A pandemia e a geopolítica (I)

Mais do que produzir profundas alterações nos grandes equilíbrios de âmbito geopolítico, a recente pandemia reflecte e acentua tendências expressas em análises já publicadas. Primeira parte de um ensaio sobre o estado do Mundo.

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A Europa já estava sob tensão. A pandemia acentuou-a Rui Gaudencio
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China: o poder mundial deslocou-se para Leste Reuters/TINGSHU WANG

As primeiras décadas deste século evidenciam o apagamento do Velho Continente face à Ásia e à América do Norte.

Apagamento “crepúsculo”, “decadência”, “retracção” são designações utilizadas para o retratar em áreas que vão das alterações demográficas que progressivamente têm envelhecido a sua população, à queda do valor com que participa no comércio e produção mundial de bens e serviços, à quase irrelevância dos seus poderes militar e securitário ou à debilidade e inconsistência da sua política externa.

A força e dimensão das suas maiores empresas não acompanhou as suas homólogas asiáticas e norte-americanas, apesar da excelência da investigação que os seus sectores público e privado desenvolvem.

Mais grave é a atitude psicológica que a Europa expressa, cada vez mais conformista, passiva e ausente de um projecto global de futuro.

A pandemia revelou compromissos inócuos, perspectivas distintas e assíncronas sobre os movimentos e encerramento de fronteiras no espaço Schengen, desinteligências sobre a natureza e montante dos fundos a aplicar na sua recuperação económica, e, mais importante,  ausência de visão abrangente de efetiva solidariedade entre povos e estados.

Vulnerabilidades reveladas há uma década acentuam-se, deixando até emergir formulações políticas estranhas à sua matriz democrática.

A Europa está a meio de uma ponte parecendo sem poder, querer ou saber definir o rumo que tomar.

Quando se podia ter instituído de um modo que a aproximaria dos EUA, aprofundando a sua natureza e conteúdo, preferiu alargar o numero de estados que a integrava, dificultando por isso a hipótese de se tornar uma “potência global”.

Riscando a orientação política das suas prioridades, não equacionou e resolveu as questões da “Defesa e Política Externa”, centrando-se no Mercado Único e mais tarde na União Económica e Monetária, acreditando ser possível prosseguir aqueles trilhos sem garantir âncoras na política interna que os sustentassem e uma visão mais integradora nos âmbitos orçamental, bancário e fiscal.

Remetendo para o final do processo as magnas questões políticas, permitiu fraturas, e o predomínio de exercícios tecnocráticos que paralisaram o seu desenvolvimento e até a consolidação dos já supostos “acquis”.

Em vez de pretender ser um Poder Mundial, a Europa preferiu ser um grande mercado, uma moeda comum, e uma enorme esperança, mas não uma “paixão” como nos lembrava Eduardo Lourenço.

Não combateu o seu “deficit democrático”, antes o eternizando, permitindo consequências inesperadas e até tensionais como a de muitos dos seus cidadãos terem começado a olhar para os seus estados nacionais como “tábuas de salvação” mais eficazes e próximas.

Acentou o “déficit afectivo” perante os seus cidadãos, não se perfilando como símbolo e modelo de referência de universalidade, de solidariedade, de cultura.

Para muitos deles, Bruxelas passou a ser mais distante que muitas das capitais nacionais!

As dificuldades e interesses globais que obrigavam a uma permanente procura e consequente debate plural e inovador, foram substituídas por “propostas sem alternativas” que um “certo regresso” aos espaços nacionais tenta minimizar ou reequacionar, mormente em matérias de liberdade e solidariedade.

A “mundialização” passou assim a coexistir com pretensões de reforço dos poderes dos seus estados constitutivos, - quando tal já era julgado como extravagante ou fora do tempo, permitindo-se o eurocepticismo ou desenvolvendo-se perversões democráticas a Leste.

O projecto europeu outrora “radioso” tornou-se “obra inacabada”, expressando mais ambiguidades e incapacidades de concretização que visões de um “destino comum”

Ninguém está imune às responsabilidades destes desenvolvimentos: ausência de lideranças, silêncios comprometedores dos cidadãos, pressões externas, todos contribuíram para um amorfismo paralisante que para alguns parece ter trocado “mais fundos” por “menos provas de vida”.

A falta de decisão ou sentido de risco tornou-se preferível a um certo “caminho das pedras” que não garantindo sucesso, teria sido provavelmente mais esclarecedor e até menos conclusivo.

Neste cenário de incertezas e impotências a pandemia criou e continuará a criar problemas sobre que devemos reflectir, e que analiticamente se situam em dois patamares:

  • O espaço global
  • A relação com a Rússia

A pandemia criou uma crise sem precedentes. A fraqueza económica e financeira que se ampliou dramaticamente nas sociedades europeias, a lenta recuperação dos seus tecidos produtivos, a difícil aproximação a anteriores padrões de consumo e níveis médios de poupança constituem condicionalismos relevantes para a consolidação do “poder nacional”, conceito assente em vários pilares nomeadamente o grau de “coesão nacional”.

O agravamento de fraturas pré-existentes, nomeadamente a desigualdade de rendimentos diminuiu a resiliência das sociedades, expondo-as de um modo que eventuais riscos têm tendência a se transformarem em ameaças ou concretizações mais ou menos perigosas.

Além disso, não sentimos ainda as consequências dos “medos” e “ansiedades” que povoam o espaço do Velho Continente, e não colhemos os frutos das reacções dos grupos mais fragilizados e com menor capacidade de adaptação.

O “racismo” tem disso sido exemplo nos EUA e Reino Unido, assumindo-se como uma espécie de bolha que pode explodir com amplitude noutros  espaços.

Também não dispomos ainda de qualquer quantificação da crise financeira que assola as empresas e das respectivas projecções nos activos do sistema bancário.

A incerteza não arrasta optimismo ou esperança!

No plano geopolítico o expectável maior afastamento face à Ásia poderia reaproximar a Europa dos EUA, mas, para que tal fosse exequível, o presidente norte-americano não poderia ser o Sr. Donald Trump.

O mundo árabo/islâmico, a África e as Américas Central e do Sul sofrem processos de erosão que indiciam consequências mais gravosas que as constatadas na Europa.

Naquele, os recursos petrolíferos e de gás natural tendem a perder valor face aos registados no passado, e as pulsões internas que daí decorrerão, associadas às profundas feridas e tensões no seu seio, não lhe augura, paz e prosperidade.

Os restantes continentes referidos continuarão a gerar fluxos de emigrantes económicos e até políticos para destinos incertos e sofrimentos assegurados.

As pandemias do passado mataram mais que a do coronavírus, mas a actual desestruturação provocada estando ainda por precisar, deverá suplantar tudo o que ainda hoje não imaginámos.

Desde o início deste século a Rússia tem reforçado um estatuto de “superpotência regional”, dotada de forte poder militar e securitário, sustentado em modernas estruturas científicas e tecnológicas e num modelo económico de exploração de recursos naturais que o aproxima dos seus homólogos dos países em desenvolvimento.

Há muito que ela deixou de ser uma “superpotência global”, não dispondo de suficiente capacidade financeira para sustentar guerras prolongadas, ou longas campanhas e expedições militares, mas podendo realizar intervenções de curta duração de “alta ou média intensidade.”

Desde a presidência de Putin, a Rússia regressou à enfatização das “velhas glórias e fronteiras” animada por um profundo ressentimento contra o Ocidente em geral, e os EUA e NATO em particular, suscitando até a suspeita que o objectivo desta última é o de a instabilizar, cercando-a e limitando a sua acção, já não nos termos do Rimland de Spykeman, mas com base numa difusa agregação de interesses às vezes não coincidentes.

Assume mesmo limitadamente um conceito de “espaço vital de interesses” nele integrando a Geórgia, a Ucrânia, a Crimeia e os países bálticos.

Parte da sua classe dirigente, para além de nunca se ter conformado com a extinção do Pacto de Varsóvia e a autonomização de vários estados da ex-União Soviética, exprime um genuíno receio que a NATO procure integrar aqueles dois primeiros estados no seu perímetro institucional e utilize o território daqueles últimos como plataforma desestabilizadora do espaço nacional russo.

Se qualquer país da NATO com receios de igual natureza organizar acções defensivas no seu território, a Rússia interpretá-las-á formalmente não como elas são – defensivas, antes as considerando prenúncio de ofensivas contra si própria.

É neste contexto, que a consabida fragilidade europeia em matéria de defesa, agravada pelo enfraquecimento da relação atlântica e pela debilitação criada pela pandemia, permite circunstâncias mais favoráveis ao desencadeamento externo de acções geradoras de fortes tensões geopolíticas e com origens diversas.

Provavelmente tais eventualidades não se concretizarão, mesmo que mais possibilitadas pela actual crise e pela saída do Reino Unido da União Europeia, mas o acentuar da sua debilidade é manifesta e o futuro próximo poderá tornar ainda mais visível a redução do seu papel no contexto mundial.

Quanto menos “questionarmos a ordem das coisas” e mais conformistas nos declararmos, apenas retardaremos a definição e procura dum modelo europeu que nos faça regressar a um certo sonho e quiçá a algo de uma “utopia” possível.