Editorial

Uma infeliz manobra de diversão

Por muito que o queixume ressentido do Governo e do Presidente seja entendível à luz dos danos de imagem e das perdas económicas que a decisão de Londres implica, convém ser realista e reconhecer que lhe falta factualidade e sentido.

O Reino Unido impôs aos passageiros provenientes de Portugal continental quarentena. E caiu o Carmo e a Trindade nas mais altas instâncias do Estado. O ministro dos Estrangeiros considerou a decisão “surpreendente”, “errada” e “absurda”; o ministro da Administração Interna não escrutina “nenhuma razão” que a justifique; António Costa foi ao Twitter expor dois gráficos engenhosos para tentar demonstrar que o Algarve é bem mais seguro do que o Reino Unido; e o Presidente da República optou pela denúncia da ingratidão, ainda por mais cometida por um país que é, nem mais nem menos, “o nosso aliado mais antigo”. O fantasma da “pérfida Albion” voltou a pairar sobre um pequeno e leal país amigo, novamente vítima da injustiça britânica.

Por muito que o queixume ressentido do Governo e do Presidente seja entendível à luz dos danos de imagem e das perdas económicas que a decisão de Londres implica, convém ser realista e reconhecer que lhe falta factualidade e sentido. Tal como já tinha acontecido com as restrições da Dinamarca, a decisão do Reino Unido não pode de forma alguma ser denunciada por discriminação ou preconceito.

Tem por base um critério objectivo – o número de novos casos de infecção pelo novo coronavírus por cada 100 mil habitantes. Pode-se discutir se esse deveria ser o único ou o melhor critério. Mas, seja qual for a resposta, é o que está a servir de base às análises de todos os países que discutem a reabertura das suas fronteiras.

Com o segundo pior registo da Europa, com quase o dobro de novos casos em 14 dias contados até esta sexta-feira face aos registados no Reino Unido, custa a perceber a reacção de quem nos governa. Custa ainda mais a entender o gesto malabar de António Costa ao pretender isolar o Algarve para o comparar com o Reino Unido – podia ter escolhido um município da Beira onde não há sequer covid-19. E não se compreende mesmo a sugestão de Marcelo, segundo a qual o estatuto português de velho aliado justificaria o tratamento que se concede aos amigos.

A decisão britânica é terrível para a economia ou para o orgulho nacional. Mas em vez de alimentar a pose despeitada ou o queixume do pequeno pobre, que sirva como sinal para reforçar a determinação colectiva em enfrentar e superar o problema que a originou. Gestos e palavras como os que vimos e ouvimos não vão nesse sentido. Pelo contrário. Os portugueses percebem as razões do isolamento a que nos votaram. E sabem que esses registos cabem bem na categoria das manobras de diversão.

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