo para desenvolver a indústria do hidrogénio em Portugal tem uma ligação “demasiado preponderante” ao gás natural, o que vai atrasar o processo de descarbonização da economia.

“Seria desejável”, diz a Zero, que a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (a EN-H2, que esteve até ontem, dia 6 de Julho, em consulta pública) “pudesse constituir uma forma decisiva de acelerar o processo de abandono progressivo do uso de combustíveis fósseis pela sociedade portuguesa”.

Embora o documento revele “um contributo muito relevante”, a estratégia “fica aquém de uma transição mais rápida, desejável e necessária” pela “ligação demasiado forte ao uso do gás natural”, queixam-se os ambientalistas, num comunicado divulgado esta terça-feira.

A Zero resume “a linha condutora de toda a estratégia” para o hidrogénio na utilização deste gás como forma de “reduzir ligeiramente o impacte negativo” das emissões do gás natural através da incorporação de uma percentagem de hidrogénio na rede de transporte de gás, “sem nunca se chegar a perceber como poderemos descarbonizar por completo”.

“O uso de gás ‘natural’ e a sua infra-estrutura de transporte não pode ser perpetuado como justificação do transporte de hidrogénio”, defende a associação.

Se, por um lado, faz sentido equacionar o uso da actual rede de distribuição de gás para transporte exclusivo de hidrogénio, “devem-se avaliar detalhadamente e evitar gastos enormes na construção de uma rede dedicada a hidrogénio, ou na actualização da rede de gás para transporte exclusivo de hidrogénio”, refere a associação.

A Zero lamenta que a EN-H2 não proponha um calendário de desactivação das centrais de ciclo combinado a gás natural importado, “cujos processos de extracção, transporte e liquefacção comportam níveis elevados de emissões que não são contabilizadas nos inventários nacionais [de emissões]”.

Electrificação deve ser prioritária

A associação insiste que a prioridade do país deve ser a electrificação do sistema energético nacional, “acompanhada do incremento da produção renovável”, para que se possa atingir a neutralidade carbónica “preferencialmente em 2040” (a meta nacional é 2050).

Para fazer face à crescente electrificação do sistema energético, e para acautelar a produção de hidrogénio “para os usos que se revelarem eficientes e custo eficazes ao longo do seu ciclo de vida”, a associação defende que se introduza “um conjunto de princípios que permitam ordenar a instalação de sistemas fotovoltaicos de grandes dimensões” em áreas sem interesse ecológico.

Queimar o hidrogénio numa central térmica ou em equipamentos como fogões domésticos é, “como princípio e nas condições actuais, errado, e não é uma solução de futuro por razões de eficiência comparativamente com o recurso a electricidade 100% renovável directamente injectada na rede”, refere a associação.

O hidrogénio só deve ser usado em combustão, misturado ou não com gás natural, em casos “muito particulares”, em que se revele a tecnologia mais eficiente. Em todo o caso, a associação defende que “seja detalhado um programa robusto de substituição de equipamentos que hoje utilizam gás fóssil ou derivados do petróleo” no âmbito de um plano mais vasto de eficiência energética.

Dúvidas sobre exportação

Os ambientalistas dizem ainda que há uma “aposta questionável na exportação” e que “muito antes de pensar em exportar hidrogénio é necessário utilizá-lo de modo a suprimir a utilização de combustíveis fósseis no território nacional” – os sectores do transporte marítimo e da aviação devem ser os “destinatários preferenciais do hidrogénio”.

É preciso estimar “os volumes de hidrogénio necessários por sector, em função de diferentes cenários de evolução” tecnológica e económica, e de “análises acerca da relativa eficiência energética e material, custo-eficácia e impactos do ciclo de vida da utilização de hidrogénio em comparação com outras tecnologias”, aponta a Zero.

A associação considera também que o elevado uso de água para a produção do hidrogénio (através do processo de electrólise) é um tema muito pouco discutido. “Não apenas a ciência ainda é limitada nas respostas relativamente ao uso de águas residuais” para a produção de hidrogénio, “como o volume disponível em Portugal é limitado”. Por outro lado, o recurso à dessalinização da água do mar também “não é uma via a prosseguir atendendo aos elevados custos energéticos”.

A Zero defende ainda que a biomassa não pode servir para produzir hidrogénio: “A única biomassa na componente florestal que seria admissível para utilizar na produção de hidrogénio é a biomassa residual e o seu potencial de aproveitamento está esgotado”.

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