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Vidas indígenas importam

Por cá, ainda se discute (e bem) a retirada de estátuas; acusam os ativistas anti-racistas de um “ataque à História”. Esquecem-se que, para quem continua a sofrer e morrer às mãos de um projecto colonial, essa história é a sua de todos os dias.

Durante a tarde do dia 21 de Junho, um incêndio atingiu a terra indígena de Jaraguá, em São Paulo, e ameaçou a destruição da aldeia Tekoa Itakupe, do povo guarani. Os bombeiros dão o incêndio por vencido ainda cedo, mas os relatos dos indígenas no terreno contam uma outra história: durante a noite o incêndio voltou a ganhar força e a aproximar-se da aldeia indígena. Uma conta de Instagram dedicada a Jaraguá dá conta de focos activos perto da população às 22h; já passava da meia-noite quando a jornalista Karibuxi anunciou a vitória do povo guarani contra o fogo, que já não contava com muita ajuda dos bombeiros. Infelizmente, o descaso das autoridades não é novidade para os povos indígenas.

Entre Janeiro e Março, os guarani Mbyá de Jaraguá ocuparam a terra vendida à construtora Tenda, que planeia o abate de 50% do terreno para a construção de 11 torres com 880 unidades de apartamentos. Agora, os incêndios, em Jaraguá e na Amazónia; uma história de extermínio e dor que os indígenas conhecem bem.

Sabemos que, durante a presença portuguesa no Brasil, as doenças trazidas pelos europeus, como o sarampo e a varíola, foram usadas como arma biológica contra os indígenas para acelerar o seu desaparecimento e a tomada das suas terras. Agora, chegou a covid-19. E da mesma forma que os fazendeiros espalharam deliberadamente as suas doenças para os indígenas no passado, em 2020 garimpeiros forçam a sua aproximação a povos isolados, colocando-os em risco de contágio.

A socióloga Laís tem publicado um boletim diário da situação dos #IndígenasECovid19 no Twitter e, como era esperado, a pandemia do novo coronavírus tem sido especialmente dura para com os povos originários. As mortes de lideranças indígenas, como a de Paulinho Paiakan, têm um impacto incalculável; e as mortes de anciões são perdas de conhecimentos ancestrais, que merecem tanta comoção como a que se sentiu com o incêndio em Notre Dame. O horror continua com o desaparecimento de três crianças do povo yanomami — os seus corpos tinham sido enterrados sem o conhecimento das mães, e em total desrespeito com a sua cultura.

Para agravar ainda mais a situação dos povos originários, o governo Bolsonaro é seu inimigo declarado. O presidente do Brasil, que tem vindo a menosprezar os impactos da pandemia, afirmou, em 2017, que se dependesse dele não haveria “um centímetro demarcado para reserva indígena”, reafirmando essa ameaça já como presidente. Já o Ministro do Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu, na reunião ministerial de 22 de Abril, que foi divulgada no final de Maio por ordem do Supremo Tribunal Federal, que se aproveitasse do momento em que todos os media estão focados na pandemia para fazer alterações nas leis que pudessem ser questionadas pela Justiça. Entretanto, o Ministério Público Federal começa a investigar a distribuição de cloroquina às comunidades indígenas em Roraima, uma iniciativa do Estado brasileiro, sem consulta prévia dos povos…

Por cá, ainda se discute (e bem) a retirada de estátuas; acusam os activistas anti-racistas de um “ataque à História”. Esquecem-se que, para quem continua a sofrer e morrer às mãos de um projecto colonial, essa história é a sua de todos os dias. No Brasil, continua, sem tréguas, a guerra que Portugal começou há mais de 500 anos. Uma guerra desigual, em que enquanto uns lutam pela sua sobrevivência e protecção da sua terra, outros avançam com um projecto genocida, em nome da ordem e do progresso. Uma guerra que nunca teve fim.

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