Opinião

O último prego no caixão da paz

A anexação e roubo da maioria do território agrícola e dos recursos hídricos da população palestiniana acabará com a esperança do mundo que confrontou a política de ocupação, destruirá as aspirações de liberdade e independência do povo palestiniano e matará quaisquer sonhos de paz.

Este mês completam-se 53 anos desde que, em criança, testemunhei o momento em que tanques da ocupação israelita entraram na minha aldeia, após a guerra de 1967, altura em que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza – incluindo Jerusalém – foram declaradas como territórios sob ocupação israelita. Desde aquela altura, até hoje, a minha família vive sob uma ocupação dura e cruel, sem sentir, nem sequer por um dia, a liberdade e a justiça. Desde aquela altura, até hoje, o povo palestiniano resiste pelo fim da ocupação.

Nos primeiros dias da ocupação de 1967, a liderança israelita anunciou, através do seu ministro de Guerra Moshe Dayan, que Israel nunca deixaria de ocupar aquele território palestiniano. Dayan implementou o plano de ocupação através da imposição, à força, da política dos factos consumados, confiscando as propriedades e os territórios dos cidadãos palestinianos para os colonizar, controlando assim a terra e as pessoas. Dayan afirmou então que não estava interessado em alcançar a Paz, pois esta exigiria a retirada dos territórios ocupados, optando pelo contrário, reiterando que queria preparar o povo israelita para viver sempre sem paz. De facto, Dayan alcançou o seu objectivo, mas conseguiu também implementar a política de controlo ao invés da cultura de paz. Através dos seus planos, a ocupação deixou de ter custos tornando-se até lucrativa do ponto de vista económico. Pois, para além dos territórios palestinianos se terem tornado um dos maiores mercados israelitas no mundo, é também Israel que consegue beneficiar de mão-de-obra barata, já que uma grande parte do povo palestiniano trabalha nos sectores da construção e da agricultura israelitas.

Dez anos depois, surgiu o Partido Likud, que tomou o lugar do Partido Trabalhista, agravando, ainda mais, a situação nos territórios ocupados, tornando-a ainda mais difícil, onde o sabor amargo da ocupação se intensificou, especialmente pela confiscação de territórios e recursos hídricos. O Likud foi claro na sua posição, recusando abdicar de um centímetro que fosse dos territórios palestinianos ocupados e avançando com o projecto de “autonomia dos palestinianos”, uma governação sem soberania ou controlo dos recursos e fronteiras, mantendo a autoridade legislativa nas mãos da ocupação. Yitzhak Shamir, primeiro-ministro israelita na altura, declarou que o objectivo desta autonomia não era separar Israel dos palestinianos, mas antes mantê-los sob o controlo israelita. 

Ao longo destes anos, as confrontações e guerras continuaram sem resultados, perdemos milhares e milhares de vidas de indivíduos inocentes e outros, igualmente inocentes, foram presos. Desde o início da ocupação até ao dia de hoje, um terço do povo palestiniano já passou pela prisão e todo o povo no geral continua a sofrer diariamente.

A História ensinou-nos que a vida de qualquer ocupação é curta e que não há conflitos sem solução. Os conflitos são criados pelo ser humano, que também tem a capacidade de os resolver. Um bom líder é aquele capaz de retirar o seu povo de uma situação, movendo-o para outra melhor, de um estado de guerra para um estado de paz. Era isso que esperávamos do primeiro-ministro israelita Netanyahu, mas, infelizmente, escolheu outro caminho, bem longe do caminho da paz, seguindo a linha do Partido Likud. Netanyahu deveria saber que nenhum povo aceita a ocupação e a opressão. Portugal é um excelente exemplo disso mesmo, um povo que resistiu à opressão e injustiça, derrubando o regime ditatorial e conseguindo conquistar a sua liberdade, através da sua revolução há 46 anos.

Cinquenta e três anos depois da abominável e injusta ocupação de 1967, Netanyahu anuncia a anexação de um terço do território palestiniano por Israel. Anúncio este que é feito depois de, há menos de dois anos, receber como presente do seu aliado na Casa Branca – Trump – a cidade de Jerusalém. No plano desta anexação incluem-se as terras dos colonatos ilegais e os territórios do Vale do Jordão, territórios que são considerados a cesta da alimentação agrícola e a fonte dos recursos hídricos do povo palestiniano, que, mesmo sem qualquer nova confiscação, já são bastante escassos. A ocupação israelita controla mais de 85% dos recursos hídricos, deixando apenas 15% para os palestinianos. Estima-se que o consumo de água dos colonos israelitas seja três a oito vezes mais que o da população palestiniana da Cisjordânia. A anexação e roubo da maioria do território agrícola e dos recursos hídricos da população palestiniana será assim o último prego no caixão da paz. Acabará com a esperança do mundo que confrontou a política de ocupação, destruirá as aspirações de liberdade e independência do povo palestiniano e matará quaisquer sonhos de paz.

A crise, causada pela pandemia da covid-19, ensinou-nos que vivemos numa aldeia global, onde precisamos de trabalhar juntos com base em leis e valores partilhados, para ser possível alcançar uma vida melhor e mais justa para todos. Netanyahu despreza todas estas normas internacionais, segue com a política de ocupação e anuncia a anexação, alegando até, nas suas recentes declarações, que a anexação é um passo rumo à paz, quando, na verdade, é algo que, seguramente, causará uma nova vaga de confrontos e de violência completamente desnecessários. O mundo inteiro concordou na rejeição total desta anexação, excepto o amigo Trump, que apoia Netanyahu e ignora o seu próprio povo. Recentemente, Netanyahu deu os parabéns a Trump por este ter imposto sanções ao Tribunal Penal Internacional, cuja única “culpa” foi tentar travar as violações dos direitos humanos e procurar a justiça para os povos oprimidos. Ao rejeitar a injustiça e condenar este plano de anexação, o mundo não está contra o direito de Israel viver em paz, mas sim contra uma política que viola as convenções e as leis internacionais, uma política que contradiz com a posição europeia, incluindo a portuguesa. O mundo tomou esta posição porque acredita que, se houver um amigo embriagado, é preciso impedi-lo de conduzir.

Tal como o resto do mundo, o povo palestiniano está ansioso pela liberdade e pela criação do seu Estado independente no seu território, com a sua capital em Jerusalém, algo que é reconhecido pela maioria dos países do mundo. Por fim, termino com as palavras de Nicolau Maquiavel: “O mais difícil e perigoso é privar uma pessoa do seu território e deixá-la com vida, mesmo tentando conciliá-la com benefícios.” Aviso todos os príncipes de que não viverão em paz e segurança enquanto estas pessoas estiverem privadas das suas propriedades e dos seus direitos.

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