CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 78: avós, o vosso lugar é fundamental!

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Filha,

PÚBLICO -
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Estou a babysittar a Amora, enquanto vocês foram dar um passeio. Tal como uma criança pequena está a fazer uma birra por ter ficado. Corre até à porta e arranha-a, volta para perto de mim, depois regressa à porta, até que daqui a pouco — espero — se vai conformar, seguindo-me pela casa devotamente. Perante a sua aflição reajo exactamente como reajo com qualquer outra das netas que deixem à minha guarda: dou festinhas, suborno (no caso da Amora a comida é quase 100% eficaz), e basicamente assumo o controlo. E ela, como as crianças, coloca-me no topo da cadeia de comando: responde quando a chamo, levanta o focinho e abre-me aqueles olhos castanhos e sedutores, e comporta-se como se fosse “minha”.

Se não soubesse o que a casa gasta poderia narcisicamente acreditar que a Amora estava bem, completamente satisfeita, que nem sequer sentia a vossa falta. Como fazem, para além dos avós, as educadoras e as professoras quando dizem às mães: “Mal a viu desaparecer, ficou óptima!”, parecendo supor que longe da vista, longe do coração. Mas obviamente que não é assim, e vou estar atenta porque aposto que a Amora vai fazer uma birra, mal voltar a ver-vos. E eu, que quando vocês estão todos não ligo nada à pobre cadela, mas que confrontada com o vazio da vossa ausência canalizo para ela a minha energia e afecto, também vou amuar!

Senti o mesmo quando depois de um dia no papel de mãe de uma das gémeas, a pedido da própria, tu chegaste e nunca mais lhe pus os olhos em cima. Eureka, descobri, é isso que no fundo, no fundo, os avós mais desejavam: que os seus queridos netos fossem seus filhos. A constatação de que não o são é sempre um bocadinho dolorosa, Se calhar os pais irritavam-se menos com os seus pais, se tivessem consciência desse minúsculo luto que o seu regresso provoca nos avós e nos dessem uns minutos de tolerância para nos adaptarmos à nova realidade.

Beijinhos,


Querida Mãe,

PÚBLICO -
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Perante esta carta nunca mais vou poder irritar-me consigo. Nem eu nem mais nenhuma mãe que leia isto! Ainda por cima inclui as sogras, não inclui? Por isso também não nos vamos poder irritar com elas. Vai sobrar para os maridos, então!

Estou a brincar... mas até não estou, porque embora ainda não o tenha sentido na pele, consigo imaginar como deve doer “perder” os nossos filhos pequeninos. E percebo completamente que ser avó pode parecer a possibilidade de voltar a esse “sítio”. E é! Só que inevitavelmente temporária e com os chatos dos pais a interferir.

Ia escrever tantas coisas sobre como o vosso lugar é fundamental. E precioso. Mas sei que não serve de muito. O luto de não serem vossos filhos é algo a respeitar. Mas, mãe, na verdade, se lhe serve de algum consolo, ainda vai haver um tempo em que os nossos filhos nos vão “odiar” e precisar de se afastarem um bocadinho de nós, mas de vocês, avós, não! Não vão precisar de se oporem a vocês para crescerem. Aliás, podem mesmo aproximar-se, para se afastarem de nós.

A verdade é que em momentos diferentes tanto os avós como os pais tomam consciência de que eles não nos pertencem, que são deles próprios. Acho que isso custa sempre. E pronto, é neste momento deprimente e comovente, tudo ao mesmo tempo, que lhe venho propor: e se fossemos beber uma caipirinha?

Ana

P.S.: A mim não me pareceu que a Amora fizesse birra nenhuma, estava com o ar mais feliz do mundo. Talvez ela já tenha idade para perceber que não precisa de escolher entre uns e outros, e possa ficar só feliz de nos ter a todos!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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